O desmonte da engenharia nacional, por Francis Bogossian

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Foto: Arthur Boppré/Wikimedia Commons

Do Clube da Engenharia

Desmonte da engenharia nacional

por Francis Bogossian

O combate à corrupção é essencial e deve ser mantido, mas preservando ao máximo as empresas como um todo
 
Francis Bogossian
Jornal O Globo – 12/05/17 – Opinião
 
A engenharia nacional está sendo desmontada. A situação do país é extremamente preocupante! Não me lembro de uma época tão atribulada quanto esta.
 
Não há investimentos e nem perspectivas para o setor de obras públicas, a curto prazo. O déficit dos governos federal, estaduais e municipais é monumental. Há dívidas do setor público para com as entidades privadas.
 
A crise que assola o Brasil exige que se busque um consenso em torno de soluções, tendo por base o interesse nacional. Não existe nação forte sem empresas nacionais fortes.

 
Agiria de modo mais consequente o poder público se, antes de adotar medidas de tal forma drásticas, constituísse comissão notável para estudar o problema e propor uma solução emergencial. Comissão esta que reunisse entidades nacionais de engenharia — tais como a Academia Nacional de Engenharia, os clubes e institutos de Engenharia do Brasil — para, em prazo emergencial pré-estabelecido, apresentar alternativas que visem a preservar a engenharia brasileira, setor fundamental ao desenvolvimento científico e tecnológico, ao progresso, à infraestrutura e à subsistência do país.
 
O combate à corrupção é essencial e deve ser mantido, mas não pode ser usado para provocar a estagnação da economia nacional. Não se pretende deixar de culpar os comprovadamente ilegais. A proposta a ser estudada teria como meta que as punições aconteçam, preservando ao máximo as empresas como um todo, sem levar ao desemprego profissionais probos, competentes e, ainda, a mão de obra dita “não especializada”, que está sem seu pão a cada dia.
 
Hoje, o setor que mais atua nas empresas de engenharia, ocupando patrões e empregados, é o de Recursos Humanos, para homologar indesejadas e desgraçadas rescisões contratuais. E já está começando a faltar dinheiro até para isso.
 
Empresas são formadas, majoritariamente, por profissionais, que aplicam seus conhecimentos e habilidades no desenvolvimento de equipes técnicas formadas e treinadas ao longo de décadas. Estas equipes estão sendo desmanteladas. As construtoras brasileiras, por exemplo, também têm o papel de educar. São estas empresas que empregam mão-de-obra não qualificada e analfabeta. Cursos de alfabetização são comuns nos canteiros de obras, assim como o treinamento dos trabalhadores sem qualificação, que são contratados como serventes e se profissionalizam como pedreiros, encanadores, etc. É por eles que precisamos lutar! Colapsar as empresas brasileiras de engenharia é extinguir nossa soberania.
 
O Brasil tem extraordinários feitos em ciência aplicada e engenharia, tais como as conquistas do setor elétrico nos últimos 60 anos, o Pró Álcool, a recuperação do cerrado, a produção de petróleo em águas profundas e muitos outros que são referências internacionais. Necessitaria então, realmente, se valer de maciça participação de empresas estrangeiras em nossos projetos de engenharia para sua recuperação econômica?
 
Francis Bogossian é professor, presidente da Academia Nacional de Engenharia, membro das academias Brasileira da Educação e Pan-Americana de Engenharia e ex-presidente do Clube de Engenharia.
 
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3 Comentários

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ze sergio

- 2017-05-15 16:28:09

o....

Somos realmente a Terra da Fantasia e dos Lunáticos. Bipolaridade é pouco. Destruimos nossas empresas enquanto liberamos as concorrentes internacionais. Entregamos mercado de graça. O Corpo de Engenharia brasileiro é um dos mais capacitados do planeta. O Corpo de Engenheiros do Exercito é referência mundial. Nossas obras e projetos são invejados e copiados por toda parte.  Até os chuineses jpa declararam que vieram aprender sobre engenharia com os profissionas brasileiros. E estamos jogando tudo isto fora por conta de uma Gestapo Ideológica, um Anticapitalismo Tupiniquim, uma Esquerdopatia atrasada e tacanha que não se livra de 1960. A destruição recente da nossa indústria e engenharia, se deu na implementação do Plano "Lá tinha" ou Real (lá tinha uma empresa, lá tinha uma obra nacional...). O combate ideológico contra a FIESP e indústriais genuinamente nacionais, para aceitar a abertura estúpida de mercado brasileiro sem exigir quaisquer contrapartidas. Ficamos importadores do restolho, da lixaria e bugingangas do restante do planeta, a preços extorsivos. O mesmo por ideologia arcaica, combatemos o Corpo de Engenheiros do Exército. No setor, uma das estruturas mundiais mais capacitadas. O Brasil se explica. E se lamenta.    

Ugo

- 2017-05-15 15:24:37

é tarde

Muito mais que o patrimônio do conhecimento, as empresas oferecem credibilidade e confidencialidade.

As necessidades e prioridades de qualquer obra podem ser implantadas atendendo estes princípios. No entanto....

A raposa ACM quando ministro das comunicações e nos estertores da telefonia celular implementou na sua Bahia mais investimentos comparando com SP.

Lembro nas minhas viagens que a maioria dos taxistas de Salvador tinha este tijolo, em SP custava e quase não se achava a US$ 4000,00.

No mercado externo a credibilidade dos patrões da nossa engenharia está morta, a qualificação técnica ao contrario está viva, mas não sobrevive sem confiabilidade e confidencialidade.

Pecados e roupas sujas devem ser reconhecidos eliminados. A mancha da camisa merece limpeza localizada.

sergio ribeiro

- 2017-05-15 14:25:13

Não interessa

Os procuradores brasileiros não estão preocupados com a nossa economia ou até mesmo com a Justiça. A eles só interessa os holofotes. A consequência de seus atos só será atribuída às empresas e aos políticos. Quando o país estiver totalmente privatizado, disponibilizado aos estrangeiros e absolutamente pobre, eles estarão curtindo férias no exterior rindo da cara dos pobres.

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