Ideologia é a prima pobre da geopolítica, por Andre Motta Araujo

A IDEOLOGIA É SIMPLIFICADORA DA REALIDADE. Para quem assim vê o mundo tudo é simples, a realidade se resume em amigos e inimigos

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Por Andre Motta Araujo

No atual ciclo de retrocesso cultural pelo qual passa o mundo, um rebrotamento da extrema direita é sinal dos tempos. Voltaram as ideologias?

Ideologia é um instrumento para entender o mundo reduzindo a complexidade muito maior da História a poucas variáveis. É evidentemente um artificialismo reducionista e simplificador, atraente para mentes primárias e que dispensam o trabalho do estudo e da reflexão, é uma forma da preguiça mental.

A IDEOLOGIA É SIMPLIFICADORA DA REALIDADE. Para quem assim vê o mundo tudo é simples, a realidade se resume em amigos e inimigos.

A História sempre foi caótica porque suas variáveis, que começam na geografia passam pela demografia, pelas epidemias, pelas religiões, pelos inventos, pelo clima, pela agricultura, pela educação, são interrelações cuja trajetória não cabe em uma fórmula redutora que se resume numa ideologia.

Grandes estadistas da Era Contemporânea, dos últimos duzentos anos, operaram dentro das circunstâncias da política, apanhando pedaços de uma certa visão de mundo em uma época, e a descartando em outro ciclo para incorporar nova visão.

No Brasil um exemplo clássico foi Getúlio Vargas que teve fases progressistas em 1930, fascistas em 1937 e nacionalista progressista em 1950. Foi do centro à direita e desta para a esquerda, o francês De Gaulle, que nunca operou por ideologia. Roosevelt era progressista, mas como ninguém representou o poder imperial dos EUA.

O tradicional conservador Churchill tornou-se aliado de Stalin, era antes seu super inimigo, depois amigo e voltou a ser inimigo na Guerra Fria. O líder britânico também foi um admirador de Mussolini, até 1935, depois virou seu maior inimigo. Ainda assim, Churchill nunca deixou de ser um símbolo da adaptação à realidade:o mesmo homem lutou no Sudão em batalha de lanças e chegou a Era Nuclear.

No Brasil, o progressista Lula teve dois ciclos de governo onde os bancos conheceram seu apogeu de lucros e concentração de riqueza.

Hoje temos no país o fenômeno do pobre de direita: gente remediada que defende o direito dos bilionários a ganharem mais com privatizações.

É realmente um mistério porque pobres defendem banqueiros. São mais radicais de direita do que super ricos. É incompreensível! Os Setúbal e os Moreira Salles são mais progressistas do que fanáticos direitistas de clubes de classe média que desprezam pobres, porque tem um carro melhor.

IDEOLOGIA EM RELAÇÕES INTERNACIONAIS

A diplomacia não comporta ideologia de nenhuma espécie porque ela se refere a defesa dos interesses de um Estado fora de suas fronteiras, e esse interesse se rege por fatores geopolíticos e não ideológicos.

A China é a maior parceira comercial do Brasil por razões de solo, clima, agricultura. Nada tem a ver com ideologia, assim como o Irã e a Arábia Saudita são grandes compradores de produtos brasileiros por causa da qualidade do produto e não de religião e ideologia.

Esse modus operandi vem de tempos imemoriais. Os cristãos na Idade Média compravam madeiras e especiarias dos mouros, dos hindus, dos chineses. A República de Veneza começou a negociar com os otomanos dois anos depois que esses tomaram Constantinopla, uma notável adaptação à realidade geopolítica.

Hoje os Estados Unidos são nossos maiores concorrentes na exportação de soja, milho, carne suína e bovina. Jamais sacrificariam seus interesses porque somos bons amigos.

Para comprar e vender não é preciso afinidade ideológica e nem sequer amizade, basta o interesse dos dois lados. Introduzir ideologia em relações internacionais é uma aberração conceitual, atrapalha a visão clara do interesse geopolítico, confunde ações e movimentos. Pode ainda trazer prejuízos irreparáveis.

QUANDO A IDEOLOGIA É CONFUSA

Há algo ainda pior do que a mente ideológica, é a mente ideológica confusa, aquela que por falta de intelecto e cultura não consegue sequer seguir uma linha coerente.

Neonazistas que ao mesmo tempo são adeptos do sionismo, uma contradição histórica, fascistas que são a favor de privatizações, quando o fascismo é estatizante. Além disso, são admiradores do Regime Militar brasileiro, grupo ao mesmo tempo neoliberal anti-desenvolvimentista, quando originalmente a marca desse regime era o desenvolvimento da indústria, da tecnologia e da ciência com recursos próprios e não importados do estrangeiro.

Simplesmente um MAR DE CONTRADIÇÕES criado pela ignorância até sobre a própria ideologia da qual levantam bandeira. São ideológicos, mas não conseguem dar coerência às próprias ideias, fazem um coquetel de noções confusas e ao fim não são nada, apenas fantoches.

É ridículo ver no mundo uma conspiração liderada por George Soros, símbolo do financismo judaico e ao mesmo tempo adular o Estado de Israel. Isso não combina.

IDEOLOGIA NÃO EXPLICAM O MUNDO

Ideologia de esquerda ou de direita são expressões de pobreza intelectual. Quem as cultiva procura simplificar uma realidade ultra complexa través de meia dúzia de interpretações forçadas que dispensam o trabalho de entender o mundo complexo que vai muito além das ideologias simplificadoras. Que este ciclo tenha rebrotado é um mau sinal.

AA

7 comentários

  1. Extraído do “Dicionário de Política” de Norberto Bobbio

    Ideologia.

    Tanto na linguagem política prática, como na linguagem filosófica, sociológica e político-científica, não existe talvez nenhuma outra palavra que possa ser comparada à Ideologia pela frequência com a qual é empregada e, sobretudo, pela gama de significados diferentes que lhe são atribuídos. No intrincado e múltiplo uso do termo, pode-se delinear, entretanto, duas tendências gerais ou dois tipos gerais de significado que Norberto Bobbio se propôs a chamar de “significado fraco” e “significado forte” da Ideologia No seu significado fraco, Ideologia designa o genus, ou a species diversamente definida, dos sistema de crenças políticas: um conjunto de ideias e de valores respeitantes à ordem pública e tendo como função orientar os comportamentos políticos coletivos. O significado forte tem origem no conceito de Ideologia de Marx, entendido como falsa consciência das relações de domínio entre as classes, e se diferencia claramente do primeiro porque mantém, no próprio centro, diversamente modificada, corrigida ou alterada por vários autores, a noção da falsidade: a Ideologia é uma crença falsa. No significado fraco, Ideologia é um conceito neutro, que prescinde do caráter eventual e mistificante das crenças políticas. No significado forte, Ideologia é um conceito negativo que denota precisamente o caráter mistificante de falsa consciência de uma crença política.

    [Seguem 13 páginas do verbete]

  2. Nunca é demais trazer de volta nas oportunidades que um artigo como o de Araújo oferece, a lembrança de um certo alemão, gênio intelectual, que definiu ideologia como uma falsa consciência. Simples assim. Tão simples que permitiu a um russo que dirigiu uma revolução que ainda sacode o planeta, um outro gênio revolucionário, viajar num trem blindado do governo alemão, durante a Primeira Grande Guerra, diretamente para a Finlândia, de onde retornou à Russia, que combatia a Alemanha. Aposto que Roosevelt ou Churchill não teriam tido a coragem de fazer nada parecido. Não comento nem Vargas, figura admirável, nem Lula, porque a viagem do primeiro palmilhou a tragédia e o trajeto do segundo se encontra interrompido por imbecis.

  3. Aproveitando a equação de soma de iguais que ilustra o post, é verdade ou “fake” que os desiguais Nassif e Reinaldo Azevedo vão somar forças?

  4. Caro sr. André M. Araújo, por que não mais uma meia dúzia, pelo menos, iguais ao sr. e seu conhecimento? Rui Daher sobre o Interior Brasileiro e sua Agropecuária e alguns raros artigos embasados em cultura, vivência, conhecimento. Nada mais na Imprensa Paulista. Vemos por que Delfim Neto é um Pregador no deserto. A Indústria do Atraso e do Analfabetismo prosperou nestas 9 décadas. A Consciência Brasileira, inclusive da sua Elite, é tão rasa que não enxerga que Interesses de Estado, não são interesses de partidos, ideologias, correntes políticas. Amadores e Principiantes até na nossa Diplomacia. Se me permitir, sobre a EMBRAER e não se defender Interesses de Estado : ” Uma guerra comercial entre a Boeing e a Airbus só vai jogar tudo nas mãos da COMAC”, acrescentou ele, referindo-se à chinesa Commercial Aircraft Corp of China Ltd. Le Maire disse que a Europa tem os meios para retaliar qualquer sanção dos EUA aos produtos da UE, mas acrescentou: “É infinitamente preferível que, junto com nossos aliados dos EUA, encontremos o caminho para um compromisso”. .. Bruno Le Maire Ministro das Finanças da França.

  5. Talvez, para além da ideologia, tentar complicar, tentar estabelecer o mito de que a realidade é super complexa, é que seja contraproducente, e acaba, na prática, dando azo para algum oportunista barato, alguém que se arvore grande entendedor seja seguido por quem precisa de um líder para chamar de seu.

    A criação desse estado de alma – a do que se convence inepto para entender a realidade – talvez seja o mais nefasto efeito da tentativa de fixar a ideia de que tal compreensão não é acessível à maioria. Ou seja, acreditar na necessidade da existência de elites ou fidalguias a conduzir as pessoas comuns é sempre fria, é sempre anti-democrático. O que parece urgente na retomada do poder pelo povo, é destruirmos a necessidade do mito que eventualmente haja em cada um de nós.

  6. Muito interessante o artigo, me leva a pensar porque os antipetistas consideram o PT um partido de comunistas. Lula criou programas sociais de alta relevância como o Bolsa Família, o FIES, o Minha Casa Minha Vida, programas que reduziram a desigualdade social existente no país e movimentaram a economia, e como disse o André Araújo até os bancos ganharam muito dinheiro no governo do PT, bem como os agricultores, os empresários do setor de supermercados, as indústrias de autos e o setor de vestuário .

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