22 de junho de 2026

Calote não é ajuste fiscal, por João Santana

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da Folha

Calote não é ajuste fiscal, por João Santana

É a primeira vez, em quase 60 anos, que não recebemos nem para honrar a folha de pagamento. Em vez de propor cortes, o governo só não paga

É lamentável anunciar algo assim, mas, depois de quatro meses sem receber o que lhe é devido contratualmente, a Constran não poderá dar prosseguimento ao trecho da Ferrovia Norte-Sul que vinha construindo em Goiás.

Temos dois contratos assinados com a Valec, empresa do Ministério dos Transportes, um referente a 150 quilômetros, na Norte-Sul, e outro, por 170 quilômetros, na Fiol (Ferrovia Oeste-Leste), esse no interior da Bahia. Os pagamentos de ambos encontram-se atrasados.

Em quase 60 anos de história é a primeira vez que não recebemos nem sequer para honrar a folha de pagamento da obra. Falei na segunda (2) com o ministro Antônio Carlos Rodrigues, dos Transportes, que me informou não ter recebido recursos do Ministério da Fazenda.

Em situações assim, as empresas podem recorrer aos bancos, onde descontam a fatura. Agora, nem isso é possível. O sistema financeiro bloqueou qualquer operação com o nosso setor, se envolver o governo federal como pagador.

Atenção: os bancos não estão recusando recebíveis de uma prefeitura pequena do interior. Eles querem distância do Tesouro Nacional. Sabe quais são os primeiros bancos a fechar as portas para a operação de desconto de duplicatas? O Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal, controlados pelo governo. Detalhe: embora não recebamos a fatura emitida, somos obrigados a recolher os impostos a ela relacionados.

Nossa situação financeira só não é delicada porque mais da metade do faturamento é oriundo da iniciativa privada. Alguém poderá relacionar esse inferno astral à Operação Lava Jato –já que a Constran é controlada pela UTC. Mas não é o caso. Primeiro porque a Constran não integra a lista de empresas investigadas. Depois porque o governo vem atrasando centenas e centenas de contas devidas, até mesmo do Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec).

O gestor público tem a obrigação de equalizar suas contas. Mas estamos diante de um ajuste fiscal?

Nos anos 90, tive o privilégio de tocar a Secretaria da Administração durante o governo Fernando Collor.

O país estava destroçado financeiramente. Cortamos cargos de confiança, desligamos funcionários, fechamos ou vendemos empresas, acabamos com as mansões dos ministros de Estado e leiloamos mais de 4.000 automóveis. Fomos à lista de despesas do governo e cortamos vários e vários itens. Gostem ou não do que foi feito naquele tempo, tratava-se de um projeto de ajuste fiscal de verdade.

E agora? Em vez de propor cortes e eliminar linhas de despesas, o governo apenas não paga. Em outros países, o nome disso é calote e rompimento de contrato. No Brasil, batizamos de “ajuste fiscal”.

Historicamente, quando o governo tem planos de enxugar despesas, ele chama seus fornecedores e informa o que será cortado, dando às empresas condições de se planejar. É chato, é ruim, mas é honesto e transparente.

O oposto é manter, de um lado, o discurso de que nada será cortado, que o PAC será mantido, que os programas sociais não sofrerão cortes –e, de outro, reter pagamentos devidos por serviços prestados, como se faz neste exato momento.

Criou-se uma realidade discutível. Enquanto o governo federal empurra para a sociedade o peso do “ajuste”, na forma de mais impostos e mais desemprego, não aplica ao Estado qualquer ajuste real.

Por exemplo: quantos dos 39 ministérios foram fechados nos últimos meses? Para termos de comparação, o governo Sarney, considerado inchado, operava com 34.

Outro dia, fui olhar a lei complementar nº 101, a famosa Lei da Responsabilidade Fiscal. Ela diz claramente que “a responsabilidade na gestão fiscal pressupõe a ação planejada e transparente”. Um doce para quem encontrar algo planejado e transparente nesse processo.

JOÃO SANTANA, 57, é presidente da Constran e vice-presidente do Sindicato Nacional da Indústria da Construção Pesada. Foi ministro da Infraestrutura e secretário da Administração (governo Collor)

 

 

Lourdes Nassif

Redatora-chefe no GGN

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20 Comentários
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  1. drigoeira

    3 de março de 2015 11:00 am

    O Governo iniciou o ano em pane…

    O sistema Pronaf e Pronamp de financiamento agrícola também está parado.

    Será o Fator Levi????

    1. Marcos Oliveira

      3 de março de 2015 11:18 am

      Não …

      … é o fator “Guidarno”, uma bomba de efeito retardado que está explodindo com toda força agora. Que bom que a Dilma ganhou, ela que conserte a imensa trapalhada que foi feita no seu primeiro governo …

  2. Doug_SP

    3 de março de 2015 11:24 am

    Acabou a mamata, agora vem

    Acabou a mamata, agora vem com chororô

  3. Luís Henrique Donadio

    3 de março de 2015 11:31 am

    Todo ano acontece a mesma

    Todo ano acontece a mesma coisa, com a transição de um exercício para o outro. Nos anos pós-eleitorais costuma ser um pouco pior.

    Tempestade em copo dágua.

    1. José Carlos Brandes

      3 de março de 2015 1:10 pm

      O atraso sim

      É noramal em transições de governos, e o autor do texto até diz isso, e que o normal é antecipar em bancos os valores.

      Agora, dizer que é normal os bancos, inclusive os estatais, não aceitarem dívidas da união como garantia, é uma estupidez.

  4. Aleandro Chavez

    3 de março de 2015 11:42 am

    Uma vez houve uma discussão

    Uma vez houve uma discussão neste blog sobre os atrasos de pagamentos do governo federal. Sustentei que a culpa é exclusiva do governo, por falta de dinheiro em caixa, irresponsabilidade fiscal. Outros diziam que era culpa da Lava-jato, e dos órgãos de controle (né Daniel Quirqueza?). Pois bem. Taí um exemplo de ilustra que o problema é falta de dinheiro em Caixa, tem nada a ver com órgãos de controle, até porque as poucas propostas de paralisação não passam pelo Congresso, ou são vetadas pelo governo.

  5. Rato

    3 de março de 2015 12:00 pm

    Realmente, muito mais simples.

    “Nos anos 90, tive o privilégio de tocar a Secretaria da Administração durante o governo Fernando Collor.

    O país estava destroçado financeiramente. Cortamos cargos de confiança, desligamos funcionários, fechamos ou vendemos empresas, acabamos com as mansões dos ministros de Estado e leiloamos mais de 4.000 automóveis. Fomos à lista de despesas do governo e cortamos vários e vários itens. Gostem ou não do que foi feito naquele tempo, tratava-se de um projeto de ajuste fiscal de verdade.”

    Realmente, é muito melhor sucatear o estado do que atrasar o pagamento de algumas obras. Bons tempos o do Collor.

  6. Doney

    3 de março de 2015 12:22 pm

    Coisa lamentável de se ler.
    O

    Coisa lamentável de se ler.

    O próprio BB e a Caixa não avalizarem os créditos a serem recebidos do governo federal… é que a coisa tá feia, mesmo.

    Alguém do governo ao menos respondeu?

  7. jc.pompeu

    3 de março de 2015 1:29 pm

    “Calote não é ajuste fiscal,

    Calote não é ajuste fiscal, por João Santana

    só faltava mais essa pra entornar o caldo de vez da cozinheira fogo brando do lulopetismo:

    o governo dilma mais o partido dos trabalhadores deu calote caixa 2 no guru joão santana…

    o qual ganhou sozinho a última eleição puro malte pão e circo místico do marketing político…

    sem chance!

    1. sandao

      3 de março de 2015 3:21 pm

      Esse não sabe nem de que João

      Esse não sabe nem de que João Santana é o texto. Isso é o que chamo de misturar alhos com bugalhos.

      1. Luís Henrique Donadio

        6 de março de 2015 11:33 am

        É. Mas é bem óbvio também que

        É. Mas é bem óbvio também que o post não faz nenhuma questão de desfazer a confusão. Quem só lê a manchete fica com a forte impressão de um governo em estado de putrefação, de um navio sendo abandonado pelos ratos. Bem ao estilo PIG…

        É um novo método, bastante inusitado, de defender o governo: apedrejando-o…

  8. Alberto Porem Jr.

    3 de março de 2015 1:36 pm

    Paralisação de projetos de investimentos

    Bom dia senhores. Se não paga o que deve imagina se dá dinheiro pra investimentos.

    Estamos sofrendo nos processos de investimento. A dotação orçamentária existe para as diversas linhas do BNDES e particularmente aqui, FCO; mas, não tem o dinheiro de fato.

    O BNDES está liberando a conta gotas verbas de investimento na agropecuária.

    Quebramos?

     

  9. José Carlos Brandes

    3 de março de 2015 1:55 pm

    No meu setor

    Cotação do SENAI correndo solta para compra de materiais para os cursos e todo mundo fugindo.

    Quem tá com estocado e precisa vender, está colocando 200% em cima do custo para descontar a dívida sabe Deus a quanto de juros.

    Tá feia a coisa.

  10. Tony

    3 de março de 2015 2:45 pm

    Era Collor

    Ministro do Governo Collor? Vale o que vier?

    Bons tempos aqueles que, além de pagar comissão de 30% ao esquema PC Farias – Casa da Dinda, os pagamentos atrasavam 60 a 90 dias, com infllação mensal acima de 30%, para aplicação na ciranda financeira antes do repasse.

    Vi a repercussão desta noticia em todos os portais, porem não vi a versão oficial. É bom investigar mais antes de atestar o esperneio deste senhor.

    De denuncias vazias a imprensa tupiniquim é um oceano…

  11. zeba

    3 de março de 2015 3:47 pm

    Tem hora que dá vontade se

    Tem hora que dá vontade se ser oposição … afff

    1. Luís Henrique Donadio

      6 de março de 2015 11:34 am

      E este blog vem cultivando

      E este blog vem cultivando essa vontade entre os seus leitores.

  12. alfredo machado

    3 de março de 2015 5:50 pm

    Caos como resultado

    Nassif,

    Este é o quadro programado de desmonte das empresas nacionais.

    Os da LavaJato e também alguns do MP já se declararam a favor da falência das empresas envolvidas em negociatas, e graças a estes luminares da estupidez o PIB do país leverá um golpe em 2015 de, no mínimo, 1%, além de do desmantelamento de inúmeras empresas que fazem parte da rede de produção que a Petrobras, por exemplo, exige.

    Quanto a como evitar novos atos de corrupção no futuro, ainda não consegui ler nem ouvir uma frase sobre o assunto, todo o rito burocrático existente, assim permanece.

    Imaginando que a Petrobras ou o a Valec resolvam liberar os $$$, existirão doidos varridos para atestar o encaminhamento do numerário para as empresas X e Y ? Estarão arriscados a acordar no dia seguinte com a PF dentro do seu quarto, com direito a filme prá ser exibido no JN.

    Em minha opinião, esta é a caótica situação no setor de fornecedores com contratos em vigência com os governos, caos dos dois lados.   

    1. MARCOS F. L.

      3 de março de 2015 11:41 pm

      Eles não estão nem ai com

      Eles não estão nem ai com empregos ganham mais de 20 mil pormês mais auxílio moradia de 4.300,00 mensais, bom para a HALLIBURTON e outras construtoras estaengeiras.

  13. Luís Henrique Donadio

    6 de março de 2015 4:44 pm

    “Detalhe: embora não

    “Detalhe: embora não recebamos a fatura emitida, somos obrigados a recolher os impostos a ela relacionados.”

    Não quero duvidar da palavra do ilustre ex-ministro de Collor, mas não sei bem como isso é possível.

    Os impostos, até onde eu saiba, são pagos no ato do pagamento da fatura. É uma coisa meio esquizofrênica: a União paga um milhão de reais para o fornecedor, e cem mil reais para si mesma, na forma de impostos (CSLL, PIS, COFINS, IRPJ). O empresário na verdade, não “paga” absolutamente nada.

    E, é claro, no caso de vendas a particulares, o empresário na verdade recebe os impostos, circula com eles durante alguns dias (ou seja, empresta esse dinheiro à União, na forma de depósito bancário remunerado), e somente depois os repassa à União.

    E se acham muito perseguidos, discriminados e injustiçados.

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