Rumo a 2020: vamos falar de distopia, por Walter Falceta

Por volta de 1986, quase ninguém imaginava um retorno a regimes de viés fascista. A democracia se consolidaria, aos poucos, mas sem dar passos atrás.

Rumo a 2020: vamos falar de distopia

por Walter Falceta

1) Em 1969, eu vi a imagem do homem pisando na Lua. Naquela época, nós, crianças, tínhamos certeza de que a humanidade, evoluindo em harmonia, estaria estabelecendo assentamentos em outros planetas por volta do ano 2.000.

2) Naquela época, muita gente ainda acreditava em Alex Lewyt, que previa baterias domésticas de energia nuclear. Seriam usadas em rádios portáteis e outros equipamentos, como aspiradores de pó.

3) Considerado o ritmo do desenvolvimento tecnológico, era certo que iniciaríamos o milênio seguinte com veículos voadores. Gasolina, poluição, engarrafamento, briga de trânsito? Tudo seria parte do passado remoto.

4) Lembro-me bem de uma revista de 1970 que desenhava o mundo cinquenta anos adiante, portanto, em 2020. Todas as formas de câncer seriam curáveis, a expectativa de vida superaria os 100 anos e doenças como malária, febre amarela e sarampo não matariam mais ninguém.

5) Uma revista de 1974 considerava que, em 30 anos, não haveria mais veículos movidos a combustíveis fósseis.

6) Nessa época, acreditávamos em previsões emprestadas dos livros de Huxley. Na virada do século, a tecnologia estaria tão avançada que robôs e máquinas fariam quase tudo. Trabalharíamos muito pouco e nos dedicaríamos, sobretudo, ao lazer, ao esporte e à àrte.

7) Por volta de 1986, quase ninguém imaginava um retorno a regimes de viés fascista. A democracia se consolidaria, aos poucos, mas sem dar passos atrás. As prisões políticas, torturas e assassinatos seriam atos condenados para todo o sempre.

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8) Em 1996, depois da experiência do Bulletin Board System (BBS), viu-se a salvação da humanidade por meio da Internet. Em dez ou vinte anos, as verdades prevaleceriam finalmente sobre as narrativas de manipulação; o fluxo de boas informações pulverizaria mitos, mentiras e falsas crenças. As pessoas conscientes se imporiam na rede pela força de seus argumentos, fazendo avançar o rito civilizatório.

9) Quando 2010 apareceu na folhinha, imaginamos um inevitável Brasil potência mundial, finalmente livre da fome, economia pujante, inclusão social massiva, autossuficiência energética e um padrão de pulverização dura e complexa, mas irrefreável, de ideias racistas, machistas e homofóbicas.

10) Enfim, agora, eu leio sobre a invasão de mais uma aldeia de povos nativos. Os homens com rifles e facões afiados dizem “o progresso chegou” e gritam que foram enviados pelo presidente. É o futuro. É o futuro! Então, resta acreditar em “Índios”, do Legião Urbana.

“Quem me dera ao menos uma vez
Explicar o que ninguém consegue entender
Que o que aconteceu ainda está por vir
E o futuro não é mais como era antigamente
(…)
Nos deram espelhos e vimos um mundo doente
Tentei chorar e não consegui…”

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