Onde foi que eu errei?, por Carlos Motta

Onde foi que eu errei?, por Carlos Motta

Posso estar enganado, mas acho que uns 80% dos meus amigos, colegas e conhecidos de infância, adolescência e de jovem adulto da Jundiaí onde me criei, vão votar neste domingo no candidato presidencial que odeia homossexuais, negros e nordestinos, faz apologia à tortura, glorifica a ditadura militar, despreza a cultura e as artes, é a favor da venda indiscriminada de armas de fogo, pensa que o sexo feminino é inferior ao masculino, quis cometer atentados terroristas quando servia ao Exército, e enriqueceu, de modo mais que suspeito, depois que virou político, não apenas a si próprio, como a toda a sua família.

Jornais de todo o mundo civilizado têm alertado que a sua vitória representaria um gigantesco retrocesso ao processo civilizatório brasileiro e à incipiente democracia que o país vive.

Desde jovem, talvez sob a influência de meu pai, o saudoso capitão Accioly, carrego uma profunda ojeriza a toda forma de preconceito e intolerância, e, principalmente, à injustiça. E desde cedo, talvez por ter vivido os anos da ditadura militar, percebi que o Brasil é um país profundamente injusto, uma sociedade de castas onde os pobres são vistos pelos ricos e pela classe média apenas como uma mão de obra barata, seres inferiores que vieram a este mundo com o único propósito de servir os seus senhores.

Quantas vezes ouvi, de pessoas próximas de mim, a expressão “aquele lá não sabe qual é o seu lugar”…

A maioria desses meus velhos amigos, colegas e conhecidos se deu bem na vida, alcançou um status social bem superior ao meu. Se tornaram médicos, advogados, juízes, empresários… Eu fui apenas um jornalista medíocre, que se decepcionou tardiamente com a profissão que escolheu.

Convivemos juntos vários anos, nos encontramos inúmeras vezes em festas, em clubes, na escola, em bares, nas esquinas da vida.

Não me lembro de ter perguntado a essas pessoas, e se o fiz, foram poucas vezes, o que elas achavam do mundo em que vivíamos, provavelmente porque, na minha ingenuidade, achava que elas o sentiam da mesma maneira que eu: éramos privilegiados, sem dúvida, mas estava faltando alguma coisa, havia uma sensação latente de que algo estava errado naquela aparente paz que nos cercava.

Bem, tudo isso é passado.

O que importa é o presente – e o futuro.

O presente me traz uma enorme sensação de vazio e tristeza, por ver que essas pessoas, tão caras para mim no passado, se distanciaram anos-luz do homem que me tornei. Algumas delas até se surpreendem com o fato de eu repudiar com veemência o mito que agora idolatram.

O futuro, que não prevejo, tanto pode ser uma continuidade desse meu esforço cotidiano de ansiar por um mundo melhor, mais justo e igualitário, ou o mais profundo desânimo por ver as trevas avançarem sobre a civilização.

Seja qual for, a toda hora me pego pensando “onde foi que eu errei” por ter me tornado um sujeito tão distante daqueles que formaram o meu passado – um passado do qual tenho, apesar de tudo, saudade.

14 comentários

  1. Um caminho para reverter o erro: Uma Proposta

    Acho que para todos tem ficado claro que enfrentamos não apenas a direita convencional (minoritária neste caso), mas também a direita comportamental, formada principalmente por categorias populares que inclusive, nos primeiros anos do Governo Lula apoiavam o PT. O trabalho de desconstrução desse antigo apoio popular foi feito gradativamente, pela mídia e pelas redes sociais, identificando o PT não apenas com causas sociais (o que é muito bom), mas também como responsáveis pela “aparente” perda radical de valores sociais e familiares que grande parte da população rejeita. O PT está ficando estigmatizado como caricato, modernoso demais, tolerante com bandido e pervertor de crianças. Isso é o que temos que reverter. No plano estritamente político o nosso programa é melhor, mas, devemos retirar do campo da disputa os aspectos que nos afastam estupidamente da maior parte do eleitorado.

    Para quem acompanha pesquisas irá ver que Bolsonaro deu um salto de popularidade no voto feminino junto com a marcha #Elenão e, ainda, aumentou mais de 10 pontos a rejeição ao Haddad exatamente naquele momento. Observando em detalhe esse aspecto, será visto que o que foi mais significativo nesses números foi o voto feminino, exatamente o voto que se pretendia ganhar com a marcha. Os números não mentem.

    A rejeição a Haddad dispara mais de 10 pontos depois daquela marcha:

    http://fanoticias.com.br/ibope-rejeicao-a-haddad-dispara-e-bolsonaro-melhora-desempenho-com-eleitoras-2/

    O pior é que ainda tem gente querendo repetir a marcha. Pelo amor de Deus! Ai é que elegem Bolsonaro mesmo!

    Eu estive naquela marcha de 29 de setembro com a minha mulher e amigos, mas, a toda hora chegavam pelotões coloridos com figuras caricatas e destoantes. A equipe de Bolsonaro filma essa(o)s manifestantes mais excêntrica(o)s e posta nas redes, dividindo o que chamam as mulheres “de bem” e de família com ele (na perspectiva dos Bolsonaristas), e nós ficamos como patrocinadores daquela fauna caricata e carnavalesca. Essa é a verdade. Com minha mulher nos sentimos “usados” por meia dúzia de “minoritários”, dentro de uma marcha que procurava outra expressão. Acho que saiu o tiro pela culatra por causa da nossa ingenuidade e pela irresponsabilidade e exagero de minorias que pisam nas maiorias apenas para aparecer na TV.

    As minorias que queremos defender nos estão afundando cada vez que saem em campo e levantam bandeiras, em forma inoportuna, atiçando o sentimento conservador de populares que deviam estar votando no nosso programa, o melhor programa para eles mesmos, mas que hoje apoiam Bolsonaro.

    Para ganharmos esta eleição devemos recolocar a campanha nos trilhos da discussão política, da época saudosa do Lula, da melhor convivência e, no plano mais atual e pé no chão, mostrar ações rápidas que resolvam imediatamente a violência, a saúde e o emprego.

    Sei que alguns deste blog vão ficar criticando que sou machista e outras coisas, como há muito tempo estas pessoas o fazem sem dar ouvidos a minhas constantes alertas para estes fatos que hoje são fundamentais para a eleição. Reconheço que pela minha idade e formação sou ainda algo conservador, no plano comportamental, embora tente me policiar e melhorar, mas, em todos esses anos dentro do blog do Nassif, ninguém poderá negar o meu esforço e luta em favor das causas populares e da nação brasileira.

    Deixo mais uma vez o meu recado: Não é hora filosófica de certo ou errado, mas do voto que iremos colher na urna. Tem horas para defender abertamente minorias, mas também tem horas de alguma gente ter a gentileza de aguardar discretamente no seu armário e discutir agora um Brasil de todos, não apenas das suas minorias particulares. Isso é também civismo, inteligência política e respeito pelas outras pessoas.

    • Análise correta…

      Evidente que as feministas não aceitam essa realidade. O confronto com a sociedade conservadora é um dos principais objetivos delas… Outra, digamos ´anti-campanha´, foi a manifestação do companheiro Zé Dirceu relativo a conquista (tomada) de Poder além de se ganhar a eleição! A associação dessa fala com a tal ´venezuelazição´ tão difundida na mídia e na fala dos tucanos e da direita, foi automática.

      Numa sociedade de costumes conservadores, com a presença evangélica tão empoderada e com uma mídia tão tendenciosa não se fala nem se mostra tudo o que se almeja. Além dos nossos amigos classe média que se aliam a qualquer ´Coiso´ para se vingar de nosso êxito em políticas públicas a favor dos mais pobres, (Onde foi que errei? do Carlos Motta, 05/10/18) são fatores a se considerar.

      Enfim, vamos ao segundo turno, com as calças (e as saias) nas mãos!… Muito Juízo, gente!

  2. Faço suas o que seriam as

    Faço suas o que seriam as minhas palavras, sendo que para mim é ainda pior, sou diferente de 99% de meus amigos, incluindo filhas……

+ comentários

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome