A História do Mundo – a série, por Gustavo Gollo

Ciência é uma atividade pré-capitalista que não se adéqua com facilidade à ânsia por lucros, necessitando mais da fertilidade advinda de desenvolvimentos colaborativos

Escrevi entusiasmado a série “A História do Mundo” enquanto era alimentado pelas ideias crepitantes que expus naqueles textos. Contrariamente a suposições decorrentes da celebração efetuada massivamente pelos meios de comunicação de um desenvolvimento científico cada vez mais florescente, venho há muitas décadas questionando tal hipótese e denunciando a estagnação científica que tem atolado nosso mundo já há quase um século, ocorrência mascarada pela confusão entre ciência e tecnologia patrocinada pelas mesmas notícias que exaltam a suposta fertilidade da ciência de nosso tempo.

Sob tais moldes, tenho salientado que ciência é uma atividade pré-capitalista que não se adéqua com facilidade à ânsia por lucros, necessitando mais da fertilidade advinda de desenvolvimentos colaborativos que da gula desenfreada que inebria as atividades lucrativas. A consideração de que ciência não gera patente – ao contrário dos desenvolvimentos tecnológicos –, deve ser suficiente para dirimir desconfianças acerca de tais conclusões por parte de quem tenha ouvido reiteradas vezes aladainha exaltando desenvolvimentos científicos crescentes. Lembremos que enquanto as patentes tecnológicas geram lucros a seus detentores, a ciência gera conhecimento difuso compartilhado por todos.

A perplexidade decorrente da admissão da estagnação científica de nossos tempos é agravada pela constatação do enorme aumento do número de cientistas ocorrido exatamente durante o mesmo período. Somada a essa, a consideração de que vivemos em um mundo aberto – no qual o espectro de possibilidades à nossa escolha, em cada momento, é ilimitado, –, invalida a tola cantilena repetida irrefletidamente por professores de física, por exemplo, de que os áureos tempos da ciência já se foram, e que a grande ciência já está toda pronta, tendo sido construída até as primeiras décadas do século XX, restando a partir de então, complementações periféricas necessárias apenas ao detalhamento de concepções já previamente estabelecidas. Sob a absurda ingenuidade – ou talvez caiba desconfiar: perfídia – embasadora de tal crença, já se conhece, fundamentalmente tudo, restando apenas conhecer detalhes ínfimos, migalhas restantes de uma ciência que já se encontra quase toda completa. O disparate encerrado em tal conjectura, tantas vezes repetida, chega a ser assustador.

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Tais constatações me levaram a não me contentar em ficar restrito a catar as migalhas deixadas pelos cientistas de um século atrás, mas em reformular as perguntas que balizam o jogo da ciência, acrescentando-lhe a enorme vibração da qual resultou A História do Mundo, uma série bastante pretensiosa cuja audácia já se manifesta no título.

Minha “A História do Mundo” poderia ter sido chamada A História do Desenvolvimento dos Sistemas Replicativos, pois é disso que ela trata, do início ao fim. Sob o ponto de vista condutor de toda a série, a história do mundo, seus acontecimentos mais significativos, são, todos eles, manifestações de replicadores efetuadas no afã de sua replicação.

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A História do Mundo começa antes do próprio tempo, quando a desordem reinava absoluta, sem que nada permanecesse de modo a permitir atribuir algum sentido para o tempo. A parte I da História consiste, assim, em uma surpreendente e original elucubração metafísica que desemboca na origem da organização, dos replicadores e do estofo de tudo o que existe hoje, que acontece na parte II, que descreve a origem da física, da matéria e de tudo o que há. As partículas e, antes mesmos delas, suas propriedades, são imaginadas como consequência de replicações prévias.

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Na parte IV da História reconsttruo um hipotético protosser vivo que teria originado toda a vida em nosso planeta. A descrição é baseada em uma ideia da qual não conheço os detalhes, razão pela qual deve estar apresentada sob uma forma bastante original. Espero que a originalidade das ideias propostas, tanto quanto a beleza, deixem o leitor perplexo e maravilhado perante o mundo.

A parte V desvenda e lança alguma luz sobre o surgimento e papel do genoma, apresentado aqui sob enfoque heterodoxo, como toda a série.

Ousadíssimamente, a parte VI trata do surgimento da reprodução sexual, fenômeno paradoxal cujas incongruências têm baratinado os que se debruçam sobre o tema. A perplexidade a que são levados os que ousam encarar a questão impede-os de compreender como seja possível que a reprodução sexual não se extinga, em face da ineficiência extrema que a governa. O texto responde tanto a questão preliminar apresentada acima, quanto a central, desvendando a maneira surpreendente como o bizarro fenômeno da reprodução sexual possa ter sido originado! (Breves desenvolvimentos matemáticos, originais, dignos de nota, aparecem por primeira vez nesse texto).

A parte VII insere o estranho fenômeno da linguagem no escopo da Biologia Generalizada, ressaltando o papel de válvula retentora dessa infecção zumbi que, afinal, foi o que nos tornou humanos.

Na parte seguinte a VIII, chegamos a nossos tempos, e às coisas que nos são familiares, embora enfocadas por ponto de vista oposto ao usual, o que acaba por revelar-lhes traços surpreendentes, verdadeiramente insólitos.

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A História do Mundo finaliza com um vislumbre da grandiosidade que se assoma como uma onda imensa, maior que tudo o que já foi visto, maior que tudo o que a nossa mente possa tentar captar. Trata-se de algo ao mesmo tempo incômodo e sedutor a atrair inexoravelmente todo o destino do mundo para si*. A grandiosidade do evento vislumbrado encanta as mentes a ponto de compeli-las ao arrebatamento místico.

* A frase me sugere a existência de um princípio, complementar ao de mínima ação, a reger toda a evolução do universo. Tal princípio garantiria a ocorrência de uma máxima replicação, que acabaria por resultar necessariamente no ponto de acumulação.
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O oitavo dia: anunciação

Ciência e arte

Tese 1997
https://www.recantodasletras.com.br/e-livros/6270241

Gustavo Gollo é multicientista, multiartista, filósofo e profeta

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