A Corte Universitária, por Jean Pierre Chauvin

O título dado a esta pseudocrônica resvala numa contradição de termos: historicamente, membros de corte são incompatíveis com a universidade – instituição histórica e socialmente burguesa, por definição.

A Corte Universitária

por Jean Pierre Chauvin

Tienen más ó menos fondo las palabras,

según las matérias” (Baltasar Gracián)

O cardápio não é muito extenso” (Diálogo)*

A historiografia ensina que as sociedades de Corte morreram no final do século XVIII, na transição entre o chamado Antigo Regime e o universo burguês, orientado pelos valores propalados da Revolução Francesa. Porém, o fim da era cortesã não significa que os códigos, convenções e rapapés foram enterrados com ela; pelo contrário: o século XIX testemunhou o pipocar de manuais de boas maneiras e instruções práticas, a exemplo das Artes de Escrever, Vestir-se, Falar e Se Comportar, que sugerem a permanência de uma concepção que prima pela distinção de uns em relação aos outros. De acordo com Peter Burke (1995, p. 120):

“A Arte da Conversação” é o título de uma série de manuais que apareceram entre os séculos XVII e XIX, na Inglaterra, França e em outros lugares. […] Textos como esses ainda são produzidos, mas a ênfase mudou, em nosso século, do social para o psicológico – da arte de mostrar-se alguém bem-nascido para aquela de adquirir confiança, “quebrar o gelo” e fazer amigos.

Para incertos representantes das elites, a radiar durante o Oitocentos, salões, tribunais, agremiações e academias tornaram-se espaços privilegiados de representação de poder, por intermédio de modas, hábitos e trejeitos parcialmente herdados dos manuais de etiqueta que circularam nas cortes europeias entre os séculos XVI e XVIII. Como ensinou Norbert Elias (2001, p. 103), “Uma vez que a hierarquia dos privilégios foi criada segundo os parâmetros da etiqueta, esta passou a ser mantida apenas pela competição dos indivíduos envolvidos em tal dinâmica”.

Como sabemos, nossos tempos são outros: o súdito virou indivíduo; a corporação perdeu espaço para o autoempreendimento pejotista; as fórmulas de tratamento foram substituídas por novas e divertidas maneiras de estabelecer supostas diferenças de classe, gênero, raça e inteligência. Franco Moretti (2014, p. 24) relembra as supostas virtudes do burguês oitocentista:

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No decurso do século XIX, uma vez superado o estigma contra a “nova riqueza”, acumularam-se alguns atributos recorrentes em torno dessa figura: energia, acima de tudo; comedimento; clareza intelectual; honestidade comercial; um forte senso de metas. Todos “bons” atributos, mas não bons o bastante para se equiparar ao tipo de herói – guerreiro, cavaleiro, conquistador, aventureiro – com o qual a narrativa ocidental contara, literalmente, durante milênios.

Ora, a essa altura dos acontecimentos nesta neocolônia, seria oportuno lembrar, com Marilena Chauí (2018, p. 224) que, no Brasil, a Universidade ainda é majoritariamente percebida como meio ascensional reservado às classes sociais intermediárias: “[…] a maneira de acalmar a pequena burguesia, acalmar a classe média, é lhe oferecendo a chance de ascensão social através da universidade”. Sob essa ótica, a perversão está dada e orienta as práticas sociais no século XXI. (In)justamente, os que tiveram menos oportunidades socioeconômicas e culturais costumam ser percebidos como intrusos a contaminar o virginal e impoluto seio acadêmico – espaço que constitui um dos últimos redutos para distinção de seus muy dignos partícipes.

Isto posto, passemos a um exemplo ilustrativo. Para tanto, peço à(o) leitor(a) que figure a existência de uma mensagem de texto endereçada por um professor a uma secretária – transcorrido dia desses em uma universidade de nível superior –, pautado nestes singelos termos: “Estou em acordo com o documento que enviou, embora o mesmo não traduza, na íntegra, a qualidade das reflexões que o motivaram”.

O que vossa mercê, que é discreto, sensível e instruído, teria a dissertar a esse respeito?

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De minha parte, ocorrem-me quatro questões: 1. O docente não agradece à secretária pelo envio do documento; 2. O professor diz estar “de acordo” com o teor do texto – quando não se trata de aceitar, ou não, a síntese redigida pela funcionária; 3. O sujeito subestima a inteligência de sua colega de trabalho, sugerindo que ela não teria capacidade de alcançar o brilhantismo da reflexão promovida pelos professores, tampouco reproduzir a fala tão distinta (por que “superior”) do docente; 4. O interlocutor, cioso representante da postura macha e grosseira, desconsidera o fato de que está a responder de modo injustificadamente rude a uma mulher.

Convenhamos. É possível que isso tenha acontecido porque o replicante não se comportou de modo pertinente à elevada posição social que supõe ocupar. Recorro a João Adolfo Hansen (2019, p. 99), para distinguir entre discrição e vulgaridade: “[…] no século XVII, é discreto o que não é vulgar. Como vulgar é definido como ‘espírito fraco’ levado pelo gosto confuso que se deixa enganar pelas aparências, discreto é aquele capaz de produzir aparências adequadas a cada ocasião, porque tem o juízo”. Suponho que, no pequeno grande mundo acadêmico, distinção e discrição sejam tomados como termos equivalentes.

Por isso mesmo, e pensando melhor, devo confessar que o título dado a esta pseudocrônica resvala numa contradição de termos: historicamente, membros de corte são incompatíveis com a universidade – instituição histórica e socialmente burguesa, por definição. Nesse sentido, talvez fosse o caso de sugerir aos colegas, especialmente aqueles que se autopromoveram ao irredutível plano do Éter, que passassem a se comportar de modo mais coerente com a área do Ensino, especialmente quando atuarem nos fóruns que, em tese, primam pelas boas-maneiras e a melhor educação.

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Referências 

BURKE, Peter. A Arte da Conversação. 1ª reimp. Trad. Álvaro Luiz Hattnher. São Paulo: Editora Unesp, 1995.

CHAUI, Marilena. “A Universidade está em crise?”. In: _____. Em defesa da educação pública, gratuita e democrática. Belo Horizonte: Autêntica, 2018, pp. 223-229 [Volume organizado por Homero Santiago].

ELIAS, Norbert. A Sociedade de Corte: investigação sobre a sociologia da realeza e da aristocracia de corte. Trad. Pedro Süssekind. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.

GRACIÁN, Baltasar. El héroe/El discreto. Madrid: B. Rodríguez Serra, 1900, p. 100.

HANSEN, João Adolfo. “O Discreto”: In: ____. Agudezas Seiscentistas e Outro Ensaios. São Paulo: Edusp, 2019, pp. 97-122 [Volume organizado por Cilaine Alves Cunha e Mayra Laudanna].

MORETTI, Franco. O burguês: entre a história e a literatura. Trad. Alexandre Morales. São Paulo: Três Estrelas, 2014.

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*Fala de um cliente, ao adentrar um restaurante situado na Barra Funda, bairro da megalópole de São Paulo, Estado de SP, em 9 de outubro de 2019.

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1 comentário

  1. O ser humano é tão sem importância para o universo que ele sente a necessidade de, todas as vezes que possivel, se mostrar acima de seus iguais. Seja pela aparência, seja pelo intelecto. Não conheço lugar menos “corte” que o espaço universitario. Ah, sim, o judiciario! Esse é o outro espaço que mereceria que se colocasse fogo em tudo e fosse recriado.
    O cardapio não é muito extenso 🙂 Na espera de que a comida não tenha sido curta.

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