Covid-19 – Como e por que o pior ainda está por vir, por Felipe A. P. L. Costa

Vários países já deram início a campanhas de vacinação em massa contra a Covid-19. Entre nós, no entanto, a campanha (em um cenário otimista) só deverá ter início na última semana de janeiro.

Covid-19 – Como e por que o pior ainda está por vir.

Por Felipe A. P. L. Costa [*].

RESUMO. Ontem (10), de acordo com o Ministério da Saúde, foram registrados em todo o país mais 29.792 casos e 469 mortes. Teríamos chegado assim a um total de 8.105.790 casos e 203.100 mortes. A semana encerrada ontem (4-10/1) foi um pesadelo. Em número de casos (372.044), foi a pior desde o início da pandemia. O número de mortes (7.082) foi o maior dos últimos cinco meses. As médias semanais das taxas de crescimento seguem a escalar, tendo chegado a 0,67% (casos) e 0,51% (mortes). Nesse ritmo, a semana que começa hoje (11) deverá resultar em mais 389.942 casos e 7.338 mortes. No próximo domingo (17/1), portanto, o país deverá computar um total de 8.495.732 casos e 210.438 mortes.

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Vários países já deram início a campanhas de vacinação em massa contra a Covid-19 (ver aqui). Entre nós, no entanto, a campanha (em um cenário otimista) só deverá ter início na última semana de janeiro.

Ontem (10), de acordo com o Ministério da Saúde, foram registrados em todo o país mais 29.792 casos e 469 mortes. Teríamos chegado assim a um total de 8.105.790 casos e 203.100 mortes.

A semana encerrada ontem (4-10/1) foi um pesadelo.

Um balanço da semana que passou.

Em número de casos, a semana passada foi a pior desde o início da pandemia. Foram registrados 372.044 casos. Batemos todos os recordes anteriores [1].

E a estatística mais trágica: foram registradas 7.082 mortes. Foi o oitavo pior resultado desde o início da crise. E foi a nona semana em que a média diária ficou acima de 1 mil óbitos/dia [2].

Estas estatísticas são trágicas e falam por si.

Mas o que é ainda mais preocupante é saber que as taxas de crescimento no número de casos e de mortes seguem a escalar [3].

As médias da semana passada (4-10/1) chegaram a 0,67% (casos) e 0,51% (mortes) [4, 5].

A média semanal da taxa de crescimento no número de casos parece ter voltado ao patamar em que estava antes do apagão de fim de ano (ver a figura que acompanha este artigo). No caso do número de mortes, a tendência é ainda mais preocupante. Afinal, uma média semanal comparável a 0,51% não era obtida desde setembro (ver a figura que acompanha este artigo).

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Como alertei em ocasiões anteriores (e.g., aqui, aqui, aqui, aqui e aqui), as taxas de crescimento (casos e mortes) estão a escalar desde o início de novembro. E, a julgar pelo noticiário dos últimos dias, não há qualquer motivo para imaginar que haverá uma reversão imediata nessas trajetórias – embora, claro, as autoridades (federais, estaduais etc.) possam recorrer a novos apagões na divulgação das estatísticas.

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FIGURA. A figura que acompanha este artigo ilustra o comportamento das médias semanais das taxas de crescimento no número de casos (pontos em azul escuro) e no número de óbitos (pontos em vermelho escuro) em todo o país (valores expressos em porcentagem), entre 28/6 e 10/1. (Valores acima de 2% não são mostrados.) Note como as duas nuvens de pontos experimentaram rupturas e mudaram de rumo a partir do início de novembro. E note como o apagão na divulgação das estatísticas, na segunda quinzena de dezembro, rebaixou artificialmente as duas trajetórias.

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Como e por que esta semana será ainda pior.

No curto prazo, portanto, as taxas devem continuar escalando. A tendência é que as estatísticas desta e das próximas semanas venham a ser ainda piores (ou muito piores) do que as da semana passada.

Não vou explorar os cenários pessimistas. No contexto deste artigo, basta dizer o seguinte: em um cenário otimista (i.e., admitindo que as taxas parem de subir), as projeções para a semana em curso seriam as seguintes: mais 389.942 casos e 7.338 mortes [6].

No próximo domingo (17/1), portanto, o país deverá computar um total de 8.495.732 casos e 210.438 mortes.

Se a semana passada foi um pesadelo, a semana que temos pela frente será – ouso dizer – um pesadelo ainda pior.

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Coda.

Alguém mais cínico talvez dissesse que toda essa insanidade que estamos a viver é o preço que a sociedade brasileira está a pagar por ter, entre outras coisas, os governantes que tem (e não só no plano federal). Veja, por exemplo, o drama de quem mora em algumas das maiores cidades do país – tem gente a enfrentar três níveis de desgoverno!

Mas cinismo não resolve nada.

De resto, não gostaria de encerrar sem ressaltar o seguinte: De um ponto de vista estritamente técnico, pandemias não são problemas assim tão difíceis de equacionar e resolver. As dificuldades de uma crise como a que ora enfrentamos residem em outras esferas, como a social e a política. É aí que esbarramos em algumas de nossas carências históricas, como o nosso baixo nível de educação política e a nossa desorganização.

Por fim, não custa repetir (ver aqui): Os efeitos de uma eventual campanha de vacinação não serão imediatos. Iniciar a vacinação e permanecer de braços cruzados, como muitos governantes estão agora (i.e., sem promover medidas que reduzam de modo efetivo as chances de transmissão e contágio), resultará em duas tragédias tipicamente brasileiras, a saber: (1) A pandemia será estancada na maioria dos países do mundo, enquanto nós, brasileiros, continuaremos a adoecer e a morrer em decorrência da Covid-19; e (2) O número de mortes entre o início e o fim da vacinação irá superar o número de mortes registrado até aqui. E essa diferença será tanto maior quanto mais tardia e demorada for a campanha de vacinação.

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Notas.

[*] Para detalhes e informações sobre o livro mais recente do autor, O que é darwinismo (2019), inclusive sobre o modo de aquisição por via postal, faça contato pelo endereço [email protected]. Para conhecer outros livros e artigos, ver aqui.

[1] Antes disso, o pior resultado havia sido registrado em julho – 320.702 casos (20-26/7).

[2] Resultado ainda pior não era registrado desde a semana 27/7-2/8, quando foram computadas 7.100 mortes. Outras sete semanas – sete das oito entre 1/6 e 26/7 – tiveram médias diárias superiores a 1.000. Na pior de todas (20-26/7), foram computadas 7.516 mortes.

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[3] Arrisco dizer que a pandemia chegará ao fim sem que a imprensa brasileira (grande parte dela, ao menos) se dê conta de que está monitorando a pandemia de um jeito, digamos, desfocado – além de burocrático e bastante superficial. Para capturar e antever a dinâmica de processos populacionais, como é o caso da disseminação de uma doença contagiosa, devemos recorrer a um parâmetro que tenha algum poder preditivo. Não é o caso da média móvel. Mas é o caso da taxa de crescimento – seja do número de casos, seja do número de mortes. De resto, trata-se de um parâmetro de fácil computação (ver a nota 5).

[4] Entre 25/10 e 10/1, as médias semanais exibiram os seguintes valores: (1) casos: 0,43% (19-25/10), 0,4% (26/10-1/11), 0,3% (2-8/11), 0,49% (9-15/11), 0,5% (16-22/11), 0,56% (23-29/11), 0,64% (30-6/12), 0,63% (7-13/12), 0,68% (14-20/12), 0,48% (21-27/12), 0,47% (28/12-3/1) e 0,67% (4-10/1); e (2) mortes: 0,3% (19-25/10), 0,26% (26/10-1/11), 0,21% (2-8/11), 0,3% (9-15/11), 0,29% (16-22/11), 0,3% (23-29/11), 0,34% (30-6/12), 0,36% (7-13/12), 0,42% (14-20/12), 0,33% (21-27/12), 0,36% (28/12-3/1) e 0,51% (4-10/1).

[5] Sobre o cálculo das taxas de crescimento, ver qualquer um dos quatro volumes da coletânea A pandemia e a lenta agonia de um país desgovernado (aqui, aqui, aqui e aqui).

[6] A primeira estatística superaria a da semana passada e se tornaria assim um novo recorde semanal no número de novos casos. A segunda se tornaria a terceira pior marca desde o início da crise. No entanto, qualquer eventual oscilação para cima nas taxas de crescimento implicará em resultados ainda mais assustadores (e revoltantes).

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