Crítica de Coringa, por Érico Andrade

A exigência de uma vida feliz no erro, para parafrasear Adorno, é a forma como o diretor Todd Phillips escolheu para conduzir uma trama em cujo centro está um diagnóstico de algumas de nossas patologias sociais. Estamos doentes.

Joaquin Phoenix como Coringa (Foto: Reprodução Warner)

Sugestão de Antonio Pereira

Crítica de Coringa

por Érico Andrade

Numa sociedade onde reina o imperativo da felicidade ser obrigado a rir é paradoxalmente uma condenação que na forma do distúrbio psíquico de Arthur Fleck nos faz refletir sobre o nosso adoecimento. Será que a grande loucura não seria nos obrigar a sermos felizes diante de um quadro de pobreza e injustiça? Sobretudo felizes segundo as normas do gozo que o capitalismo impõe como os aplausos encomendados nos programas de auditório? Um gozo pronto para o consumo. Diante de tanto apelo à felicidade como realizar a fantasia do prazer eterno na forma do riso quando rir é um ato compulsório?

Apesar de ser didático (com flashbacks explicativos para dar a medida da alucinação da personagem principal) e deixando claro para o telespectador todos os seus detalhes (como a frase sublinhada por um foco da câmera na escada do camarim que depois o Coringa apaga uma parte para deixar apenas “não sorria”), o filme Coringa fala sobre um adoecimento profundo. A exigência de uma vida feliz no erro, para parafrasear Adorno, é a forma como o diretor Todd Phillips escolheu para conduzir, por meio da apresentação minuciosa de um vilão de quadrinhos, uma trama em cujo centro está um diagnóstico de algumas de nossas patologias sociais. Estamos doentes.

As razões para isso são várias. Uma delas é explicitada por Arthur Fleck (antes de se tornar o Coringa): ninguém consegue escutar ninguém. Para a urgência da vida feliz o tempo da escuta não é compatível. Temos pressa de ter pressa. Que só é interrompida quando assumimos, como disse no meu último livro (Sobre losers: fracasso, impotência e afetos no capitalismo contemporâneo), a figura do loser para o qual o tempo não é mais um território a ser conquistado. O loser é aquele que, como na música ecoada com força no filme, não pode pegar a vida. Ela não domina a sua própria vida.

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Aliás, só um vilão poderia encarnar o loser porque ainda que o vilão mimetize o super-herói, visto que ambos agem à margem do Estado para promoverem certa noção de justiça (no filme isso fica patente com a transformação do Coringa numa espécie de líder revolucionário e na sua ação violenta contra figuras hipócritas e poderosas), a sua atuação é construída a partir do fracasso e impotência por meio dos quais ele se subjetiviza. Diferentemente dos super-heróis, cuja assepsia em geral não permite matar os adversários, o Coringa é um loser que decide tocar fogo no sistema e atinge na cabeça – em cadeia nacional – a felicidade ridícula da vida feita para entreter (encarnada no apresentador Murray Franklin). Vida de entretenimento que nos obriga, permitam-me a insistência, a ser felizesnão apenas na miséria, mas da miséria. Vale tudo para se arrancar um sorriso no grande sistema do vale tudo.

Aqui a distinção entre o super-herói e o vilão se dissipa. Não importa. Ambos têm o poder de decidir sobre a vida das outras pessoas. Trata-se da vontade de poder que nos fascina e que ganha a sua máxima expressão quando se pode decidir pela vida dos outros. Enquanto no filme Batman dirigido por C. Nolan, por exemplo, o super-herói é obrigado a escolher entre um grupo de pessoas e a sua namorada presa, só a ele cabe a decisão e a capacidade de salvar essas pessoas, no Coringa a própria personagem estabelece quem vai viver (especialmente na cena em que ele mata seu ex-colega que o traiu e poupa a vida do seu também ex-colega anão). A assimetria existente é que marca a sutil diferença entre o super-herói, que decide a partir de uma questão que lhe é imposta, e o vilão que impõe uma decisão para si mesmo. O ponto de convergência: as vidas que são poupadas são aquelas para as quais eles guardam algum afeto. São os afetos que movem os heróis, super-heróis e os vilões. São os afetos que nos movem. Isto é a vida, como diz novamente a música That’slife.

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E no filme Coringa os afetos são destacados por enquadramentos responsáveis por sublinhar as diferentes feições da personagem principal que no fim do filme podem ser vistas retrospectivamente como um quadro de Andy Wharhol: variações de um mesmo sofrimento. Filme que é quadro a quadro construído para mostrar a força de um só quadro.

As oscilações de humor de Arthur Fleck (interpretação impecável de Joaquin Phoenix) são destacadas também de modo metafórico em algumas cenas por luzes que piscam freneticamente. Seu sofrimento vai ganhando forma definitiva, como sublinha uma amiga, no desenvolvimento da sua dança – performance – cada vez mais densa e, em certa medida, violenta. Ele deixa de se fantasiar para ser o seu fantasma. É quando ele toma consciência de que é um loser numa sociedade composta por losers (motivo pelo qual ele termina se tornando um ícone social) e se assume definitivamente como o Coringa.

A última cena em que o agora Coringa fala o close no seu rosto é tão próximo que parte dele fica fora da tela. É o apogeu do seu sofrimento e é quando ele se encontra no mesmo sanatório para o qual a sua mãe tinha ido. Sua mãe que fora condenada por lhe maltratar e que ele resolve matar numa tentativa desesperada de enterrar o seu passado: sufocar. No entanto, a volta do recalcado não respeita limites nem algumas vezes a ética. Transgride. O filme o Coringa é sobre essa estrutura da transgressão.

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Érico Andrade – Filósofo, psicanalista em formação, professor da Universidade Federal de Pernambuco – ericoandrade@gmail.com

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