Um panelaço contra a carestia, o desemprego e o aumento do gás

    As universidades e IFs vêm capitaneando mobilizações expressivas contra os cortes previstos pelo governo Bolsonaro na educação. Esse movimento mais do que legítimo tirou o país da letargia.

    Porém há outros problemas muito graves que afligem o cotidiano de segmentos da nossa população cuja exaustão e indignação não se exprimem habitualmente em manifestações de rua. Esse pouco hábito é um fato ligado unicamente à nossa cultura política que, a priori, percebe a ida à rua como um ato afeito especificamente às camadas supostamente mais conscientes politicamente da nossa população, o que regrupa o minoritário eleitorado assumidamente de esquerda.

    Essa é a ecologia das manifestações de rua no Brasil, cuja composição pode estar modificada quando o MST está presente, o que é sempre um motivo de orgulho geral, ou quando a temática escapa ao repertório específico da esquerda, como atualmente tem sido o caso no que toca aos cortes na educação, que motivaram muitos arrependimentos de eleitores bolsonaristas.

    Ora a dinâmica direita/esquerda é apenas a superfície (é superestrutural) da verdadeira dinâmica existente entre as classes fundamentais, sendo dela, por assim dizer, simbólica. A esquerda, então, sai às ruas para representar um povo que, de costume, não vai às ruas, um esforço bonito e legítimo. Porém a não ida do povo às ruas se explica em parte, conforme enxergo, pelo fato de que ele não tem sido realmente convidado. Assume-se que o povo não vai, razão porque as manifestações são organizadas em dias de trabalho.

    Mas isso é como o hábito do cachimbo que põe a boca torta. Na verdade o cenário atual deveria, contrariamente a essa tradição, incitar a esquerda a atravessar o Rubicão que a separa das periferias.

    Mas não deveria ir lá para passar o carro de som a convidar o povo a deslocar-se, em dia e hora de trabalho, aos bairros nobres onde não se sente em casa. Deveria ir para discutir com as entidades locais sobre como exprimir o também legítimo descontentamento com o desemprego, o achatamento salarial, a piora das condições de vida, ou o aumento do gás. Deveria colocar a sua pequena estrutura também a serviço desses atos que se esforçaria em organizar.

    Melhor seria, inclusive, convidar a esquerda dos setores médios a sair às ruas com o povo nas regiões onde ele vive, o que seria pedagógico para todos, pois precisamos superar esse estranhamento que existe no seio de quem deverá cerrar fileiras.

    Quantos desceriam às ruas motivados por bandeiras cruciais alinhadas às suas preocupações cotidianas? Muitos? Poucos? Não sabemos, pois a experiência da mobilização popular, no entanto dever de casa da esquerda, tarda por ser feita. Mas teríamos aberto uma picada onde algum dia deverá existir uma estrada.

    Ao PT, PSOL, PCdoB, à CUT, ao MST, ao MTST uma pergunta humilde e autêntica: Por que não mobilizar o nosso povo para um panelaço contra a carestia, o desemprego e o aumento do gás de cozinha?

    Que tal tentar atos unitários em que trataremos também da Reforma da Previdência, do corte de verbas das universidades, do aumento da gasolina, das privatizações ou da entrega da Embraer? Seria verdadeiramente politizador para todos.

    Que tal empunharmos nós as panelas nesse país que vê crescer a mortalidade infantil, a fome, a miséria, o desemprego e o uso do carvão para cozinhar o feijão?

    O que temos a perder?