Despedida de José de Alencar, por Jean Pierre Chauvin

Despedida de José de Alencar, por Jean Pierre Chauvin

Desde que virei leitor contumaz (e isso deve fazer quase quarenta anos), escutava o nome de José de Alencar. Demorei a lê-lo, embora topasse frequentemente com seus livros, na biblioteca do Colégio, na papelaria que fornecia materiais para a escola, em livrarias, em adaptações para o cinema.

Dia desses, em uma das aulas de Cultura e Literatura Brasileira: Império, levei cópias para todos os alunos das páginas iniciais de O Guarani. Pouco tempo depois, conheci uma colega da Unifesp, que estuda a sua obra. Há quatro anos não me sai da cabeça a opinião, do saudoso Ivan Teixeira, que José de Alencar não era lido como se deveria.

Domingo, 2 de setembro de 2018 d.C.. Minha filha e eu combinamos de nos encontrar na Avenida Paulista, lugar menos convidativo, para quem está a fim de conversar calmamente (ler, então? esqueça).

Deixamos o Conjunto Nacional e pegamos a Alameda Santos. Calculamos a saída para um lugar em que houvesse comida e menos barullho. Encontramos.

Durante o passeio e o almoço — momento de relativo sossego em relação ao mar de ruídos (relativo, sim, porque na mesa em frente havia uma moça que monopolizava o “diálogo”, palestrando sobre gestão…que indi-gesto.) –, lembramos a importância de José de Alencar. Minha filha elogiava Iracema, supondo ter sido a única que leu o romance, de uma turma de quarenta, no Colégio em que lecionei.

Em seguida, avistamos um box da Livraria Ciranda Cultural, que costuma vender livros por preços acessíveis. Lá estava Alencar, de novo, acenando para nós com O Guarani e Iracema. Digo a minha filha que as páginas iniciais de O Guarani contêm uma das metáforas mais bonitas de toda a literatura brasileira. 

A noite chega. Percorremos a Avenida até a estação Brigadeiro. No caminho, paramos para assistir um rapaz que controlava um esqueleto a dançar rock’ n’ roll. Deixo minha filha na estação. Na volta para casa, descido pegar um ônibus. E, como estava em frente a outra Livraria (por sinal, aberta), resolvi conferir as vitrines.

Lá havia um mostruário com dezenas de livros da Ateliê e, à altura dos olhos, romances brasileiros do século XIX. Eis que Machado de Assis e José de Alencar gesticulam, sinalizam para que me aproxime. Estão lá pela metade do preço. Promoção ainda maior para quem sabe o tanto que valem.

Então, cheguei em casa e topei com a notícia de que os manuscritos de Alencar foram queimados. Colegas do Rio de Janeiro choram a destruição da fonte de sua pesquisa em torno dos autógrafos.

Enquanto formos subservientes ao que dizem os States, continuará em curso o projeto de ruir o país. Ele tem longos tentáculos, dentro e fora desta terra arrasada e conta com o beneplácito de quem sequer teve acesso a um livro durante sua mirrada existência. 

Registro meu repúdio veemente ao velho esquema de incertos “políticos”, que consistia em: 1. aparecer em fotos de inauguração; 2. cortar verbas, alegando questões orçamentárias; 3. sugerir a privatização.

Antigo método que foi intensificado desde que se acreditou que seria razoável estabelecer acordos com banqueiros, donos de conglomerados da mídia e os Poderes, nada republicanos, desta neocolônia norte-americana.  Minha solidariedade aos amigos do Rio de Janeiro.

Adeus, estimado José de Alencar. Escrever sobre vossa mercê será uma questão de honra e resistência.  

 

[Os parágrafos desse texto se ativeram a algumas iniciais do nome do escritor cearense].

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