Fatos alternativos, pós verdades e mentiras descaradas, por Gustavo Gollo

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Por Gustavo Gollo

Há já umas décadas, temos ouvido a seguinte história, muito mal contada: quando a população estava crescendo, existiam muitos jovens e poucos velhos, então podia-se aposentar os poucos velhos que seriam sustentados pelos muitos jovens. Com a estabilização da população, contam, muitos têm se aposentado, e os que trabalham não conseguem sustentar todos eles, o que gera um deficit previdenciário insustentável. Tanto repetem esse disparate que muitos acabam acreditando no bordão. Essa história desconsidera o fator mais importante de nossos tempos: a automação.

Uma outra história

Contarei história diversa. 2 lavradores manejando, eles mesmos, um arado, conseguiam lavrar certa área na qual produziam certa quantidade de alimentos. Com o auxílio de um animal de tração, os lavradores conseguiam arar mais terras e produzir mais alimentos. O advento do trator permitiu que uma quantidade muito maior de terra fosse cuidada por 2 homens que conseguem, fazendo uso desse instrumento, produzir quantidade muito maior de alimentos que o fariam sem ele. Então, os lavradores de hoje produzem, cada um deles, muito mais alimentos do que os de épocas anteriores. Por essa razão, poucas pessoas trabalham na terra atualmente, produzindo uma enorme quantidade de comida.

Assim, a mecanização permitiu que uns poucos homens passassem a produzir a comida de muitos. Esse fator, o enorme aumento de produtividade, torna possível hoje a aposentadoria dos lavradores mais velhos, que comerão o produto do trabalho dos mais jovens.

A automação tem tido, exatamente, o mesmo papel em toda a produção restante, de modo que poucas pessoas produzem hoje, com auxílio de computadores e máquinas automatizadas, uma quantidade de produtos muito maior do que a produzida, em outros tempos, sem esse auxílio. Por essa razão, os trabalhadores de hoje poderiam trabalhar menos horas por semana e se aposentar mais cedo que os do passado, produzindo quantidade enorme de produtos a ser distribuída entre todos. Esse equacionamento simples resolveria a contento os falsos dilemas da aposentadoria e todos ficariam satisfeitos.

Umas pessoas cruéis, no entanto, dizem que isso não pode ser assim, que os que trabalham devem continuar a trabalhar tanto quanto antes, ganhando o mesmo salário, embora produzindo muito mais que seus antecessores devido à automação.

Como cada trabalhador produz agora muito mais que antes, poucos trabalhadores são suficientes para produzir tudo o que é consumido. Se eles continuam a trabalhar tanto quanto antes, o número de empregos vai sendo reduzido. Não há limites para isso, TODA a atividade produtiva será realizada por autômatos em poucas décadas. Insisto: não há limites para tal substituição. Então o número de empregos continuará sendo reduzido a cada dia. Isso logo valerá para cientistas, médicos, juízes e todos os outros, até não existirem mais empregos úteis. (Temo que, por essa época, em locais incivilizados, contrate-se a metade da população para policiar a outra metade).

Mas a história que se conta repetidamente na TV desconsidera a automação propondo, por isso, o equacionamento que obriga a empurrar a aposentadoria para cada vez mais tarde.

Essa farsa é óbvia, gritante, e no entanto ouvida com naturalidade pelos brasileiros.

Histórias como essa, quero dizer, mentiras descaradas, são veiculadas diariamente e em profusão pelos meios de comunicação. Mas estamos tão acostumados com a mentirada ouvida repetidamente que corrigimos qualquer pessoa que ouse dizer o contrário; corrigimos e brigamos com o petulante, caso ele ouse manter uma história diferente das que nos obrigam a ouvir diariamente.

Mais farsas

O presidente americano, um belo dum espertalhão, tendo percebido o tamanho da farsa, pensou: – Por que recontar mentiras alheias? Por que não inventar, eu mesmo, meus próprios “fatos”, alternativamente aos “fatos” inventados por outros gaiatos? Desde então, o saltimbanco vem alardeando seus “fatos alternativos”, tendo sido eleito presidente dos EUA com base neles. Há certa sabedoria em substituir mentiras alheias pelas próprias, devemos conceder.

Simultaneamente, lembremos, o Oxford’s Dictionary elegeu o eufemismo “post-truth”, ou, pós-verdade, a palavra do ano! Uma pós-verdade é uma mentira descaradamente polida. Aliás, penso que a palavra de 2016 deveria ter sido a boa e velha “descaramento”.

Abomino toda essa mentirada, trata-se de um deboche descarado. Os donos dos meios de comunicação, esse pícaros, divertem-se a zombar das populações do mundo inteiro, lucrando, ainda, com a patifaria. Pós-verdades e fatos alternativos constituem pilhérias similares ao achincalhe oficial, veiculado na TV, uma imensa farsa.

Mundo real

Bem, temos já expostas 3 formas de descaramento conflitantes a competir por nossa atenção: pós-verdades oxfordianas, fatos alternativos trumpistas e a farsa espetacular apresentada diariamente na TV. Não nos referimos ainda, naturalmente, ao mundo real, essa irrelevância sem brilho à qual ninguém dá atenção. Deixemo-lo de lado.

Mais mentiras

Olha, não vou explicar isso, seria como cutucar um vespeiro enorme, só vou comentar sobre algo que nos engloba desde que nascemos (embora todos estejam cada vez mais descarados, a cada dia). Vivemos imersos em uma mentirada imensa, um imbróglio realimentado pelos meios de comunicação e por todos os demais. As histórias que nos contam constituem um imenso rol de mentiras necessárias para encobrir as que as precederam. Uma barafunda! Se tentarmos analisar seriamente qualquer faceta de nosso mundo chegaremos aos maiores absurdos, basta conferir. Ao mesmo tempo, brigamos, todos nós, pela manutenção das mentiras com as quais nos acostumamos, lutamos por elas. Insistimos em continuar enganados pelas mesmas mentiras que ontem, e não por outras; somos bufões convictos a ponto de bater panelas pela eliminação de nossos direitos!

Mas note que não escapamos da farsa, nem de um lado nem de outro.

A maioria das pessoas não está interessada em nada disso, preferindo, em consequência, desacreditar as dúvidas, e se deixar levar pelo mundo encantado proposto na TV.

Mas alguns tentarão acordar e perguntarão:

– Mas então, como descobrir o fatos?

Isso seria bem difícil mesmo no pequeno mundinho ao nosso redor. Ao longe, no entanto torna-se praticamente impossível discernir a versão verdadeira.

Eu costumo, normalmente, desprezar os fatos. Quase não me preocupo com eles e muito raramente falo, ou escrevo, sobre fatos.

– Oõ… o quê? –, terá perguntado o leitor atento, estupefato.

Não sei como discernir os fatos, embora saiba descobrir mentiras.

Bem, isso já parece ser um primeiro passo, mas, como desvendar mentiras?

É muito difícil saber o que aconteceu através da leitura de uma notícia, mas podemos deduzir, com segurança, uma série enorme de consequências daquilo que lemos, usando inferências do tipo “se isso, então, aquilo”. Se analisarmos desse modo as notícias na TV e nos jornais encontraremos uma série enorme de contradições, mostrando que se uma das propostas é verdadeira a outra não pode ser.

Pode ficar, mais ou menos, assim:

Os computadores estão se desenvolvendo,

executarão funções feitas hoje por empregados,

esses empregados serão demitidos,

o número de empregos será reduzido,

os desempregados não encontrarão empregos.

Desde os anos 90 isso vem se acirrando, a solução para o problema engloba reduzir jornada de trabalho, reduzir idade de aposentadoria, e garantir alguma renda para os desempregados. As ações de Lula/Dilma iam nessa linha. Mas então, batemos panela para retornar ao século XX, quando agíamos baseados em outra visão.

Batemos panela para retornar à “possibilidade” alternativa, insustentável, que é assim:

computadores passam a executar funções feitas por empregados,

empregados tornados desnecessários são demitidos,

reduz-se a renda total auferida através de salários,

menos bens são consumidos,

menos funcionários são necessários para a produção de bens,

mais empregados são demitidos reduzindo a renda total, recomeçando o ciclo.

No primeiro momento, isso garante a continuação da existência de empregadas domésticas que vinham conseguindo evitar empregos humilhantes. (Não precisa ser humilhante ser um empregado doméstico, mas, entre nós, costuma ser).

A sequência do movimento será bem cruel para os brasileiros. Motoristas logo serão substituídos por veículos autônomos, proibidos de guiar manualmente. Vendedores serão substituídos por caixas inteligentes. Pequenos comércios não competirão com os grandes, falirão. Médicos serão substituídos por consultas automáticas, e, sucessivamente, todos os outros. Quando você imaginou que motoristas seriam substituídos? Pessoas erram muito mais que computadores, serão proibidas de atuar. Enquanto for lucrativo substituir pessoas por máquinas isso será feito. A taxa dessa substituição está crescendo exponencialmente, o mundo está se acelerando, será tudo muito rápido. Seremos os próximos. Não sobrará ninguém, pode apostar. E seremos jogados no lixo, todos nós, brasileiros.

Globalmente, a sequência acima não se sustenta, alguém tem que sobrar no mundo para que tudo continue funcionando. Mas nós, brasileiros, não sobraremos, já batemos panela para garantir isso. Vamos para o lixo. Décadas atrás, teríamos a oportunidade de retornar à nossa economia índia tradicional, em voltar a trabalhar suado, cultivar nossa comida e viver como no passado, sonhando com as maravilhas tecnológicas lá do mundo. Mas não há mais terras para nós, foram usurpadas. Não temos mais lugar. Serão contratados apenas uns de nós, como jagunços, para controlar e dar cabo dos outros. Restarão poucos de nós. (Essa linha ocorrerá se mantivermos as diretrizes atuais impostas pelo usurpador. Acredito que a derrocada dos EUA e do ocidente possa abrir caminho para o retorno à linha de crescimento que vínhamos seguindo nesse século).

Conclusão 1

Há dois caminhos possíveis: redução do tempo de trabalho de cada cidadão e garantia de renda mínima para todos, ou, envio para o lixo de todo o enorme contingente populacional tornado “desnecessário” pela automação crescente.

Conclusão 2

 

Existem meios de desmascaramento de mentiras, mesmo as distantes, bastando para isso utilizar ferramentas lógicas. Vivemos imersos em uma imensa mentira forjada para validar mentiras anteriores. A mentirada imensa está prestes a ruir, desmoronará junto com todo o ocidente. Nesse instante teremos a sensação de estarmos sendo esmagados pela enorme enxurrada que nos sufocará como se uma enorme montanha de lixo desmoronasse sobre nós. A liberdade resultante será excessiva para a maioria, a ausência dos grilhões nos incomodará. Os que ousarem abrir os olhos e contemplar o mundo terão, então, sua oportunidade. Poderá haver alegria em meio à ruína. Alegremo-nos.

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