O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central decidiu nesta quarta-feira (16) reduzir a taxa básica de juros, a Selic, para 13,75% ao ano. A decisão ocorre em um cenário de desaceleração gradual da atividade econômica, mas ainda com inflação e expectativas de inflação acima da meta.
Segundo o comunicado divulgado após a reunião, os indicadores mais recentes apontam moderação da atividade econômica, principalmente nos setores mais sensíveis ao ciclo econômico. Apesar disso, o mercado de trabalho permanece aquecido e a economia ainda apresenta nível considerado resiliente.
O Copom também destacou que a inflação cheia e a média dos núcleos desaceleraram nas últimas divulgações e ficaram abaixo do limite superior do intervalo de tolerância da meta. Ainda assim, os índices permanecem acima do objetivo estabelecido para a inflação.
As expectativas captadas pela pesquisa Focus continuam acima da meta. Para 2026, a projeção é de inflação de 4,9%, enquanto para 2027 está em 4,3%. No cenário de referência do Banco Central, a projeção para o primeiro trimestre de 2028, atual horizonte relevante para a política monetária, é de 3,2%.
Projeções do Banco Central
No cenário de referência apresentado pelo Copom, a projeção para o IPCA acumulado em quatro trimestres é de 5,2% em 2026, 3,9% em 2027 e 3,2% no primeiro trimestre de 2028.
Para os preços livres, a estimativa é de 5,2% em 2026, 4,1% em 2027 e 3,2% no primeiro trimestre de 2028. Para os preços administrados, as projeções são de 5,3%, 3,5% e 3,2%, respectivamente.
Riscos para a inflação
O Copom avaliou que os riscos para a inflação permanecem acima do usual e apresentam assimetria para cima. Entre os principais fatores de pressão, o comitê citou a possibilidade de uma desancoragem mais prolongada das expectativas de inflação e os efeitos de choques de oferta relacionados aos preços do petróleo, derivados e condições climáticas.
Também foram apontados como riscos de alta uma inflação de serviços mais resistente que o previsto, uma combinação de políticas econômicas que produza pressão inflacionária maior que a esperada — inclusive por meio de uma taxa de câmbio persistentemente mais depreciada — e estímulos à demanda que levem a economia a crescer acima de seu potencial.
Por outro lado, o Copom identificou riscos que poderiam contribuir para uma inflação menor. Entre eles estão uma desaceleração mais intensa da economia brasileira, um enfraquecimento mais acentuado da economia global provocado por choques comerciais e relacionados ao petróleo e uma eventual queda nos preços das commodities.
Cenário externo
No ambiente internacional, o Banco Central destacou a incerteza provocada pela indefinição sobre os conflitos armados no Oriente Médio e pelas dúvidas em relação à condução da política monetária em algumas economias avançadas.
Para o Copom, esse quadro aumenta a volatilidade dos preços de ativos financeiros e das commodities e exige cautela dos países emergentes.
Política fiscal e próximos passos
O comitê afirmou que continuará acompanhando os efeitos da política fiscal doméstica sobre a condução da política monetária e sobre os mercados financeiros.
Segundo o Banco Central, os indicadores atuais de atividade são compatíveis com uma trajetória de desaceleração ao longo de 2026. O Copom também afirmou que monitora especialmente a desancoragem das expectativas de inflação de prazo mais longo, por seus efeitos sobre a formação de preços e sobre o custo necessário para levar a inflação à meta.
O comitê ressaltou que a magnitude total do ciclo de ajustes da política monetária será definida a partir das novas informações econômicas que forem divulgadas.
Ao justificar a redução da Selic, o Copom afirmou que a decisão é compatível com a estratégia de fazer a inflação convergir para a meta ao longo do horizonte relevante. O Banco Central também destacou que a política monetária busca, além da estabilidade de preços, suavizar as oscilações da atividade econômica e contribuir para o pleno emprego.
Apesar do corte, o comitê afirmou que o cenário atual, marcado por aumento significativo da incerteza, expectativas desancoradas e riscos elevados, exige “serenidade e cautela” na condução da política monetária.
A decisão foi aprovada por unanimidade pelos sete integrantes do Copom: Gabriel Muricca Galípolo, presidente do Banco Central, Ailton de Aquino Santos, Gilneu Francisco Astolfi Vivan, Izabela Moreira Correa, Nilton José Schneider David, Paulo Picchetti e Rodrigo Alves Teixeira.
Análise
Para a consultora de investimentos da Unicred Porto Alegre, Ana Priscila Kologeski, o corte em si conta só parte da história. “O que chama atenção no comunicado é a ausência de um sinal claro sobre os próximos passos: o Banco Central optou por reforçar a dependência de dados, sem se comprometer com novos cortes.”
A consultora aponta ainda que o recuo do IPCA e a projeção da inflação devem pautar as próximas reuniões do Copom, mas ainda divide o mercado sobre as próximas reuniões do Copom. “Há quem aposte em mais um corte até o fim do ano, e há quem já trabalhe com a hipótese de pausa nas duas últimas reuniões de 2026.”
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