As mamangavas da República, por Fábio de Oliveira Ribeiro

 

por Fábio de Oliveira Ribeiro

 

Quando tinha cinco anos vi, pela primeira vez, uma mamangava no quintal da casinha em que morávamos em Eldorado SP. O tamanho, cor e agilidade do inseto capturou minha imaginação. Naquele momento deixei de gostar e de perseguir libélulas. Só tinha olhos para as mamangavas.

A minha preferida era a que vivia no buraco que existia num mourão. Quando chegava da escola eu trocava de roupa e ia vigiar o mourão. As vezes a mamangavas chegava e logo entrava na sua residência. Antes disso, porém, conversávamos:

– Boa tarde, dona mamangava. Onde a senhora esteve hoje?
A ausência de resposta me forçava a completar o diálogo pela minha amiga. Quando ela saia voando eu a perseguir até onde conseguia acompanhá-la. Mas as perninhas finas e curtas e a ausência de asas limitavam muito minha caçada. E a mamangava logo sumia no mato.

Então eu voltava para o mourão. Sabia que ela retornaria. As vezes o retorno dela não demorava. Quando cansava de esperar ia brincar com os moleques aos quais eu nunca dizia que tinha uma amiga secreta.

Certa feita meu avô me viu bulindo com o inseto no mourão.

– Deixe disso moleque. Este bicho tem a ferroada muito dolorida. Mais dolorida que ferroada de abelha.

Como já havia levado ferroada de abelha e acreditava no meu avô me tornei inimigo mortal das mamangavas e voltei a gostar de libélulas. Mas o fato de uma perversa e perigosa abelha gigante morar tão perto despertou minha prudência.

Certo dia ao retornar da escola peguei um graveto e meti no buraco do mourão. Pronto, agora a mamangava vai ter que se mudar da minha casa. No dia seguinte ao passar pelo mesmo local vi o inseto entrar no buraco. O graveto estava no chão.

Porcaria. Vou ter que pensar em outra solução. No dia seguinte, antes de entrar em casa ao retornar na escola, fui vigiar o mourão. Quando a mamangava entrou no buraco, meti o graveto nele com ela dentro. Caso resolvido, pensei.

Ledo engano. No outro dia meu terrível inimigo continuava sobrevoando o quintal. Fui conferir se graveto estava no buraco. Quando cheguei ao local a mamangava zumbiu no meu ouvido, pousou no graveto que tampava o buraco e deu a volta no mourão. Só então descobri que do outro lado do mesmo existiam vários buracos. Ela entrou num deles e eu fiquei aterrorizado.

A maldita mamangava sabia que eu era inimigo dela. E eu não tinha ímpeto para tampar todos aqueles buracos, nem força para derrubar a estaca da cerca. Em 2016 a República brasileira se tornou um clone daquele mourão. Sabemos quem são as mamangavas perigosas do PMDB e do PSDB, mas não ousamos destruir o Estado dentro do Estado em que elas se escondem.

 

 

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1 comentário

  1.  
    Delicioso texto Fabio.

     

    Delicioso texto Fabio. Muito bom. Mas confesso ter sentido um pouquinho de desencanto com o desfecho. Embora compreenda que àquela altura, vosmecê já não contava mais com a candura e os saberes que somente até aos 5 ou 6 anos de vida, persistem.

    Já estava gostado da sua amiga mamangava. Tenho pra mim, que não foram as mamangava que atacaram o Brasil Fábio. Desculpe-me pela discordância. Pelos hábitos de vida das mamangava. Que, são insetos voadores dedicados há negociar com as flores, trocando nectar por pólem. numa transação ganha ganha, onde ninguém perde, modelo do  qual os humanos à partir dos 5 anos, não compreendem mais.

    A impressão que tenho Fábio, é de  que os bichos que agrediram o país, de nós brasileiros, são de uma espécie rastejante de vermes, e como tal, não voam. Eles preferem ambientes obescuros, esgotos, fazes etc. Vivem acoitados à sombra de siglas do tipo que você identificou muito bem: PMDB, PSDB, DEM, dentre outras. Na verdade, isso, são disfarces para dificultar, o que os médicos chamam de diagnóstico.  Abraços.

    Orlando

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