Bolsonaro vai encurralar a oposição?, por Ricardo Cappelli

Bolsonaro está tentando garantir sua perenidade. O objetivo central do Planalto neste momento é encontrar uma fórmula fiscal que viabilize uma espécie de continuação.

Foto Sergio Lima - Poder 360

Bolsonaro vai encurralar a oposição?

por Ricardo Cappelli

Os vereadores formam o batalhão de infantaria da luta política. São eles que entram de peito aberto na selva da disputa eleitoral. O embate é individual, pessoal e intransferível. Não tem marqueteiro que resolva. É disputa de vida ou morte, homem a homem.
Certa vez, durante uma campanha eleitoral, sentei para almoçar num restaurante na Baixada Fluminense. Na mesa ao lado, vereadores “cascudos” conversavam sobre suas reeleições.
“Esse Lula é um gênio. A cada quatro anos eu dou 50 reais para cada eleitor meu para garantir o voto. Eu só dou no dia da eleição. Lula passa quatro anos dando 120 reais todo mês. O cara é imbatível, virou mito”, disse um dos edis sem saber que era ouvido.
O Bolsa Família beneficia cerca de 14 milhões de famílias, atingindo 57 milhões de brasileiros. O valor médio do benefício é de 191 reais.
O auxílio emergencial deve injetar 300 bilhões na economia. Já beneficiou 66,2 milhões de brasileiros, multiplicando a renda dos atendidos em mais de 120%.
O impacto na aprovação do governo federal é visível. A oposição previu que aconteceria, mas se agarrou na ideia de que o apoio, assim como o benefício, é passageiro. Será?
Na dúvida, Bolsonaro está tentando garantir sua perenidade. O objetivo central do Planalto neste momento é encontrar uma fórmula fiscal que viabilize uma espécie de continuação.
O Bolsa Família custou 34 bilhões aos cofres públicos em 2019. Qual seria o impacto fiscal de ampliar o benefício médio e o perfil dos beneficiários, mantendo a sensação de um “auxílio emergencial permanente”? É aí que entra a discussão sobre novos tributos, como a volta da CPMF.
Paulo Guedes parece ter sido convencido da equação política. O que são alguns bilhões de gastos adicionais para que o projeto ultraliberal ganhe um conforto de popularidade?
O Programa Renda Brasil, provável substituto do Bolsa Família, cumprirá este papel. Para viabilizar a operação, alguns programas devem ser extintos. A oposição vai votar contra um programa de renda básica?
Esta política faz parte da agenda liberal no mundo. A RBU – Renda Básica Universal é a pauta de Bill Gates, Jeff Bezos e seus seguidores do Vale do Silício. Um grande “colchão de morfina” é a “solução generosa” do capital para o crescente exército de excluídos “inimpregáveis”.
Se os liberais vão cuidar dos pobres, o que fica para a oposição?
Parte do chamado “campo progressista brasileiro” abandonou Celso Furtado, Ignácio Rangel e a necessidade de reformas estruturais. Ignora a centralidade da questão nacional para viver da “teologia da pobreza”.
Um novo “pai dos pobres” pode estar a caminho. Se o plano der certo, a oposição terá que se reinventar. Pode ser bom.

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3 comentários

  1. Retorno a pergunta com uma outra pergunta: a esquerda é pautada pelos atos de Bolsonaro? (E mesmo assim, toda ela?)

  2. Oposição ????

    Esses continuam acreditando nas instituições e no pacto.
    e agora alguns esquerdistas estão tentando construir pontes de entendimento com a globo

  3. Primeiro, nosso companheiro Ricardo Capelli dá um caráter heróico ao vereador que é absolutamente ridículo. A maioria dos vereadores são pessoas com um projeto político pessoal, diminuto, mesquinho. Poucos são os vereadores que utilizam o cargo como tribuna política a serviço do programa de seu partido. A maioria dos vereadores faz o que bem entende. Para não falar do caráter podre do raciocínio da “compra de votos”, com o qual o sr. Capelli parece ficar bem confortável.

    Vejam só as piruetas políticas. Primeiro, Haddad tinha de ser eleito senão viveríamos a hecatombe fascista. Bolsonaro venceu. No entanto, a política da esquerda não é uma política de enfrentamento do fascismo, que exige luta política aberta e uma dose de força bruta. A esquerda descambou para… o eleitoralismo, pura e simplesmente. Já estão calculando até o efeito “Bolsa Família, modelo Bolsonaro”. Isso dá um diagnóstico formidável da falta, eu não digo nem de “perspicácia política”, mas sim de razão política por parte da esquerda. Porque não se trata mais de fazer idiotices, mas sim de não se ter a mínima ideia do que se está fazendo. O racicínio do sr. Capelli evidencia que boa parte da esquerda não sabe mais PARA QUÊ ela existe.

    Capelli acusa o que ele chama de “campo progressista” de ter abandonado “Celso Furtado, Ignácio Rangel e a necessidade de reformas estruturais.” De um lado, Capelli revela com isso ser um daqueles “economicistas”, que gosta de calcular, debater orçamento, discutir macroeconomia, mas que não domina “un carajo” de teoria política. Para Capelli, os partidos de esquerda não devem ser instrumentos da classe trabalhadora para lutar pelo socialismo, mas sim ser uma máquina a serviço de um pessoal bem direitista e despolitizado, essencialmente pequeno-burguês, para elaborar discursos eleitorais e ganhar eleições, para aplicar aquele “programinha” que não mexe em estrutura nenhuma (ou há uma revolução no Maranhão?).

    Notem a gravidade disso: para Capelli, o problema não é a crise da política, o problema é a crise do discurso eleitoral. Isto é, o grande problema da esquerda, nessa visão, não é de programa político, estratégia política, tática política e organização política, mas sim de programa, estratégia, tática e organização ELEITORAIS. Capelli desvenda, assim, o pântano em que a esquerda se meteu ao trocar o político pelo eleitoral.

    Não há saída fora da política. O fascismo prospera justamente quando não se faz a luta política, mas aquele compadrio vergonhoso que assistimos no congresso nacional, ou até em casos piores (vide o “pacto com Bolsonaro” proposto por Flávio Dino – idéia de Capelli, talvez?). O PC do B sempre foi uma fração direitista, essencialmente estalinista do “partidão”. Mas hoje parece que a esquerda desse tipo está em franca alucinação, esquecendo da hitória do mundo, de todo o problema político, da história política e tal para se lançar nas eleições do regime golpista de 2016.

    Em 2018, todo mundo já deveria ter entendido, com o que fizeram com o Lula para eleger Bolsonaro, que a estratégia puramente eleitoral se esgotou. Mas preparem-se. Começou a época da alucinação eleitoral. A esquerda vai começar a fazer coisas que até Deus duvida por causa da eleição. E a crise do capitalismo, a ascensão do fascismo, a hecatombe social, o problema do golpe de estado continental… Ora o que são essas besteiras perto de uma eleição, não é mesmo?

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