A queda moral dos bolsonaristas, por Aldo Fornazieri

A queda moral dos bolsonaristas

por Aldo Fornazieri

O escândalo que envolve Flávio Bolsonaro e a própria família do presidente da República vem se revelando bem mais grave do que parecia no início: suspeita de lavagem de dinheiro, de corrupção e até de envolvimento com as milícias. Este escândalo tem um grande alcance na disputa política em geral e na disputa pelo poder. Ele representa a queda moral dos bolsonaristas, pois eles eram os detentores quase exclusivos do discurso moral, condição que lhes dava grande vantagem estratégica já que os mantinha na ofensiva retórica e embretava seus adversários, principalmente o PT, numa já prolongada defensiva.

Se a queda moral dos bolsonaristas ainda não representa uma reversão das posições ofensiva/defensiva na relação com o PT e o campo progressista, ao menos, no momento, equilibra um pouco mais o jogo nas escaramuças e do fogo cruzado da política entre governistas e oposicionistas. O desfecho da luta pela ocupação da posição ofensiva vai depender do desdobramento da crise, das ações do governo, das ações da oposição e da virtude e capacidade dos líderes em conduzir as batalhas.

É importante observar que nenhuma força que detém o poder conseguirá mantê-lo se estiver numa longa defensiva moral. Da mesma forma, nenhuma força de fora do poder conseguirá vitórias significativas se estiver na defensiva moral. Na política brasileira recente sobram exemplos para ilustrar essas situações. Mesmo no campo militar, a defensiva moral é coveira de forças poderosas. Basta lembrar o exemplo dos Estados Unidos no Vietnã: lutavam uma guerra injusta que os colocou na defensiva moral junto à opinião pública interna e internacional, fator decisivo na sua derrota e retirada dos americanos. Ocorre que a defensiva moral erode a autoridade, a legitimidade, a confiança e o ânimo de quem a carrega, por mais meios de poder que detenha.

A moralidade, assim como a perversidade e o egoísmo, é uma potência inerente à natureza humana. Sua aspiração torna-se mais forte à medida em que as sociedades se humanizam e se civilizam, afirmam direitos, justiça, igualdade e liberdade. A exigência de conduta moral tornou-se um paradigma do republicanismo clássico por entender que o Estado deve ser res publica. E daí vem o forte repúdio às práticas de corrupção.

A exigência de moralidade na vida pública, no entanto, não está isenta de problemas. Ocorre que o discurso moral pode ser manipulado e tornar-se moralismo. O moralismo  pode ser entendido como aquela atitude que se empenha em moralizar todas as coisas e situações sem expressar uma compreensão sobre as quais o moralismo se manifesta. Assim, o moralismo se esvazia de conteúdo e se torna uma mera retórica incitadora de valores igualmente vazios. Veja-se, como ilustração, a fórmula “O Brasil acima de todos e Deus acima de tudo”. O que significa isto? Nada! Trata-se de um mero formalismo, carente de qualquer conteúdo, de qualquer significado real.

Ocorre que o moralismo vem imbricado com uma aspiração justa: o combate à corrupção, embora o moralismo seja incapaz de combate-la, pois esta requer leis pertinentes de punibilidade, a certeza de sua aplicabilidade e mecanismos de controles públicos e sociais do poder. Ademais, o moralismo vem carregado com as ideias de purificação, de pureza e de limpeza, mesmo que esta seja feita pelos instrumentos demoníacos da violência. O moralismo político, por ser um ardil na busca do poder ou de sua manutenção, sugere a violação da Constituição e das leis em nome da pureza. Ele contamina a decisão judicial, pois os juízes emitem sentenças, não a partir da Constituição, das leis e da técnica jurídica, mas a partir de sua vontade moral. Contamina as políticas públicas, pois estas também são moldadas a partir dos valores morais dos agentes públicos e políticos e não a partir das necessidades e dos direitos sociais dos cidadãos. Contamina também a elaboração legislativa, pois a carga moral conservadora privilegia grupos específicos e bloqueia direitos civis e políticas sociais necessárias.

O moralismo, em nome de valores genéricos e vazios, escamoteia os que são os verdadeiros injustos e os injustiçados e disfarça a injustiça real assentada na desigualdade, pois a sua clivagem é entre os puros e os impuros. O moralismo é uma forma de autoritarismo e pode generalizá-la, pois, em nome dos valores morais, a alteridade é negada e pretende-se construir a nação como  um lugar exclusivo para os iguais iniciados na comunidade dos puros. Em regra, os moralistas são hipócritas já que não praticam o pregam e usam o próprio moralismo não para uma melhora moral da sociedade, mas para conquistar e manter o poder. Não há um conteúdo moral no moralismo, mas mero uso instrumental.

Note-se que quase todos os políticos que foram às ruas exigir moralidade pública e o impeachment de Dilma se revelaram como moralistas sem moral, pois eram corruptos juramentados. O sistema, corrupto que era de fato, entrou em colapso, mas não foi superado. Valendo-se dessa situação, Bolsonaro apresentou-se como o último baluarte da moral e como o candidato antissistema. Sem que se completassem ainda 30 dias de governo, esse baluarte ruiu e mergulhou nas profundezas apodrecidas do sistema. A família Bolsonaro emergiu desse lodo como uma família de moralistas sem moral. Com isso, Bolsonaro perdeu a pureza e a condição de ser o eleito de Deus, por revelar-se um pecador.

Há que se notar que o discurso moralista tem uma grande capacidade persuasiva e de convencimento nos momentos das disputas, pois ele se isenta de fornecer explicações racionais. Este poder persuasivo aumenta se a sociedade está desesperançada, mergulhada na crise e nas vicissitudes do desemprego e da pobreza. Todo o mal é atribuído à corrupção que, de fato, é um mal, mas não o único e talvez nem o mais importante. Já o moralismo instalado no poder é um instrumento frágil de sua manutenção, pois o elemento mais valioso da manutenção do poder são os resultados proporcionados pelo governante em benefício dos governados. Quando os governados se sentem enganados, a sua cobrança por resultados será mais incisiva e o  repúdio ao governo fracassado será ainda mais contundente. Este agora é o grande risco de Bolsonaro que poderá ver sua lua de mel com os eleitores drasticamente reduzida.

O equacionamento da crise Queiroz-Bolsonaro não é fácil. A solução mais radical seria a renúncia de Flávio ao mandato de senador. O presidente Jair Bolsonaro, claro, não pode ser imputado pelos elementos do escândalo, mas pode ser investigado, o que o enfraquecerá politicamente. Se a crise se agravar, poderá ocorrer um aumento da tutela dos militares sobre o presidente. Se se tornar incontrolável, no limite, poderá ser pressionado a renunciar. Mas a hipótese mais provável é que ele permaneça na presidência sob forte tutela dos generais de seu governo.

Bolsonaro, seus filhos e os bolsonaristas não poderão mais atacar Lula, a esquerda, o PT, o PSol e os movimentos sociais com a mesma desenvoltura que vinham atacando. As oposições agora também estão municiadas para o fogo cruzado. O Ministério Público, o Judiciário e Sérgio Moro foram postos contra a parede pela crise. Ou darão respostas claras e convincentes à sociedade ou a máscara enganosa de sua imparcialidade será rasgada para revelar rostos acabrunhados ou desavergonhados da cumplicidade com a corrupção e com o crime.

A crise Queiroz-Bolsonaro é a continuidade da crise anterior, é a crise de um sistema falido que não quer morrer. É a crise da incapacidade das forças políticas em reformar o sistema. É a crise da falta de lideranças virtuosas e corajosas. O que se tem são políticos acostumados à política miúda, aos conchavos, à manutenção de uma ordem institucional ineficiente que esmaga os direitos dos cidadãos. É a crise da manutenção dos privilégios inescrupulosos e criminosos que condenam o futuro da juventude e do país.

O escândalo Queiroz-Bolsonaro desfez o mito do justiceiro da pureza e fechou o caminho aos bolsonaristas em sua caminhada rumo à comunidade dos bem-aventurados. Agora eles precisam caminhar na estrada dos malditos junto com gente pecadora do PT, do PSol, do MDB, do PSDB etc. É neste jogo brutal dos interesses e das necessidades que os bolsonaristas terão que se ater. Sem o manto da pureza, terão que se revelar quem realmente são. E se o governo não for capaz de dar respostas às dramáticas necessidades sociais, a onda bolsonarista  poderá se espatifar nas mãos de um povo irado, pois o povo não perdoa moralistas sem moral.

Aldo Fornazieri – Professor da Escola de Sociologia e Política (FESPSP)

 

23 comentários

  1. Tragam-me uma criança de 3 anos
    A peça “Liberdade, liberdade” insinuava que os militares, nos anos de chumbo, tinham voz decisiva em muitos assuntos fora de sua competência profissional. Um militar afirmou, falando de um problema civil: “Ora, isso pode ser resolvido por qualquer criança de três anos!”. E, depois de um momento de embaraço, acrescenta: “Tragam-me uma criança de três anos!”.

    Os Novos afirmaram que não queriam porcaria de foro privilegiado. Nada obstante, o Flávio Bolsonaro, que diz não tem nada a esconder nem a temer e que é o maior interessado no esclarecimento dos fatos cítricos, foi ao $TF pedir que respeitem o seu foro privilegiado e parem de investigar o Laranja Queiroz.

    Tragam-me um Fux

  2. Caminhemos

    Professor Aldo, à essa altura, ja nem acho mais que a sociedade brasileira esta tão preocupada assim com a corrupção do Bolsonaro e seus filhos. Claro que ha aquela parcela que acreditava de “todo coração” que o Bolso-pai e os Bolsos-filhos eram santos e nunca tocaram na bufufa publica, mas a maioria tinha la suas duvidas. O que eles querem mesmo é alguém que reerga o Brasil, volte o desenvolvimento e o pleno emprego, o resto é so conversa. Uma prova? Apesar de toda a campanha massiva e alucinante da imprensa contra Lula, dona Marisa, filhos e amigos, se Lula tivesse sido candidato, teria ganho as eleições, com facada ou sem facada. 

    Agora é muito bom que tudo isso venha à tona e também o envolvimento deles com as milicias e que o PT e demais esquerda saia da defensiva, o senhor tem toda razão, e parta para o ataque, com estratégia, pois teremos muita turbulência logo à frente. 

  3. Não iria ter uma continuidade o enganoso “A lei é para todos”?

    subtítulo> a queda moral dos falsos moralistas

  4. FALSA MORAL

    Boa noite a todas e todos

    Excelente texto do Prof. Aldo.

    O governo mal começou e a podridão já veio à tona.

    Já tenho ouvido gente falar que, apesar de tudo, o dinheiro desse obscuro negócio é pouca coisa, comparado á corrupção do PT. E ontem, o jornalista Elio Gaspari, na Folha, escreveu a mesma  coisa !!

    Aliás, a Folha já havia feito um levantamento dos 15 imóveis da família. Patrimônio declarado de 13 milhões. Sabemos, entetanto, que os valores dos imóveis são declarados num patamar sempre abaixo do que valem realmente.

    Dificilmente Bolso Pai, peço licença à Maria Luisa para utilizar a expressão dela, sofreria uma ameaça de impeachment por causa do filho. Mas é inegável, como disse o Prof. Aldo que o governo já começa na defensiva. Moralistas da sujeira é o que são.

    Concordo também com o Aldo quando ele afirma que é muito razoável — em caso de enfraquecimento desse governo — uma tutela militar, com o afastamento dos Bolso Filhos da linha de frente do governo. De qualquer forma, Flávio Bolsonaro está fora da presidência do Senado. 

    Tudo dependerá da economia. Se o governo dessa criatura der certo nessa área (o que acho muito difícil para o povão), esse pequeno deslize do Filho Querido será logo esquecido. 

    A propósito, alguém poderia me esclarecer porque Michel Termer, Jucá, Moreira Franco, Eliseu Padilha e outros do governo anterior não foram ainda conduzidos “coercitivamente” para depor? Será que o perdão das dívidas de nossa brava e honesta burguesia: 47 bilhões, tem a ver com o fato de que todos estão passeando?

    Vergonha !!

    Um abraço e vamos  à luta

     

    LULA LIVRE !

  5. Eu estou indo à forra com os

    Eu estou indo à forra com os trastes que involuíram de seres normais para coxinhas e, finalmente, para eleitores e partidários do Bozo.

    Muitos não dizem mais um pio.

    Uns poucos tentam passar o pano falando do Lula, mas já são ridicularizados.

    Restam ainda os isentões que ajudaram o Bozo por omissão.

  6. Deu no NYT
    “Com seus instintos nacionalistas, o estilo de homem-forte e um histórico de declarações rudes sobre mulheres, gays e grupos indígenas, Bolsonaro é de muitas maneiras a antítese do “homem de Davos”, termo que já foi usado para descrever o tipo de pessoa que participa da conferência anual.
    Ex-oficial do Exército, 63 anos idade, sua vitória simbolizou a frustração dos brasileiros com a elite governante corrupta.”

  7. “Bolsonaro, seus filhos e os bolsonaristas não poderão mais atacar Lula, a esquerda, o PT, o PSol e os movimentos sociais com a mesma desenvoltura que vinham atacando.”

    Aldo, quando o deputado Giacomo Matteotti foi assassinado, e as investigações começaram a apontar para o círculo próximo do primeiro-ministro Benito Mussolini, este simplesmente “assumiu todas as responsabilidades”, fechou o parlamento, e desencadeou uma ofensiva brutal contra a oposição.

    Seu raciocínio vale para políticos conservadores convencionais. Fascistas saem da “defensiva moral” pelo caminho mais brutal. Se Bolsonaro é um mero conservador, ele ficará encurralado pela volta do cipó de aroeira. Mas se ele é um fascista – e é muito provável que seja – ele continuará atacando Lula, as esquerdas e os movimentos sociais com a mesma desenvoltura, ou, mais provavelmente, com desenvoltura ainda maior.

    Seus “minions” já fazem isso todo dia na internet.

    Vamos ver no que dá.

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