Bolsonaro tem medo de Cristina Kirchner, por Rafael Molina Vita

Dizem que o medo e o ódio tem a mesma origem. No caso em análise, não é preciso ser psicanalista para perceber algo tão claro. Cristina reúne todos os atributos que Bolsonaro mais teme.

Bolsonaro tem medo de Cristina Kirchner

por Rafael Molina Vita

Quando as pesquisas começaram a apontar para o favoritismo da dupla Alberto Fernandez/Cristina Kirchner nas eleições presidenciais argentinas, Jair Bolsonaro partiu para o ataque: se utilizando dos mesmos expedientes da campanha eleitoral brasileira do ano passado, invocou a possibilidade da “Argentina virar uma Venezuela”. Como se não bastasse, chamou os candidatos de “bandidos de esquerda”. Pelo visto, as agressões não surtiram efeito, e só serviram para fortalecer a chapa peronista.

Dizem que o medo e o ódio tem a mesma origem. No caso em análise, não é preciso ser psicanalista para perceber algo tão claro. Cristina reúne todos os atributos que Bolsonaro mais teme.

Em primeiro lugar, ela é mulher, e o capitão já deu mostras de possuir um pânico que beira o irracional em relação ao sexo feminino. Seus objetos de admiração e amor são homens, geralmente autoritários e armados. Ele apenas aceita (suporta) a mulher em uma condição de submissão. Seus embates na vida política com Maria do Rosário e Dilma Rousseff demonstram claramente o nível da fobia, chegando ao limite de exaltar a figura de um torturador como o Coronel Ustra, que não hesitava em agredir mulheres sem a menor possibilidade de defesa.

Cristina Kirchner, a primeira mulher eleita presidente pelo voto direto na Argentina, não se colocava em uma posição de subalternidade em relação ao marido Nestor. Os dois se conheceram durante a graduação na faculdade de Direito, e construíram a vida profissional e política em parceria. Em 1985 foi eleita deputada estadual; de 1995 a 2001 foi reeleita deputada federal e senadora. Estamos falando de uma advogada e política com luz e caraterísticas próprias.

Mas não é só isso. Para “piorar” a situação, Cristina é peronista! Sim, ela faz parte de um movimento político, que apesar de suas contradições internas, tem uma tradição histórica, retomada com Nestor a partir de 2003, de lutar pela soberania nacional e melhora das condições de vida dos trabalhadores. Ao contrário do entreguismo bolsonarista, o kirchnerismo/peronismo não teve medo de enfrentar os interesses estadunidenses ao se posicionar contra a ALCA. Também promoveu um resgate da memória argentina sobre os crimes praticados durante a ditadura naquele país (1976-1983). Quem não se lembra de Nestor ordenando “bajar los cuadros” dos ditadores Rafael Videla e Reynaldo Bignone, na escola militar?

Para completar esse cenário “tenebroso” para a extrema direita brasileira, Cristina promulgou a lei de democratização dos meios, enfrentando o monopólio do Clarín (a Globo argentina), e no seu mandato foi aprovada a lei do matrimônio igualitário. Também se posicionou pela descriminalização do aborto.

Não custa lembrar que estamos falando da candidata à vice-presidência; mesmo assim Bolsonaro não consegue disfarçar sua paúra.

Mas eu entendo o capitão. Não deve ser fácil engolir uma mulher independente, articulada e popular colocando toda a sua energia no combate a um neoliberalismo tardio que devastou a economia do nosso vizinho e era visto pelos formadores de opinião da grande mídia como um modelo a ser seguido no Brasil.

É para ter medo mesmo, já que temos milhares de “Cristinas”, construindo a resistência a um sistema econômico autoritário e ultrapassado, que assim como na Argentina, já está caindo de podre.

Rafael Molina Vita – formado em Direito, membro do coletivo estadual de Direitos Humanos do PT/SP e da ABJD.

https://www.redebrasilatual.com.br/mundo/2013/05/argentina-kirchnerismo-cBrasompleta-dez-anos-entre-altos-e-baixos-7335/;

http://latinoamericana.wiki.br/verbetes/k/kirchner-cristina;

https://veja.abril.com.br/mundo/bolsonaro-chama-fernandez-e-cristina-kirchner-de-bandidos-de-esquerda/.

 

3 comentários

  1. Os líderes políticos brasileiros deveriam se inspirar na inteligência política de Cristina Kirchner. Ao perceber que seria usada para estimular o ódio, polarizar a eleição, com consequente RISCO de derrota, fez como um mestre de luta marcial. Desviou-se do petardo que receberia e usou sua força política para dar um “ipon” no adversário.
    Aqui, vemos líderes defendendo seus mesquinhos objetivos acima dos interesses do povo.

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