Betinho e os combates à corrupção e à miséria, por Paulo Henrique Fernandes Silveira

Talvez, esse seja o momento de retomarmos os princípios que motivaram as ações de grandes pessoas, como Betinho e Maria do Socorro

Betinho e os combates à corrupção e à miséria

Para a socióloga Heloisa Fernandes, que não me deixa esquecer que esse também é o país de Betinhos e Marias do Socorro.

por Paulo Henrique Fernandes Silveira

No dia 1º de setembro de 1992, o sociólogo e militante Herbert de Souza, mais conhecido como Betinho, o irmão do Henfil lembrado na música “O bêbado e o equilibrista” (de Aldir Blanc e João Bosco), sai em marcha com outras cem pessoas pelas ruas de Brasília (PANDOLFI; GAZIR; CORRÊA, 2012, p. 134). Betinho representava o Movimento pela Ética na Política naquela manifestação que levava ao Congresso Nacional um pedido de impeachment do presidente Fernando Collor. Semanas depois, Collor pede que os brasileiros o defendam vestindo roupas com as cores da pátria. O Movimento pela Ética na Política convoca outra manifestação: com as caras pintadas de preto, milhares de jovens saem às ruas de todo o país para pedir o fim da corrupção e o impeachment. No final daquele ano, Collor renuncia. 

O novo governo que se instaura recebe demandas e contribuições de várias lideranças políticas. Em fevereiro de 1993, Lula encaminha ao presidente Itamar Franco a proposta de um Programa de Segurança Alimentar. Sua preocupação era com a miséria e a fome de milhões de brasileiros. Itamar acata a proposta e o nome sugerido por Lula para organizar os trabalhos sobre essa questão: Herbert de Souza (LANDIM, 1998, p. 253). O sociólogo decide não assumir nenhum cargo no governo. No entanto, o Movimento pela Ética na Política indica o Bispo D. Mauro Morelli para desenvolver e coordenar o CONSEA (Conselho Nacional de Segurança Alimentar).

Em 25 de abril de 1993, numa edição de domingo do Jornal do Brasil, o escritor e jornalista Zuenir Ventura relata uma visita de Betinho à “Favela do Lixão”, em Duque de Caxias, um dos municípios da Diocese de D. Mauro (companheiro de Betinho em muitas cruzadas). Betinho queria conhecer de perto as condições de vida das pessoas pobres que D. Mauro acompanhava todos os dias: “Na favela, tudo é feito de lixo: aterro, barracos, móveis e até calcinhas e biquínis que uma moradora fabrica com retalhos recolhidos do entulho. Do lixo é tirado o alimento diário: são muito apreciados os restos de supermercados que chegam nos caminhões: frutas passadas, conservas mais ou menos estragadas, arroz mofado”  (VENTURA, 1993a, p.16).

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Escritor de mão cheia, jornalista premiado por uma série de reportagens sobre                 o assassinato do ambientalista Chico Mendes, autor de livros fundamentais sobre a história política do país, Zuenir descreve com enorme sensibilidade suas percepções sobre a favela e as pessoas que vivem naquela pobreza. A menina Natália, de 8 anos, pés descalços, se encantou com Betinho, logo foi mostrar aos adultos bem vestidos o barraco de três cômodos onde mora com seus irmãos e sua mãe, pelos seus cálculos, mais ou menos, 9 pessoas. Como fazem para dormir num lugar tão pequeno? “Sei lá, a gente se amontoa” (VENTURA, Ibidem).

Ali começava outra campanha social organizada por Betinho que, novamente, recebe o apoio incondicional de D. Mauro. Meses depois de encabeçar o Movimento pela Ética na Política, Betinho convida empresários, sindicatos, políticos, artistas e a população em geral para participarem da Ação da Cidadania Contra a Fome, a Miséria e pela vida. Partindo do princípio de que democracia e miséria são incompatíveis, a Campanha da Fome, como ficou conhecido o movimento do Betinho, une as iniciativas da sociedade civil e as do governo, através da atuação do CONSEA, coordenado por D. Mauro (JACOBI, 1995, p. 28).

Naquela mesma reportagem, Zuenir estimula os jovens a entrarem na campanha: “Diante dessa avalanche de adesões, é estranha a ausência dos cara pintadas. Eles não sabem o que estão perdendo. (…) Para a geração que derrubou Collor, não há utopia melhor do que perseguir a justiça social. Pode até não consegui-la já, mas deixará como legado a lição de que não ficou parada diante da miséria como se ela fosse uma fatalidade. Lutou e denunciou a fome como escândalo e iniquidade. Betinho é um passageiro da utopia que gosta de chegar ao destino. Quem embarcou com ele no Movimento pela Ética na Política sabe que valeu a pena” (VENTURA, Ibidem).

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Uma semana depois, Zuenir volta aos temas da miséria e da fome numa série de reportagens sobre a Caravana da Cidadania, projeto com o qual Lula atravessou o Brasil acompanhado de políticos, sindicalistas e intelectuais para conhecer as privações e as necessidades dos brasileiros, especialmente, do povo nordestino. Em Águas Belas, cidade no interior de Pernambuco, a Caravana encontra-se com um grupo de pessoas lideradas por Maria do Socorro Lira Feitosa: “Quando soube da passagem da Caravana da Cidadania, ela resolveu reunir mais de 100 companheiros e formou sua própria ‘caravana’. Às 11 horas da noite anterior, começaram a descer as oito léguas, ou 24 quilómetros de Serra” (VENTURA, 1993b, p. 3). Ela vinha exigir vagas nas Frentes de Trabalho, imaginou que o grupo de Lula poderia ajudá-la. Para o trajeto, ela e seus companheiros levaram o que tinham para comer: um pouco de farinha e folhas de palma, um tipo de cacto. Lula provou o alimento e lamentou o gosto de pneu velho.

No dia seguinte, Zuenir e o senador Eduardo Suplicy acompanharam Maria do Socorro até a prefeitura da cidade. Foram apoiá-la na defesa de suas solicitações num encontro com o prefeito. Após ouvir os discursos de todos os políticos ali presentes, Socorro foi contundente: “Prefeito Zé de Julião: vosmicê me adescurpa, mas nóis num tá aqui por boniteza (…) A gente temus pressa porque quem tem fome tem pressa” (VENTURA, 1993c, p. 10).

Segundo o IBOPE, numa pesquisa realizada em dezembro de 1993, 68% da população brasileira acima de 16 anos declarava conhecer e apoiar Betinho e a Campanha da Fome (LANDIM, 1998, p. 242). O lema da Campanha passou a ser: “Quem tem fome tem pressa”. Betinho conquistara uma enorme popularidade por causa das campanhas contra a corrupção e contra a miséria. Provavelmente, ele não quis que a mobilização social do Movimento pela Ética na Política se transformasse numa plataforma política para ele ou para quem quer que fosse. A luta por cidadania e contra a corrupção deveria levar à luta por justiça social e contra a miséria.

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Para a socióloga Angela Alonso, o debate público ao longo dos anos Lula e Dilma foi marcado pela ideia de que os grandes problemas do país eram a desigualdade e a pobreza, atualmente, a narrativa que se sobrepõe é que o maior dos problemas é a corrupção (ALONSO, Entrevista para o El País). Talvez, esse seja o momento de retomarmos os princípios que motivaram as ações de grandes pessoas, como Betinho e Maria do Socorro, e voltarmos a lutar contra a violência da fome.

Paulo Henrique Fernandes Silveira – FEUSP

REFERÊNCIAS:

ALONSO, Entrevista para o El País. Disponível em: <https://brasil.elpais.com/brasil/2019/02/01/politica/1549050356_520619.html?fbclid=IwAR35spdifC6ljZL2f6rMpPYK2S5MAdK496Cp1mcjPefDD_pEWhWC_0n5Bxg˃. Acesso em: 9 fev. 2019.

JACOBI, P. Ação da cidadania contra a fome, a miséria e pela vida: um registro necessário. Proposta, n. 67, p. 27-33. Dez. 1995. Disponível em: <https://fase.org.br/wp-content/uploads/2016/06/Proposta-Revista-Trimestral-de-Debate-da-Fase-n%C2%BA-67-1995-12.pdf˃. Acesso em: 9 fev. 2019.

LANDIM, L. Notas sobre a campanha da Betinho. Ações em sociedade: militância, caridade, assistência etc. Rio de Janeiro: ISER/NAU, 1998. p. 241-287.

PANDOLFI, D.; GAZIR, A.; CORRÊA, L. (Orgs.). O Brasil de Betinho. Rio de Janeiro: Mórula Editorial, 2012. Disponível em: ˂http://www.ibase.br/obrasildebetinho/OBrasildeBetinho.pdf˃. Acesso em: 10 fev. 2019.

VENTURA, Z. O Brasil da miséria dá lição de esperança. Jornal do Brasil,              Rio de Janeiro, p. 16, 25 abr. 1993a. Disponível em: <http://memoria.bn.br/pdf/030015/per030015_1993_00017.pdf˃. Acesso em 11 fev. 2019.

VENTURA, Z. Dieta da miséria impressiona e comove Lula. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, p. 3, 3 mai. 1993b. Disponível em: <http://memoria.bn.br/pdf/030015/per030015_1993_00025.pdf ˃. Acesso em 11 fev. 2019.

VENTURA, Z. Maria do Socorro, líder que o sertão forjou. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, p. 10, 25 abr. 1993a. Disponível em: <http://memoria.bn.br/pdf/030015/per030015_1993_00026.pdf ˃. Acesso em 11 fev. 2019.

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1 comentário

  1. A tragédia no Flamengo foi causa pelos picos de energia?
    Esses picos ocorreram só na propriedade do Flamengo ou ocorreram em outros locais?
    Porque só a propriedade do Flamengo foi incendiada?

    O velhinho foi ao médico reclamar da dor na perna direita.
    O médico o examina, examina e não acha nada de errado…
    – A sua perna não tem nada, está perfeita – conclui.
    – Então, por que é que dói? – pergunta intrigado, o velhinho.
    – Deve ser por causa da idade! – diz o médico.
    – Como é que a outra também tem a mesma idade e não dói?

    Assim como a dor no joelho do velhinho não era causada pela idade, pois se fosse, o outro joelho, que tem a mesma idade, também doeria, o incêndio no Flamengo não pode ser responsabilidade dos picos de energia, pois se fosse, a cidade do Rio de Janeiro teria incendiado.
    Já pensou uma águia chocar-se com um beija-flor em pleno ar, ambos voando na mesma direção mas em sentidos opostos?
    Quem levaria a pior, a águia ou o beija-flor?
    Pois o Legacy, aeronave dos EUA, era o beija flor, e o Boeing 737, da Gol, era a águia.

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