Do crime ao vírus: incidência da covid-19 em Brumadinho é o dobro de Belo Horizonte

Alta pode ser causada por grande circulação de trabalhadores; juiz proibiu parar obras

Hortas familiares na comunidade do Tejuco, em Brumadinho, estão comprometidas pela poeira dos caminhões das obras da Vale, que não pararam durante a pandemia - Pedro Stropasolas

do Brasil de Fato

Do crime ao vírus: incidência da covid-19 em Brumadinho é o dobro de Belo Horizonte

Pedro Stropasolas
Brasil de Fato | São Paulo (SP) | |

Os dados mais recentes divulgados mostram que a cidade mineira de Brumadinho apresenta a média de 364,1 casos da covid-19 para cada 100 mil habitantes. A cifra é mais que o dobro dos 181,1 registrado em Belo Horizonte, o epicentro da doença causada pelo novo coronavírus no estado.

À época da divulgação, 24 de junho, dos 146 casos notificados no município, 25 estavam em locais de atuação da mineradora Vale.

Segundo a Secretaria de Saúde, os casos aumentaram após as empresas começarem a encaminhar os resultados positivos para a Vigilância Municipal em Saúde – em especial as 9 mineradoras que extraem minério de ferro no município. Foram notificados também 16 casos positivos em profissionais de saúde.

Mas profissionais que atuam na região afimam que o alto índice de covid-19 se deve em boa parte à grande presença de trabalhadores de outros estados. Eles chegaram na área, contratados pela Vale, para atuar em obras de reparo da tragédia que matou 272 pessoas em janeiro do ano passado.

 

Fluxo de pessoas na pandemia

Desde o rompimento da barragem, no início de 2019 e a consequente interdição de vias no entorno do Córrego do Feijão e do Parque da Cachoeira, o bairro de Tejuco, em Brumadinho virou a principal via de escape para os veículos que atuam no Plano de Contenção de Rejeitos, conjunto de obras da mineradora para reparar o crime ambiental.

De acordo com relatos da população local enviados ao Brasil de Fato, o contágio pelo coronavírus se intensificou com os impactos do rompimento da barragem na Mina Córrego do Feijão, sobretudo por causa das obras de reparação ao crime.

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“A gente percebe muita preocupação dos atingidos, não só pela atividade mineratória em si, mas pelo fluxo de pessoas contratadas pela Vale para as obras, e também pelas dificuldades de comunicação”, revela Carolina Morishita, defensora pública do Estado de Minas Gerais (DPE/MG) que atua na região.

Vitória da Vale, derrota do isolamento

No mês passado, a Vale conseguiu anular, na Justiça, dois decretos editados pela Prefeitura, que determinavam a paralisação das obras emergenciais com intuito de conter o avanço da doença na região.

A decisão judicial da 2ª Vara da Fazenda Pública e Autarquias de Belo Horizonte, não só foi favorável à Vale, mas ainda reestabeleceu o funcionamento normal dos serviços e dos estabelecimentos comerciais da cidade.

A gestão municipal justificou, na ocasião, que as atividades da Vale aglomeravam pessoas e haviam transformado Brumadinho em um “verdadeiro canteiro de obras”.

Mas o juiz que decidiu abrir o comércio de Brumadinho em plena pandemia mundial, Elton Pupo Nogueira, disse que o prefeito da cidade, Avimar de Melo Barcelos (PV), havia tomado a decisão – recomendada por todos os protocolos de saúde mundiais – por “motivos pessoais e ilegais”.

“Mão na consciência”

Desde o rompimento da barragem, no início de 2019 e a consequente interdição de vias no entorno do Córrego do Feijão e do Parque da Cachoeira, o bairro de Tejuco, em Brumadinho virou a principal via de escape para os veículos que atuam no Plano de Contenção de Rejeitos, conjunto de obras da mineradora para reparar o crime ambiental.

“Eles sabem que a gente está aqui, sabem do que acontece e não se manifestam. A gente lutou tanto para ter isso, foi o sonho do meu pai. Tem 18 anos que a gente está aqui e hoje ver tudo destruído, sem ter resposta”, relata Grazielle Silva, trabalhadora rural e moradora do Tejuco.

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Lá atuam 4 mineradoras, incluindo a Vale. É onde também as 19 estufas para o cultivo familiar de hortaliças foram destruídas pela poeira tóxica dos inúmeros caminhões que trafegam e que também afeta as vias respiratórias da agricultora.

“A pandemia pegou só do lado da gente, porque é a gente que passa mal.”

Em Ponte das Almorreimas, onde a Vale vem operando, junto a terceirizadas, um novo ponto de captação de água para a região de Belo Horizonte – em substituição a que foi soterrada pela lama de rejeitos – o tráfego de trabalhadores vem impondo dificuldades para as famílias adotarem as medidas de prevenção ao coronavírus.

“Há um discurso de que eles precisam colocar a mão na consciência e entender que se forem contra essas obras, estão tão retirando a água da população de Belo Horizonte”, diz a professora Carolina Resende da PUC Minas, que desenvolve projetos de extensão em saúde mental no vilarejo rural.

Brasil de Fato pediu à vale um posicionamento sobre os assuntos expostos nesta reportagem, mas não obteve resposta.

No balanço da covid-19 divulgado em sua página, a Vale afirma que “as atividades consideradas essenciais seguiram em andamento, com número reduzido de trabalhadores e obedecendo rígidas normas para proteger os profissionais e as comunidades”. A mineradora afirma também que “vem aplicando testes em massa nos empregados e prestadores de serviço”.

*Com a colaboração de Larissa Costa

Edição: Rodrigo Durão Coelho

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