A derrota de Lula na indicação de Jorge Messias para o STF não é episódio isolado. É o capítulo mais recente de uma operação que envolve lobbies bilionários, o poder inédito de Alcolumbre e Motta, e o mesmo padrão de desestabilização institucional da Lava Jato original.
Quando o Senado recusou Jorge Messias, o governo perdeu uma batalha. Quando o mesmo movimento colocou sob ameaça o STF, o governo e o pouco que resta de disciplina institucional brasileira — todos ao mesmo tempo —, o que estava em jogo passou a ser maior do que uma vaga no Supremo.
A manobra tem roteiro conhecido. Começou com a campanha d’O Globo em torno do caso Master — um episódio de crédito privado transformado em crise sistêmica pelo jornalismo de interesse —, avançou pela sabatina do STF transformada em tribunal político, e chegou à configuração de poder inédita que hoje existe no Congresso: David Alcolumbre no Senado, Hugo Motta na Câmara, ambos com mandato renovado e agenda própria. É a Lava Jato 2.
Para entender o jogo de interesses por trás dessa manobra, é preciso mapear quem ganha com um STF enfraquecido, um governo Lula na defensiva e um Congresso com poderes que não tinha desde os tempos do presidencialismo de coalizão clássico.
Quando começou a campanha do impeachment, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso foi profético: a gente sabe como começa, mas nunca sabe como acaba.
A campanha conseguiu acabar com o PSDB, como alternativa de poder, o discurso antipolítica inundou a política com o que de há mais execrável, o desmonte institucional permitiu o avanço do crime organizado por todos os poros da República.
E nem assim se aprendeu.
Os lobbies que comandam o Congresso
O Congresso brasileiro de 2026 é, acima de tudo, uma arena de interesses organizados. As bancadas temáticas não são fenômeno novo, mas sua coesão, seu poder de fogo e sua disposição para agir de forma coordenada atingiram nível sem precedente recente.
A bancada ruralista é a mais numerosa e a mais organizada. A Frente Parlamentar da Agropecuária reúne 358 congressistas — número suficiente para formar maioria sozinha em muitas votações. Por trás dos parlamentares estão Bayer, Basf, Syngenta, JBS, Cargill e Nestlé, entre outras corporações que financiam campanhas e mantêm estruturas permanentes de lobby em Brasília. Suas pautas — Código Florestal, licenciamento ambiental, demarcações indígenas, agrotóxicos — têm avançado sistematicamente, com ou sem anuência do Executivo.
A bancada evangélica reúne 222 congressistas em torno de pautas morais e religiosas: aborto, casamento homoafetivo, educação religiosa, controle de mídias. O aspecto frequentemente negligenciado é que muitos desses parlamentares são representantes políticos diretos de denominações — com mandato implícito de seus líderes religiosos —, não apenas eleitores de perfil conservador. A bancada tem aliança orgânica com os ruralistas, e juntas formam o núcleo duro do que se convencionou chamar de Centrão conservador.
A bancada da bala soma cerca de 240 congressistas na Frente Parlamentar da Segurança Pública, com um núcleo de 44 membros mais radicais. Representa interesses das forças policiais, das Forças Armadas e da indústria armamentista. Suas pautas — porte de armas, excludente de ilicitude para policiais, penas mais duras — têm avançado mesmo nos governos que deveriam ser seus adversários naturais.
Juntas, essas três bancadas compõem o que ficou conhecido como BBB — Boi, Bíblia e Bala. Muitos parlamentares participam simultaneamente das três frentes, o que amplifica o poder de articulação suprapartidária. A posição dessas bancadas em relação ao STF é conhecida e histórica: o Supremo representa, para elas, o principal obstáculo à aprovação de suas pautas. Portanto, um STF enfraquecido é funcionalmente do interesse direto das três bancadas.
O lobby financeiro e a conta com o Supremo
O setor financeiro opera de forma mais discreta, mas com eficácia que poucos outros conseguem igualar. Rodrigo Maia, ex-presidente da Câmara com décadas de redes construídas em Brasília, assumiu em 2023 a presidência da Confederação Nacional das Instituições Financeiras (FIN). Com trânsito livre no Congresso e memória institucional incomparável, Maia representa hoje o que o sistema financeiro precisa: acesso sem mediação ao processo legislativo.
Há tempos correm rumores nos corredores de Brasília sobre grandes banqueiros alimentando o tiroteio contra o STF. Para entender por que, basta examinar o que o Supremo fez ao setor financeiro nos últimos anos.
Em fevereiro de 2023, o STF estabeleceu que a quebra da coisa julgada tributária é automática. Isso significa que se uma empresa conquistou na Justiça o direito definitivo de não pagar um imposto, terá que pagá-lo retroativamente se o STF posteriormente decidir que a cobrança é constitucional. O caso concreto envolvia a CSLL — Contribuição Social sobre o Lucro Líquido —, cujas alíquotas chegam a 21% no caso de instituições financeiras, contra 9% para as demais empresas..
Na mesma linha, o STF consolidou a constitucionalidade da CSLL diferenciada para o setor financeiro — contribuição adicional de 2,5% sobre a folha de salários e Cofins elevada de 3% para 4% sobre o faturamento dos bancos. Em três teses tributárias distintas, as derrotas acumuladas do setor representaram impacto de R$ 35,823 bilhões para os cofres da União. Por fim, o STF avançou na tributação de lucros de controladas no exterior, apertando o cerco sobre estruturas de planejamento tributário internacional que beneficiavam diretamente Itaú, Bradesco e BTG, entre outros.
O padrão é claro: o STF tem sido, sistematicamente, um obstáculo tributário ao setor financeiro. Um Supremo enfraquecido — com ministros mais próximos das bancadas conservadoras do Congresso, ou simplesmente mais temerosos de conflito com o Legislativo — seria um Supremo mais favorável aos interesses dos grandes bancos.
O laboratório das bets
Para entender o poder que o Congresso acumulou, o caso das bets é o teste mais preciso. Em 2024, quando o governo tentou aumentar a tributação do setor de apostas online, o lobby das bets montou uma operação que causou espanto até a veteranos da política brasileira.
Randolfe Rodrigues, líder do governo no Congresso, disse publicamente: “Eu nunca vi um lobby tão poderoso no Congresso Nacional quanto vi nessas duas semanas. Um lobby que contou, inclusive, com a luxuosa participação de governadores de estado.” O setor conseguiu derrubar temporariamente a medida — uma vitória direta do lobby privado sobre o Executivo, reconhecida pelo próprio governo.
Quando o governo reagiu e aprovou medidas restritivas — licenciamento obrigatório, proibição de cartão de crédito, eliminação de bônus de boas-vindas, bloqueio de beneficiários do Bolsa Família, taxa de outorga de R$ 30 milhões por licença —, as bets responderam com o mesmo instrumento: pressão sobre parlamentares, financiamento implícito de coalizões, e a ameaça permanente de mobilizar o Congresso contra qualquer regulação adicional.
O episódio demonstra a dinâmica central do poder legislativo atual: o Executivo propõe, o Congresso dispõe, e os lobbies organizados são o verdadeiro árbitro entre os dois. Nesse ambiente, o STF era o único poder capaz de funcionar como contrapeso — o único que não depende de votos, financiamento ou alianças com o Centrão para agir.
O que está em disputa
A sabatina de Jorge Messias não foi apenas uma disputa sobre um nome para o STF. Foi um teste de força sobre quem manda no Brasil em 2026.
Do lado do Congresso: Alcolumbre no Senado e Motta na Câmara têm poder institucional inédito. Com as eleições de 2026 no horizonte, ambos precisam demonstrar independência do Executivo e capacidade de mobilizar apoio. Barrar uma indicação presidencial ao Supremo é o gesto político mais legível possível nesse sentido.
Do lado dos lobbies: a BBB quer um STF menos ativo na proteção de direitos ambientais, indígenas e sociais. O setor financeiro quer um STF menos agressivo na tributação diferenciada dos bancos e na cobrança retroativa de tributos. O setor de apostas quer um árbitro menos hostil às suas operações.
Do lado do governo: Lula precisa de um STF que funcione como parceiro institucional — não por cumplicidade, mas porque sem o Supremo como contrapeso, a capacidade do Executivo de governar contra a vontade do Centrão é ainda mais limitada do que já é.
O que a derrota de Messias sinalizou é que esse equilíbrio está se desfazendo. O Congresso descobriu que pode barrar o STF. Os lobbies descobriram que o Congresso pode barrar o Executivo. E o governo descobriu que a Operação Lava Jato 2 não precisa de procuradores, grampos ou acordos de delação para funcionar. Basta um calendário de sabatinas e parlamentares com contas a cobrar.
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JJ.Mmarcelo
30 de abril de 2026 8:25 amPRECISA INSISTIR COM O MESSIAS PARA Q FIQUE BEM CLARO AO POVÃO TODA A SITUAÇÃO,NÃO PODEM TIRAR O DIREITO DO PRESIDENTE DE GOVERNAR POIS JÁ SE APODERARAM DE BOA PARTE DO ORÇAMENTO ,UM TIME PERDIDO DE UM OU MAIS GOLS TANTO FAZ,ESSE RAPAZ MESSIAS TEM DIREITO E QUALIDADES PARA ESTAR LÁ,NÃO PODEM REJEITALO SÓ POR BIRRINHA DE CRIANÇAS MIMADAS !!!
Veritas
30 de abril de 2026 10:15 amA bancada BBB juntamente com a bancada Financeira lavagem de dinheiro, por pensar basicamente em interesses próprios e não no interesse público e no bem comum, entra em ressonância natural com o crime organizado. Lula deveria nomear grandes promotores de justiça, combatentes do crime organizado, para a vaga no STF. Se reprovados pelo Senado, ao menos o país, em ano eleitoral, conheceria tais personalidades e as ações necessárias para combater as organizações criminosas. Nomes como Lincoln Gakiya (MPSP), Amauri Silveira Filho (MPSP), Fábio Monteiro (MPAM), João Paulo Schoucair (MPBA e CNJ) e Raimundo Nonato Santana Moinhos (MPBA) merecem compor a Suprema Corte. Vale lembrar que o Ministério Público tem apenas um representante no Supremo, o que é desproporcional.
Naldo
30 de abril de 2026 12:17 pmA ditadura é a do congresso…
AMBAR
30 de abril de 2026 1:44 pmA menos que a aprovação do nome do Becias para uma vaga no Supremo fosse uma exigência legal, a sua não aceitação era um resultado previsível, PORTANTO, a sensação de derrota é uma reação infantil e emocional, especialmente se considerarmos a sempre firme relutância de Alcolumbre em aceitar a possibilidade de ter o Becias como candidato.
Por outro lado, não podemos considerar que o STF tenha se enfraquecido com esse episódio, muito pelo contrário. É fato notório que, ao menos por enquanto, o colegiado tem sido fiel ao governo. Ademais, não há, principalmente na oposição, um só parlamentar que não tenha uma demanda judicial sob o escrutínio do STF. Se um pode fazer as leis, o outro as interpreta. A vitória é de quem age primeiro, com a diferença de que um poder é permanente e outro é volúvel na sua formação. O colegiado tem a vantagem de dispor de tempo e lugar para agir, além da prerrogativa de contar sempre com os mesmos componentes.
Por outro lado, as bancadas “temáticas” sempre foram organizadas no poder, e os interesses do povo nunca estiveram ( e dificilmente estarão) entre os eleitos para a representação popular, com raras exceções, naturalmente.
Resta ao governo, nesse pântano de crocodilos, usar o veículo que o faça flutuar , que seria o próprio povo que o elegeu. Por que diabos o governo ainda não colocou o povo nas ruas? Falta de inteligência, verba ou de coragem? Não sabe como fazer, siga exemplo do inimigo. Em vez de reagir, aja.
Falta de oportunidade não é. Vejamos que o bolsonaro nada fez em seu governo além de aparecer. O Lula, ao contrário, só faz realizações em favor do povo e não aparece. Humildade tem limites, e quem não aparece, fenece.
fabricio coyote
30 de abril de 2026 4:23 pmhá óbvio peso da faria lima. noticiaram q moraes esteve com o sionista. não tem como normalizar escritório de cônge (na acepção do senador moro) receber 129 milhões. nem se fosse Pontes de Miranda. kaos. Lula tem de indicar outro ministro de supremo ou não defenderá a prerrogativa de seu cargo. qd há honorários nesses patamares morre a advocacia de base. kaos!
José de Almeida Bispo
30 de abril de 2026 9:34 pmE elite nacional é tão arrogante, que sequer vê prejuízos pra si, nessa cruzada louca para destruir o adversário, por ela rotulado de inimigo.
Argos, 370 a.C.
Barco pra frente.
Arthur Arruda
30 de abril de 2026 10:04 pmNassif implacável! 👏🏻👏🏻👏🏻
Cristiano Ferreira
1 de maio de 2026 7:25 amPerfeita análise Nassif. Em ano eleitoral, em que se considere tudo que foi mencionado sobre os grupos de interesse, temos ainda as big tecs e o seu controle sobre o fluxo de informações. Para mim, isso explica a percepção sempre negativa da realidade por parte da população. Muitos desafios e uma só solução. Povo na rua. Mas também a exposição permanente dos fatos para contraposição a tanta narrativa falsa absorvida por uma sociedade majoritariamente ignorante.
fabricio coyote
1 de maio de 2026 10:51 ammas se extrai do discurso do messias: sou 100% anti-aborto, e aborta assim laicidade do estado. o discurso para convencimento dos senadores foi quase tão conservador quanto do messias boçal. quer dizer, alcolumbre acabou por beneficiar a ala à esquerda do PT, se é que há: devolve a Lula a oportunidade de indicar quem de fato está comprometido com os trabalhadores. por que pensar que quem ganha 1 mísero salário mínimo não pensa em aborto é que nunca leu Vidas Secas. ágora veremos se Lula é um estadista envolto a aliados ou um aliado daqueles que o pensam estadista. ou exerce a sua prerrogativa de presidente ou se entrega aos conselhos dos supostos aliados que vazam para a sadi, gaspar, merval, leitões, etc.