Nem a perspectiva de impeachment inibe governo Bolsonaro, por Luís Francisco Carvalho Filho

"Com sangue nos olhos, a Presidência da República festeja o golpe de 64, homenageia torturadores e religiosos, ridiculariza jornalistas e abate seus adversários”

Jornal GGN – Em uma recente entrevista ao jornal Estado de S.Paulo, os ex-ministro Delfim Netto disse que o governo Jair Bolsonaro tem um “lado sombrio” e um “lado iluminado”, apontando como dentro desse último lado as propostas do ministro da Economia Paulo Guedes. “A área econômica tem ideias muito boas”, frisou Deltim. Sua visão, entretanto, não é compartilhada por todos.

A equipe Econômica de Guedes, além de não conseguir recuperar a rota de crescimento no país, passado quase um ano de governo Bolsonaro, é responsável pela redação de propostas que restringem os ganhos de renda à população trabalhadora. Exemplo disso é o programa “Verde e Amarelo”, que retira do seguro-desemprego o valor que será descontado com a redução de impostos sobre a folha de pagamento. Em outras palavras, gera um pedágio para que os mais pobres tenham emprego.

Em artigo publicado neste sábado (30), na Folha de S.Paulo, o advogado criminal, que presidiu a Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos (2001-2004), Luís Francisco Carvalho Filho, avalia como distorcida a declaração de Delfim Netto em favor de Paulo Guedes:

“O ‘lado sombrio’ não está apenas na estratosfera ou nos gabinetes dos ministérios da Educação, da Justiça e Segurança Pública e das Relações Exteriores. Tudo se mistura”, pondera o articulista completando que o lado sombrio do governo Bolsonaro também inclui conspirar contra o meio ambiente e a liberdade sexual, desmantelar o incentivo à cultura e a capacidade das instituições criadas para fiscalizar atos administrativos, estimular violência e ódio nas polícias e perseguir artistas e jornais”.

“Exceção feita às indústrias de armas e de equipamentos para vigilância e espionagem, que, de fato, encontram solo fértil para um futuro promissor, não há motivo para o mercado se encantar com a cruzada mesquinha e moralista de Jair Bolsonaro”, prossegue.

Carvalho Filho pondera que o ministro da Economia tem pensamentos e propostas tão obscuras quanto as manifestadas por outros setores do governo e pelo próprio presidente Bolsonaro.

“Paulo Guedes não tem perfil de homem público. É rude, falastrão, amoral e pernicioso —como revelam as manifestações sobre Brigitte Macron, mulher do presidente da França, sobre a ditadura de Pinochet ou sobre o AI-5, formuladas para bajular a família presidencial”, destaca.

“Em regimes democráticos, o ímpeto discricionário dos governantes é contido pela tradição constitucional, pelo respeito às leis, pela independência dos poderes, pela existência de forças políticas antagônicas disputando eleições e se revezando nos cargos, pelo entrechoque de interesses corporativos e pela presença incômoda de imprensa livre, persistente, soberana”, pontua o articulista.

“O objetivo de Bolsonaro é a autocracia. Paulo Guedes acalenta o mesmo desejo: governar sem freios e limites, conforme o roteiro das planilhas e das ‘ideias muito boas’ do seu pessoal. É um sonho impossível e inadmissível, mas faz sentido o saudosismo retórico do AI-5, verbalizado pelo filho do presidente e pelo ministro da Economia”, conclui.

Carvalho Filho lembra que Delfim Netto, então ministro da Economia, também assinou o Ato Institucional nº 5 (AI-5), criado em dezembro de 1968, marcando o início da fase mais violenta da ditadura militar brasileira.

O instrumento deu ao então presidente Costa e Silva a prerrogativa de fechar o Congresso, Assembleias e Câmaras, conferindo o poder de aplicar punições, cassar mandatos e suspender direitos políticos em caráter permanente. O AI-5 suspendeu ainda a garantia de habeas corpus em casos de crimes políticos, contra a segurança nacional, ordem econômica e economia popular.

“Em dezembro de 1968, para alegria dos porões da repressão política e da equipe de Delfim Netto, o governo militar adquire um arsenal extraordinário de poderes institucionais que permitiria remover obstáculos, dissolver o Legislativo, emparedar o Judiciário, cassar mandatos, aposentar juízes e censurar manifestações adversas”, explica o articulista.

“Com sangue nos olhos, a Presidência da República festeja o golpe de 64, homenageia torturadores e religiosos, ridiculariza jornalistas e abate seus adversários. Defende imunidade penal para soldados que reprimem protestos e para policiais que atiram a esmo”, ressalta Costa e Silva.

“Nem a perspectiva constitucional do impeachment inibe a caminhada odiosa de Jair Bolsonaro e seus filhos e asseclas e capangas”, pontua.

*Clique aqui para ler o artigo de Luís Francisco Carvalho Filho na íntegra.

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