Trump trouxe de volta aos EUA o capitalismo de compadre, por Luis Nassif

É interessante colocar o governo Trump dentro da ótica que acompanha crescimento, apogeu e queda das grandes potências. A queda começa a ocorrer quando se dilui o sentimento de coesão nacional e falta clareza sobre interesses nacionais objetivos.

Crédito da imagem: FT

Nesses tempos em que novamente a economia mundial está dividida entre duas grandes potências, os Estados Unidos enfrentam a China tendo no seu comando o mais anacrônico presidente da República da era moderna.

De um lado, tem-se a China definindo planos quinquenais, sabendo identificar as melhores ferramentas do Estado e do mercado para sua expansão, e consolidando seu poderio com o uso racional de todas as ferramentas – política industrial, diplomacia, estímulo à inovação,

De outro, tem-se nos Estados Unidos um presidente que, segundo Anne Krueger, ex-economista chefe do Banco Mundial, implantou uma prática – o capitalismo de compadres – existente apenas em países em desenvolvimento.

Guerra comercial, incentivos fiscais, acordos comerciais, restrições às importações, tudo tem sido conduzido por ele visando proteger aliados e setores específicos, muitos vezes grandes contribuintes das campanhas do Partido Republicano.

Nos últimos dias, reportagens da mídia local, mostraram evasão fiscal praticada por ele, assim como o alto endividamento das empresas do grupo e a aproximação com dirigentes estrangeiros que poderão ajudar nos negócios pessoais do grupo.

Além disso, há um amplo processo de barganha com os financiadores de campanha. Trump procedeu à consolidação de monopólios, incentivos fiscais, proteção contra importações e isenções tarifárias, não estendidas a seus concorrentes, conforme denúncias de Krueger.

O maior exemplo foi o envolvimento pessoal direto de Trump contra a Tik Tok, empresa chinesa de mídia social. Primeiro, solicitou uma revisão da segurança nacional sobre as operações da empresa nos EUA. Depois, declarou que a baniria, se não fosse adquirida por uma empresa americana. Durante algum tempo, pareceu apoiar a oferta da Microsoft de comprar a empresa. Depois, endossou um acordo pelo qual a Oracle e a Walmart adquiriram participação minoritária na empresa.

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Por aqueles dias, Larry Ellison, da Oracle, doou US$ 250 mil para um comitê de ação política da senadora Lidsey Graham, de Carolina do Sul, um dos aliados mais próximos a Trump.

Não ficou nisso. Em 2016 e 2017 pressionou a Fort Motor Company para cancelar planos de abrir uma fábrica no México. Bíblia do capitalismo mundial, The Economist taxou de “vergonha absoluta” as ameaças de Trump.

Em outro episódio, Trump anunciou ter convencido a FoxConn a investir US$ 10 bilhões em Wisconsin, criando milhares de empregos em troca de incentivos fiscais. Nada aconteceu e recentemente a Foxxcon anunciou mudanças de planos.

O compadrio se dá até na administração de licenças de importação. Em 2018 Trump implantou uma taxa de 25% sobre o aço importado e, ao mesmo tempo, lanou um programa para que empresas solicitassem isenções individualmente. Com a medida, favoreceu algumas empresas em detrimento de outras.

A guerra comercial de Trump visou apenas aquecer o apetite dos lobbistas de Washington, conforme denunciou o The Washington Post. E, na guerra comercial com a China, tem escolhido vencedores e perdedores, ao decidir quais commodities incluir.

É interessante colocar o governo Trump dentro da ótica que acompanha crescimento, apogeu e queda das grandes potências. A queda começa a ocorrer quando se dilui o sentimento de coesão nacional e falta clareza sobre interesses nacionais objetivos.

É nesse caldo de ignorância cívica que Trump prosperou e, no Brasil, criou um seguidor do nível de Jair Bolsonaro.

7 comentários

  1. Veja a história de Siena, na Itália. Fui uma república que concorreu com Florença durante uns cinco séculos. Depois que se dividiu internamente, foi engolida pela rival. Até governo com juízes tentou na época de decadência.

  2. Se um grande país, fez o que fez, para entrar no grupo das grandes potências, a Alemanha, nas duas grandes guerras, o que não fará a principal potência, para não perder hegemonia? Veremos!?…

  3. Trump é um poderoso empresário, sem nenhuma experiência anterior na vida pública, comandando a maior economia do planeta. Suas ações na política e na administração do país seguem a lógica do negociante.

    Presidente da China, seguindo o modelo de administração do Partido, tem uma vida toda de experiência na administração pública. Antes de ser presidente, foi governador de uma província com quase 200 milhões de habitantes.

    A Democracia ocidental é importante, mas o modelo chinês, moldado em cima de uma tradição milenar de dinastias, parece funcionar melhor. Pelo menos para eles.

  4. “o mais anacrônico presidente da República da era MODERNA”,Nassif é ERA CONTEMPORÂNEA !!
    ASS.:José Marcelo – candidato a professor de Português !

  5. Não recorramos a juízos fáceis sobre a China.
    Seu suposto sucesso nada se deve apenas às qualidades ditas no texto.
    Há por lá um planejamento que sufoca qualquer dinâmica política dos conflitos e assimetrias de classe e desigualdades extremas entre as camadas beneficiadas e a gigantesca maioria pobre, que segue super explorada para dar competitividade ao produto chinês.
    É verdade que a supressão destes conflitos se dá de forma diferente nos EUA e similares.
    Além disso, o gigantesco bônus demográfico torna a China uma exceção, tal como a Índia, que por não centralizar seu planejamento em um. comitê central, acaba por não ostentar níveis de crescimento semelhantes.

    Se bem entendi, Nassif deseja um capitalismo de estado com ditadura de um comitê central?

    É um capitalismo de compadres camaradas?

    Ah, Nassif o capitalismo é em sua gênese e em seu funcionamento um clube restrito de compadres.
    0,1% dod mais ricos do mundo retém 90% da riqueza do resto somada.

    Se isso não é um clube de primos o que mais será?
    Eita visão idilizada do mundo.
    Arf.

  6. A impressão que dá é que os bilionários americanos, especialmente os do mercado financeiro, lamentam terem nascido quando a época dos Robber Barons já tinha passado… sonham em ter o mesmo poder e influência que John D. Rockefeller, J. P. Morgan e outros tiveram no final do século XIX e começo do século XX.

    Com isso estão matando, como os Robber Barons quase mataram, o mito da “Terra da Oportunidade”. Duas guerras mundiais e o medo do comunismo os impediram de fazer isso no passado, dessa vez, acho que já passaram do ponto de não-retorno e não vai ter guerra que dê jeito.

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