Há inocentes na favela, por Mário Lima Jr.

Os bandidos fugiram abandonando as próprias armas, comportamento que frequentemente aparece na versão oficial da polícia. Apenas Paulinho e Rômulo foram atingidos.

Foto: Leo Correa/AP
Foto: Leo Correa/AP

Há inocentes na favela, por Mário Lima Jr.

A comunidade ouviu tiros disparados por armas pesadas. Muitos tiros, parecia guerra. Depois, gritos de desespero. Mulheres imploravam por socorro, homens mandavam agir rápido, uma voz isolada pedia calma. Na esquina da entrada principal da favela, Paulinho, 11 anos de idade, caído sobre uma poça de sangue no chão, com a bicicleta ainda no meio das pernas. Alguns metros a frente, do outro lado da rua, Rômulo, mototaxista, morto com um tiro na cabeça. Tinha 25 anos e era pai de um bebê de 6 meses.

Os moradores se revoltaram: juntaram pneus, móveis, um sofá e colocaram fogo para bloquear a rua. Uma adolescente pegou duas folhas de papel em casa, colou as folhas, escreveu “PAZ” e se juntou à multidão. Policiais se aproximaram, mas não interferiram. A imprensa chegou. A primeira foto do protesto compartilhada nas redes sociais tinha uma legenda onde se lia “Bandido defendendo bandido!”. Quem compartilhou não leu a matéria (a violência em curso é o auge de um projeto político e social criminoso que contamina). O corpo de Rômulo ainda estava no chão, coberto por um plástico preto. Paulinho tinha sido levado ao hospital em estado grave, com um projétil na coluna.

Questionada pela imprensa, a Polícia Militar do Estado Rio de Janeiro declarou que agentes faziam patrulhamento na localidade quando foram atacados por criminosos e houve confronto. Os suspeitos conseguiram fugir, mas foram apreendidos três pistolas nove milímetros e seiscentos e quarenta papelotes de maconha. Os bandidos fugiram abandonando as próprias armas, comportamento que frequentemente aparece na versão oficial da polícia. Apenas Paulinho e Rômulo foram atingidos.

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A mãe do menino está em estado de choque, não fala, as lágrimas secaram. Por causa da tristeza, ela não consegue voltar para casa, todas as noites dormia abraçada ao filho. Eram quatro horas da tarde quando ele pediu para andar de bicicleta, a comunidade parecia tranquila. Embora o controle do Rio de Janeiro esteja nas mãos de bandidos ou psicopatas, do Palácio Guanabara às mais capengas bocas de fumo, e o pobre não tenha para onde ir, ele guarda a fé de que o pior não vai lhe atingir. Apesar de Rômulo e Paulinho terem muito em comum – a cor da pele, a renda familiar, o bairro de origem – com as vítimas dos frequentes assassinatos no Rio de Janeiro. É humano ter esperança.

A tia de Paulinho também deu entrevista e disse ao repórter que não houve confronto. Na opinião da senhora, policiais desconfiaram do mototaxista que passava em alta velocidade e começaram a atirar. “É assim que eles agem aqui, sem respeito pelo morador”, acusou. Os gritos de socorro que a comunidade ouviu eram delas, da mãe e da tia.

Menos de 24 horas depois, a morte cerebral de Paulinho foi confirmada. Os órgãos dele serão doados porque, mais uma vez, é humano ter esperança. Só não é humano admitir que o Estado siga matando, sem parar, criança e trabalhador. Ou pensar que a morte de negros e pobres faz parte da solução que o Rio de Janeiro pode implementar contra a violência.