O PIB potencial e a resposta a Otaviano Canuto, por Luis Nassif

O economista Otaviano Canuto preparou, a meu pedido, um artigo comentando o post provocativo, “A armadilha do PIB potencial na política econômica”.

Aqui o seu artigo.

Canuto é dos economistas brasileiros de maior reputação internacional, participando de várias instituições respeitáveis, como o Banco Mundial e o Brookings Institution.

Com seu estilo didático e técnico, Canuto expõe, de modo objetivo, o pensamento da ortodoxia econômica – embora  seja muito mais do que um econômico ortodoxo.

Nos argumentos levantados:

1. Mostra a relevância de se medir os sinais da inflação focalizando a sua propagação (setores com alta de preços) e outros indicadores para não confundir com choques temporários e reversíveis. Argumento 1.

2. Diz que o sucesso da baixa inflação nos EUA se deveu ao uso competente da política econômica para administrar expectativas e ganhar a confiança dos agentes privados.

3. Por isso mesmo, o sucesso do pacote Biden dependerá da maneira como reagirão as expectativas. Se houver sinais de que a demanda está excedendo a capacidade de resposta na oferta, Biden perde a aposta.

4. Defende o PIB potencial (cálculo que supostamente mostraria quanto o PIB poderia crescer sem impacto inflacionário). Ou seja, estimar o aumento da demanda  levando em conta o retorno ajustado a riscos. “Isso me lembrou muito de discussão frequente que sempre tive com economistas que insistem em tomar uma versão da macroeconomia muito próxima do que está nos primeiros capítulos dos manuais, reduzindo tudo à demanda efetiva em cada momento no tempo e subestimando os limites de “PIB potencial”. Argumento 2. Frequentemente com a suposição de que basta criar demanda, porque aí aumenta o investimento e este cria capacidade suficiente para atender a uma demanda maior sem se defrontar com limites de PIB potencial. .

5. Interpreta – erroneamente – que defendo o aumento da demanda visando pleno emprego permanentemente. Como apresenta como prova do erro da tese a política econômica de Dilma Roussef, presume que eu a defendia. Incorre no automatismo de que todo crítico da política econômica ortodoxa automaticamente é defensor da política econômica de Dilma. Sempre defendi a política econômica como instrumento anticíclico – atuando positivamente, em caso de queda do PIB, e negativamente, em caso de aquecimento excessivo da demanda.

Na verdade, desde que o Banco Central reverteu a queda da Selic, tornei-me um crítico constante da política econômica de Guido Mantega e Alexandre Tombini – a ponto de entrar na lista proibida da Fazenda e do Banco Central, único veto que sofri em 50 anos de carreira.

Conclui que a injeção de recursos no BNDES fez com que as empresas usassem o dinheiro para trocar divida cara por dívida barata, sem investir em novos projetos. Foi o que ocorreu, de fato, e impediu uma quebradeira ainda maior, quando sobreveio a grande crise de 2015.

Aí entra nos seus paradoxos, que rebato a seguir. 

Considera que Joaquim Levy, com seu pacote, não tinha opção do que mostrar compromisso com o ajuste das contas públicas. Considera que “talvez” a correção tenha sido muito rápida, provocando choques que induziram o BC a subir dramaticamente os juros.  “Algum desejo de ignorar os choques em nome de segurar o pleno emprego permanentemente seria um sonho de uma noite de verão”.

Juntou duas questões em uma:

Questão 1 – foi correta uma correção tão radical em prazo tão curto?

Questão 2 – consumada a correção, foi correta a forma como o Banco Central reagiu ao choque de preços?

Vamos à primeira questão.

Não cabe o “talvez” na análise da correção de câmbio e tarifas. Há uma diferença total entre um ajuste gradativo e um ajuste radical. 

O ajuste radical promoveu um choque radical de preços. Dada a intensidade do choque, o BC elevou “dramaticamente” os juros, de fato, e trancou o crédito. Ou seja, submeteu as empresas a um choque tarifário, um choque de juros e um choque de crédito. Sequer deu tempo para que as empresas renegociassem dívidas, reduzissem estoques e se preparassem para os tempos de vacas magras.

Em relação à segunda questão – o trancamento do crédito e a explosão dos juros- , Canuto esquece o Argumento 1. Aumento de juros serve para conter demanda. Ao explodir os juros, o BC reduziu tudo a uma questão de demanda efetiva, sem se dar conta de que a alta de preços refletia um choque temporário no câmbio e nas tarifas. Não havia demanda para sancionar as altas como a realidade comprovou. Reduzindo tudo a uma questão de demanda, atropelou o Argumento 2.

Mas o erro básico do período não poupou sequer outros economistas, como Mônica de Bolle, que considerou a demora em derrubar os preços como sinal de “dominância fiscal” – fenômeno em que o BC fica impedido de aumentar os juros devido aos impactos sobre o equilíbrio fiscal.

E tudo isso porque o BC se fiou no cálculo do PIB potencial. Como mostrado no capítulo anterior, o PIB potencial calculado é volátil. Se a economia cai, o PIB potencial cai também. Se a economia levanta, o PIB potencial levanta – porque há mais investimento, mais renovação de máquinas etc. 

É o mesmo problema que afeta cálculos de produtividade baseados na mão de obra. Se uma fábrica produz automóveis à plena capacidade, a produtividade é um; se produz à meia trava, a produtividade é outra, porque a redução da mão de obra não é proporcional à redução da produção.

Mostra a enorme dificuldade do economista em entender que economia aquecida e economia desquerida são fenômenos distintos, que exigem análises distintas.

O que o BC fez foi calcular o PIB potencial e trancar crédito e elevar juros para impedir que o PIB real superasse o PIB potencial. E, ao não permitir o crescimento do PIB real, manteve o PIB potencial amarrando a recuperação.

Segundo Canuto, o pacote Levy “foi muito mais uma questão de ressaca decorrente do acúmulo de erros macroeconômicos nos períodos anteriores”.

Dois erros não fizeram um acerto. Pelo contrário. 

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2 comentários

  1. Diz que o sucesso da baixa inflação nos EUA se deveu ao uso competente da política econômica para administrar expectativas e ganhar a confiança dos agentes privados. Política neolioberal. Nunca a miséria esteve tão alta nos EUA. Isto é o sucesso? Não que este tipo de sucesso aqui

  2. Economistas ortodoxos pegaram a mania de argumentar com as expectativas. Se os modelos econômicos já são débeis para calibrar a política econômica, tornam-se inúteis se incorporam variáveis de expectativas. Como medi-las? Fazendo pesquisas entre os pares?

    Outro erro é tratar de excesso de demanda usando os próprios modelos falhos para medir a situação momentânea da demanda. Ignácio Rangel me ensinou, em artigos de jornal, que as políticas monetárias visam derrubar excesso de demanda, mas em resposta a oferta cai mais rapidamente do que a demanda. E aí se cria excesso de demanda relativo.
    Cumpre aos “planilhistas” de plantão fazer um modelo para calcular a elasticidade de redução de oferta relativa à redução da demanda em função do arrocho monetário.

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