Conflito das Águas mostra efeitos da privatização do sistema hídrico em Cochabamba, por Carolina Maria Ruy

A população de Cochabamba, Bolívia, também está às voltas com o processo de venda de todo o sistema hídrico a uma multinacional estadunidense, um fato real, que ocorreu em abril de 2000.

Conflito das Águas mostra efeitos da privatização do sistema hídrico em Cochabamba

por Carolina Maria Ruy

No ensejo da votação do novo marco regulatório do saneamento, aprovado no Senado, que abre espaço para a privatização da água e do esgoto no País, vale a pena rever Conflito das Águas, filme de 2010, dirigido por Iciar Bollain.

Segundo informa a Agência Senado “O texto prorroga o prazo para o fim dos lixões, facilita a privatização de estatais do setor e extingue o modelo atual de contrato entre municípios e empresas estaduais de água e esgoto”.

No filme, a população de Cochabamba, Bolívia, também está às voltas com o processo de venda de todo o sistema hídrico a uma multinacional estadunidense, um fato real, que ocorreu em abril de 2000.

Naquele contexto, chega à cidade uma equipe espanhola para gravar um filme de época. O ambicioso projeto, que une o cético e pragmático produtor de cinema Costa e o jovem idealista cineasta Sebastián, é apresentar Cristóvão Colombo como um explorador obcecado por ouro e escravos.

Logo eles percebem a carência da população local que se amontoa para conseguir uma colocação no filme. O contraste entre a liturgia de fazer um cinema crítico e o movimento desesperado de uma população carente até mesmo do simples acesso à água se impõe.

O filme ressalta as diferenças entre os eloquentes jovens europeus e a América espanhola, expõe a hipocrisia de um discurso pretensamente engajado, mas mostra também aqueles que surpreendem com uma atitude solidária e humanitária quando a equipe se vê enredada nos protestos que deixaram a cidade ilhada durante vários dias, depois que a companhia norte-americana Bechtel tentou subir de maneira abusiva o preço da água.

Na vida real, após a pressão popular, a empresa abandonou o mercado boliviano, o contrato da água foi cancelado e foi instalada uma nova companhia sob o controle público.

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Conflito das Águas deixa no ar a questão: a obsessão pelas riquezas naturais e o espírito colonizador são apenas atributos do nosso passado?

Carolina Maria Ruy é jornalista e coordenadora do Centro de Memória Sindical

 

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