5 de junho de 2026

O sequestro da vida na sociedade capitalista, por Márcia Moussallem

Vários autores e pesquisadores têm abordado esse tema e sinalizando para um avanço da exploração da vida tanto no âmbito objetivo como subjetivo da humanidade.
Imagem: AdobeStock

O sequestro da vida na sociedade capitalista

por Márcia Moussallem

Não é nenhum exagero admitirmos que vivemos o século da escuridão, na sua versão mais sutil e de grande sofisticação do sistema capitalista.

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Essa versão mais obscura revertida de luz está presente tanto na esfera pública como na privada. Vários autores e pesquisadores têm abordado esse tema e sinalizando para um avanço da exploração da vida tanto no âmbito objetivo como subjetivo da humanidade.

Recentemente li o livro “Esferas da Insurreição – notas para uma vida não cafetinada”, da psicanalista Suely Rolnik. A autora nos faz refletir que existem aspectos importantes que devemos levar em consideração nessa trama do grande capital que estão na esfera da “micropolítica”. A autora chama a atenção que não devemos estar presos às análises da macropolítica, é preciso rompermos a visão “messiânica” da revolução e considerarmos a multiplicidade de processos heterogêneos que estão presentes nas diversas revoluções “micro” como um campo de resistência e possibilidades.

Nesse sentido, a autora destaca que é nesse campo que ocorre a “captura” da força vital, presente como processos de opressão capitalista. O sujeito passa ser um zumbi, que nada sente e nada vê. Perde a sua identidade e esvazia sua singularidade. As consequências são inúmeras, desde racismo, xenofobia, machismo, homofobia… até a criação de uma massa de Fascistas.

Entretanto, é nesse campo que o grande capital ganha força e avança com sutileza, como a perversa relação “Prostituta –cafetão”. Como bem Suely Rolnik afirma, “( …) Violência colonial-capitalista(…) sutil, refinada e invisível aos olhos da consciência. É uma violência semelhante à do cafetão que para instrumentalizar a força de trabalho de sua presa – no caso a força erótica de sua sexualidade – opera por meio da sedução. Sob o feitiço, a trabalhadora do sexo tende a não perceber a crueldade do cafetão; ela tende, ao contrário, a idealizá-lo, o que leva a entregar-se ao abuso por seu próprio desejo. E ela só se livrará dessa triste submissão se conseguir quebrar o feitiço da idealização do opressor (…) máscara que ela interpreta como garantia de sua proteção e segurança”.

Suely nos faz refletir uma dura realidade do século XXI, em que a humanidade vem sendo conduzida por esse feitiço. Por outro lado, existem possibilidades de quebrarmos esse feitiço e avançarmos para processos de tomada da consciência rumo a “descolonização e resistência”. Para isso, é preciso colocarmos na agenda cotidiana questões não somente objetivas, mas questões subjetivas que são fundamentais para enfrentar o inimigo opressor.

A guerra é cotidiana, aqui e agora…

Márcia Moussallem – É socióloga, assistente social, mestre e doutora em Serviço Social, Políticas Sociais e Movimentos Sociais pela PUC-SP. Tem MBA em Gestão para Organizações do Terceiro Setor. Professora da PUC-Cogeae/SP  e da FGV-Pec/SP. 

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