Eu realmente não me importo, você se importa?, disse Trump ao mandar matar Soleimani

Por Fábio de Oliveira Ribeiro

O fracasso da ocupação norte-americana do Iraque é um fato. A estratégia da Casa Branca para desestabilizar a Síria também fracassou. As animosidades despertadas pelo apoio incondicional dos EUA à família real saudita e à Israel continuará sendo a principal fonte do isolamento dos EUA no Oriente Médio. Até a Turquia, cliente tradicional dos fabricantes de armamentos “made in USA” começou a diversificar seus parceiros ao comprar sistemas de mísseis da Rússia.

Esse foi o contexto em que Trump decidiu mandar matar o general iraniano Qasem Soleimani. Respeitado no mundo islâmico, Soleimani ajudou os sírios e russos a derrotar Estado Islâmico. Essa criatura bestial alimentada por israelenses e norte-americanos era um câncer que estava crescendo no Oriente Médio e fomentando o fundamentalismo islâmico para a Europa.

Ao matar Qasem Soleimani o presidente norte-americano não atingiu apenas o Irã. Ele prejudicou a Síria e os países Europeus em que o Estado Islâmico recrutava terroristas. Ao que parece, Donald Trump também usará esse assassinato para alimentar a xenofobia dos norte-americanos com o intuito de reduzir as possibilidades de sucesso do seu Impeachment no Senado dos EUA.

Nenhum presidente dos EUA em tempo de guerra deixou de ser reeleito. Uma guerra no Oriente Médio certamente facilitaria a consolidação do trumpismo. O conflito também revitalizaria as vendas de armamentos “made in USA” para a Arábia Saudita, Israel, etc… A interrupção do fluxo do petróleo saudita é ruim para os norte-americanos. Todavia, a “questão chinesa” também deve ter pesado na decisão da Casa Branca de atiçar o vespeiro iraniano.

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Me parece evidente que uma crise do petróleo afetará de maneira negativa a estratégia chinesa. Uma interrupção no fornecimento do petróleo iraniano impedirá a China de continuar crescendo e distribuindo renda até aquele país se consolidar como uma irresistível potência econômica e militar Além disso, ao empurrar os europeus para o colo dos russos Trump faz o jogo do Kremlin e fica bem na fita com seu Vladimir Putin. Somente a Rússia poderia fornecer aos países da UE uma parcela significativa do petróleo que eles deixarão de receber da Arábia Saudita caso o Estreito de Ormuz se torne inavegável.

O aumento da tensão no Oriente Médio e o temor europeu de desabastecimento e/ou de um aumento de dependência da Rússia pode abrir as portas para o aumento da pressão sobre a Venezuela. O petróleo venezuelano certamente adquirirá uma maior importância estratégica se ocorrer uma interrupção no fluxo do petróleo saudita e iraniano. Entretanto, na Venezuela os norte-americanos serão obrigados a confrontar Rússia e China.

Uma pequena guerra convencional localizada seria interessante para Donald Trump e para os fabricantes de armamentos norte-americanos. Como é acionista de algumas destas empresas, o próprio presidente dos EUA abocanharia pessoalmente uma fatia dos lucros com o aumento das exportações de armamentos. O problema é que o mundo se tornou tão pequeno e complexo que qualquer ação militar num local pode reverberar em outro até a guerra sair do controle da Casa Branca. Os norte-americanos podem limitar as próprias ambições, mas eles não tem como limitar as ambições dos outros atores que tirarão proveito do conflito ou que serão obrigados a entrar nele para preservar seus interesses ou expandir seu poder global.

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Isolado na América Latina o Brasil pode se dar ao luxo de assistir tudo de camarote. Essa seria a melhor estratégia para Jair Bolsonaro. O problema é que o presidente brasileiro não existe na arena internacional senão puxar o saco do presidente dos EUA. Quando a guerra do Irã começar (na verdade ela já começou sem ter sido declarada no momento em que os norte-americanos mataram Qasem Soleimani) é evidente que Trump não terá tempo ou dinheiro para ajudar seu “amigo” brasileiro. O mais provável é que a Casa Branca aumente as exigências que tem feito ao Brasil para continuar fazendo de conta que apoia o bolsonarismo.

O assassinato a sangue frio e imotivado de Qasem Soleimani em tempo de paz prova que o niilismo neoliberal se espalhou da política para as instituições diplomáticas e militares dos EUA. Ao dar a ordem que pode ter começado a III Guerra Mundial, Trump parece ter se inspirado na frase gravada na jaqueta que Melania Trump usou para desdenhar das crianças confinadas separadas dos seus parentes num campo de concentração de imigrantes:

“Eu realmente não me importo, você se importa?”
https://www.bbc.com/portuguese/internacional-44574119

Os americanos não tem amigos, apenas interesses. Essa declaração de Henry Kissinger pode e deve ser levada em conta sempre que nos debruçamos sobre a política externa dos EUA. Todavia, me parece evidente que Donald Trump ultrapassou os limites ao confundir seus interesses pessoais com os interesses dos EUA. No último século a Casa Branca cometeu imensas atrocidades, todas elas bem conhecidas e documentadas.

Entretanto, nenhum presidente norte-americano fez o que Trump ousou fazer. Ele mandou matar o comandante militar de um país com o qual os EUA não estava em guerra. Descrito como “bad guy” por uma parcela da imprensa norte-americana, Qasem Soleimani era moderado e nunca autorizou qualquer agressão contra Israel ou contra as bases militares que os EUA tem no Oriente Médio. Os niilistas europeus se arrependeram de ter comemorado o início da I Guerra Mundial. Alguém ficará surpreso ou triste se os niilistas neoliberais norte-americanos se arrependerem de terem apoiado o início da III Guerra Mundial?