Os falsos monetaristas de Brasília, por André Araujo

Por André Araujo

O “monetarismo”,  doutrina econômica que deriva dos estudos sobre a teoria quantitativa da moeda nasceu nos Estados Unidos com o economista Irving Fisher (1867-1947), o primeiro economista-celebridade daquele País, a quem Joseph Schumpeter chamava “o maior economista americano”.

Fisher ganhou grande notoriedade até que a perdeu em uma semana, juntamente com a maior parte de sua fortuna. Fisher, uma semana antes do “crash” de 1929 disse que o mercado estava sólido e que os preços das ações iriam subir ainda mais. A grande queda de 29 de outubro levou junto a reputação de Fisher e a do monetarismo. Ainda teve a imprudência de dizer meses depois que a recessão seria passageira e logo tudo voltaria ao normal, o que levou 15 anos.

Coube a Milton Friedman, três décadas depois, fazer renascer o monetarismo como tese operacional de economia, Friedman, juntamente com Anne Schartz, que morreu recentemente com mais de 100 anos, escreveram a monumental HISTÓRIA MONETÁRIA DOS ESTADOS UNIDOS – 1867-1960, o que credenciou intelectualmente Friedman.

Friedman lecionava na Universidade de Chicago, era um acadêmico muito ativo e sabia ter protagonismo, não se escondia, muito ao contrário, era um falador, escreveu muitos livros de popularização da economia.

Escrevia muito e, coisa rara entre economistas, escrevia para o grande público e não para outros acadêmicos. Sabia escrever bem, com o grande auxílio da esposa Rose, co-autora de muitos de seus livros e da colega Anne Schartz.

Mas o que difundiu o monetarismo foi outro instrumento. Friedman escrevia para a prestigiosa revista mensal do Citibank, então, uma instituição símbolo de poder, prestigio e sabedoria, o mais internacional dos bancos americanos.

E nesse grande banco passaram a admirar suas idéias. Então o Citi preparou e bancou uma série de conferências de Friedman por todos os Estados Unidos, uma verdadeira pregação do monetarismo. Com o poder do banco por trás, Friedman pôde divulgar e consolidar seu credo em meio aos economistas de todo o pais.

Em meu último livro traço em mais de 50 páginas o histórico do monetarismo de Friedman e do papel do Citibank na implantação da doutrina.

Friedman foi conselheiro de Reagan e de Thatcher, ganhou imenso prestigio por não ser um acadêmico puro. Era um “ativista” da economia, criou uma “escola”, o MONETARISMO DE CHICAGO e passou a ter discípulos pelo mundo.

Mas Friedman, americano filho de judeus húngaros, era mentalmente muito flexível. Atraiu, todavia, discípulos nada flexíveis, que tomaram algumas de suas lições ao pé da letra, sem contextualizá-las, tais como Domingos Cavallo, na Argentina, Sergio de Castro, no Chile, os pais do Real, no Brasil, e a maioria dos diretores do BC até hoje.

Friedman não era um fanático da moeda, ele considerava a moeda um instrumento e não um totem.

Por exemplo, sua interpretação da crise de 1929 atribuiu ao Federal Reserve, instituição da qual ele sempre foi um grande crítico, a maior culpa pela depressão de 29. Dizia que o FED enxugou a liquidez de tal forma, mais de um terço do meio circulante, que transformou a recessão em depressão, o que quer dizer que ele recomendaria uma EXPANSÃO monetária e não um encolhimento da moeda em circulação. Dizia que “a crise de 29 foi um grande fracasso de um Governo e não do capitalismo” porque foi o Governo quem transformou uma bolha de bolsa numa Grande Depressão.

Sobre a  crise de 2008, Edward Nelson, porta voz do FED disse que foram as idéias de Friedman que embasaram as ações que reverteram rapidamente a crise, referia-se a colocação de uma linha de credito de 750 bilhões de dólares, pelo Tesouro, à disposição de bancos e corporações industriais, linha que foi oferecida imediatamente após detonada a crise, foi sacada e dois anos depois devolvida integralmente. 

Foi essa mega liquidez que resolveu a crise rapidamente, uma reação completamente oposta à de 1929, quando o Governo Hoover aprofundou a crise travando o crédito.

Friedman, do outro lado do espectro de Keynes, tinha, todavia, a mesma flexibilidade mental. É o que explica sua defesa de idéias arrojadas e até progressistas socialmente, como o imposto de renda negativo, nada mais que a RENDA MÍNIMA do Senador Suplicy, a descriminalização das drogas, tese que pela qual foi extremamente criticado nos EUA.

Friedman era menos a favor da desregulamentação do sistema financeiro do que Greenspan, seu adversário doutrinário. Nunca se deram bem no campo das idéias, embora fossem amigos pessoais, se frequentavam.

Alguns de seus discípulos, assim como ele, ganharam o Nobel de Economia, como Gary Becker, Jacob Viener (grande amigo do Brasil e de Roberto Campos), Henry Simons e Frank Knight. Teve também discípulos no Brasil, especialmente na PUC Rio, mas muitos captaram apenas um resumo de suas idéias e o transformaram em “cartilha”.

Friedman jamais apoiaria uma estupidez como a de subir excessivamente os juros para combater uma inflação dentro da recessão. Parece uma idéia burra e Friedman podia ser tudo menos burro. Disse uma vez que um País com grande divida pública será beneficiado pela inflação, uma vez que essa “diminui” a divida pública, enquanto a deflação a aumenta.

Infelizmente a cultura brasileira tem o viés de ao captar uma doutrina estrangeira absorver apenas uma parte dela e não seu todo e a parte que os brasileiros mais gostam é a “parte ruim”, esquecendo da boa.

Nosso monetarismo é uma cópia pirata mal feita do monetarismo de Chicago, o mesmo que hoje faz a economia americana crescer com uma taxa de juros básica de 0,25% ao ano sem inflação e com pleno emprego.

 

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27 comentários

  1. Inflação em queda, câmbio

    Inflação em queda, câmbio competitivo, ajudando nossas exportações, nosso turismo, é a melhor política industrial que um país emergente, como o Brasil, pode ter. E isto está acontecendo no país atualmente. Com o real desvalorizado, empresas exportadoras estão ganhando fôlego, os preços estão bastante competitivos no exterior. A cidade de Franca, no interior de São Paulo, é uma das cidades que mais criaram empregos no país este ano, devido a suas dezenas de empresas de calçados, que estão exportando seus belos sapatos para dezenas de países. É possível que em alguns meses nossa indústria se fortaleça e crie condições para nosso país sair da crise. O que está emperrando no momento é este juro da selic em 14,25%a.a., o mais alto do mundo, que deveria ser reduzido rapidamente, destravando definitivamente o desânimo que assola o país.

    • Voce tem toda razão, a

      Voce tem toda razão, a apreciação do cambio ajudará muito as industrias MAS essa não foi uma politica deliberada, foi uma consequencia da perda de confiança na economia brasileira, algo ruim mas que por tabela depreciou o Real e

      ajuda a industria por dois lados, encarece a imporação e favorece a exporação.

  2. Os falsos monetaristas de Brasília, por André Araujo

    Parabens pelo excelente artigo.

    Poer ele, é possível melhor compreender as diferenças entre o monetarismo de Milton Friedman e o de seus discipulos “cucarachas”.

     

     

  3. Verdade

    O que conhecia de Friedman era só a parte ruim e não gostava. Hoje conheço mais, continuo não gostando porém, é preciso reconhecer o valor e a contribuição dele, como fez AA.

  4. O que acontece com os

    O que acontece com os botocudos é seguir ao pé da letra a frase do Juracy Magalhães – o que é bom para os EUA é bom para o Brasil . Incompetência dá nisso. Teimosia, quando se descobre que o caminho está errado, também.

  5. ELES ABSORVEM SÓ A PARTE QUE

    ELES ABSORVEM SÓ A PARTE QUE LHES INTERESSA OU SEJA

     O QUE LHES DÊ LUCROS,E O RESTO QUE SE DANE EX;

    SELIC LÁ ENCIMA PARA “CONTER”INFLAÇÃO”,KKKK!!!

    CONVERSA PARA BOI (ENGORDAR,OS BANCOS)DORMIR

  6. Em relação a “a cultura

    Em relação a “a cultura brasileira tem o viés de ao captar uma doutrina estrangeira”, levanto uma questão: não seria cultura algo muito maior, mais abrangente do que aquilo que se estimula artificialmente, através dos meios de comunicação de massa, “de cima para baixo”? Pode-se dizer, por exemplo, que a obesidade infantil que se verifica entre os estadunidenses, desde sua infância, é da cultura dos EUA? Que a proposta capitalista para o atendimento à necessidade – humana – de pertencimento, o consumo, vem da cultura? Ou será que há hábitos induzidos pela propaganda comercial?

    Agora que a estupidez beligerante dos EUA, quando se trata de impor valores estrangeiros, alienígenas ao povo sobre o qual escolhe sacrificar, é dado importante nessa equação, disso me parece não restar nenhuma dúvida. O que seria do povo – e da cultura – árabe se os EUA não tivessem executado ataques militares contra os países daquela religião, por exemplo? Curiosamente os EUA combatem as máfias em seus territórios, mas usam do mesmo método: impor violência para vender paz.

    Por último, diferentemente do Chile, por exemplo, os EUA até agora não nos atacou, não nos bombardeou a nós, brasileiros. E se o fez foi na base do terrorismo (base da Alcântara, no Pará, a plataforma P-36, da Petrobras, que por mais evidências que haja não permite acusação formal) nunca diretamente. Bem, houve o episódio em que a Chvron nitidamente sabotou uma perfuração nossa, mas aí já com outras pessoas no governo, essa empresa está sendo penalizada. Mas, em linhas gerais, por enquanto em terras brasileiras tem sido possíveis apenas esses dois tipo de ataque: o dos ratos, enrustido, e o da exploração de vaidades coloniais, da cooptação de pessoas que tem poder sobre os meios de comunicação privados e sobre aquelas que, tendo acesso ao poder público, o corrompem voltando-o para atendimento a interesses privados.

    Assim, acho arriscado demais colocar definitivamente que o entreguismo é parte da cultura dos brasileiros. Talvez esteja mais para “o entreguismo das nossas elites”, que vão desde capatazes (gerentinhos, diretores, CEOs, jornalistas) até parlamentares, juizes e gente do poder executivo.

     

    P.S.: Não me iludo, não há erro na condução da política econômica e de desenvolvimento brasileira. Ela tem sido absolutamente adequada e certa para atender aos interesses dos EUA.

     

    • Meu caro, os EUA não tem e

      Meu caro, os EUA não tem e nunca teve planos conspiratorios de dominio de tal eficiencia e precisão. Que eles acham ou achavam, hoje há mais contestação, que seu sistema de vida é superior aos demais, isso é um traço da cabeça dos americanos. Mas não existe essa “conspiração” para controlar, eles não tem os meios, não tem a inteligencia e não tem a necessidade disso. Se voce se desvia para essa visão do mundo perde capacidade de analise da realidade porque o mundo não é assim esquematico, uns mandam e outros obedecem, o mundo é um caos, hoje os EUA tem muito menos poder do que em 1945, sua politica externa é um lixo, perderam quase toda a influencia economica e cultural que tinham sobre a America Latina, a Subsecretaria que cuida da região em Washington (Roberta Jacobson) é uma completa desconhecida, raramente vem para a região, enquanto o Subsecretario Otto Reich vinha a cada dois meses, o Embaixador americano aqui era uma celebridade, hoje ninguem sabe quem é (é uma mulher de origem colombiana).

      Ninguem qur tomar o pre-sal, um péssimo negocio, no ultimo leilão nenhuma major apareceu, o dificil hoje é trazer investidor americano para cá, estão sem nenhum entusiasmo e os “bolsa boys” e economistas de mercado daqui são imitadores e não soldados do poder americano, hoje temos 225.000 brasileiros estudando nos EUA, o que é PESSIMO para o Brasil.

       

  7. não se aplica ao Brasil

    … um País com grande divida pública será beneficiado pela inflação, uma vez que essa “diminui” a divida pública, enquanto a deflação a aumenta.

    Não se aplica ao Brasil. Pois, viciado em indexação, adiciona a inflação passada a tudo, incluindo os juros. O Tesouro paga juros reais insuportáveis. O Plano Real consertou quase tudo, menos a indexação.

     

     

  8. Pior

    Penso que o Levy não consegue nem terminar de ler o post do André, quanto mais entender de monetarismo, chorinho, cubismo e o que o valha.

  9. Belo texto, AA. Apenas

    Belo texto, AA. Apenas acrescentaria que não se trata de interpretar equivocadamente o monetarismo. Não acho que quem o implementa, no Brasil pelo menos, esteja agindo cientificamente. Acreditar que a política econômica é praticada nessas terras sem o viés dos interesses envolvidos, independentemente da razoabilidade das idéias, equivale acreditar que o que move o sistema financeiro é a razão. O mercado é esquizofrênico, não merece a menor confiança.

    • Agradelo o comentario.

      Agradelo o comentario. Gostaria de receber contribuições esclarecendo qual a base teorica pela qual se combate inflação DENTRO de uma recessão subindo os juros básicos. Se os juros se destinam a esfriar a demanda MAS a demanda já foi antes esfriada pela recessão a que objetivos atende subir ainda mais os juros? Qual a razão dentro da teoria economica?

      Se uma pessoa pesava 80 quilos e através de um forte regime perdeu 20 quilos em quatro meses e agora está com 60 quilos com qual justificava o médico aplicaria um novo regime para perder mais 20 quilos e chegar a 40 quilos até o fim do ano? Não é normal uma pessoa perder metade do peso em 8 meses e virar um esqueleto, qual o beneficio?

      A inflação está a 9,5% e o BC quer faze-la chegar à metade em 2016, é um sacrificio desnecessario e não resolve nenhum problema economico, não traz crescimento, não melhora as finanças publicas, não reduz a divida publica, piora muito a arrecadação e agrava a recessão.

      Quanto mais baixa a inflação mais ricos ficom os detentores de liquidez pois esta se valoriza e mais pobres ficam os devedores pois a divida fica maior e mais cara. A redução drastica da inflação é otima para os bancos e péssima para os devedores, que são o grosso da população brasileira, o estado e as empresas.

  10. A verdade está no meio: nem

    A verdade está no meio: nem só monetarismo nem só keynianismo. Fica bem mais fácil aplicar os preceitos de primeiro em economias ricas e estáveis como os EUA. Sem esquecer que a moeda deles é a moeda de troca universal. Ou seja, a variável câmbio não tem nenhum peso, ao contrário de outros países, 

  11. Sistema da dívida
    A insistência em uma taxa de juros tão alta parece burra ou insana quando se tenta interpreta-la sob o ponto de vista do que é melhor para o Brasil, mas se torna perfeitamente adequada quando se assume a interpretação da professora Maria Lúcia Fatorelli do Sistema da Dívida.

    A dívida brasileira tem um papel fundamental na manutenção do capitalismo rentista mundial atual.

    Note-se que essa interpretação não requer a existência de um grupo organizado, no sentido de teorias da conspiração.

  12. André
     
    Você  escutou o sino

    André

     

    Você  escutou o sino mas não  sabe aonde

    A solução  de qualquer problema começa   em entender o enunciado.

    Acredito que nossa inteligência  econômica falhou bastante nesse instante.

    A crise econômica  é   provocada   pela  inabilidade política do governo federal.

    Taxa de juros  é  o elixir universal dos economistas : serve para calo,   dor de garganta e ou  AVC. 

    Minha leitura é  que o PT  se excedeu:  na ânsia  de se manter no poder  e usando seu ideário  econômico fez uma grande intervenção  na economia.

    No primeiro momento de vacilo a sociedade respondeu à  essa  ação. 

    Minha avaliação  é  que o PT não  tem massa intelectual  para formular e implementar  intervenção  na economia. 

    As esquerdas gostam muito de articular mas não  tem ‘espírito  de corpo ‘ para  praticar essa teoria. 

    Mais uma vez o peixe morre pela boca.

     

  13. Vendas no varejo no vermelho

    Vendas no varejo no vermelho e os monetaristas aumentam a SELIC para 14% por conta de preços administrados pelo governo e  tomate e não pela demanda aqueceida e excesso de liquidez, matando um mercado consumidor maior do que Argentina , Uruguau e Paraguai juntos.

  14. Talvez, além dos

    Talvez, além dos monetaristas, caro André, haja outros brasileiros, outras pessoas, outros profissionais que também são falsos “americanos”, que vivem com os pés, como diz o poeta, eternamente a meio centímetro do chão, sem nunca se darem conta da própria nacionalidade, naturalidade, municipalidade, bairridade, familiaridade… de si mesmos.

    Imitar os estadunidenses talvez seja algo que necessitamos superar… Será? Esse negócio de imitar, ainda mais quando se tenta imitar ideais (o chão mesmo é bem mais firme, bonito ou feio), pode fazer mal à saúde… dificulta ver as questões e seus contextos, embota a criatividade, acaba levando a solução inadequada (o que é pior, a meu ver, do que solução nenhuma já que solução nenhuma deixa a gente ainda procurando)… um perigo. Acho…

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