Triste João, por Rui Daher

João Gilberto, você foi meu e de tudo o que me fez continuar a amar a música brasileira. De Villa e Guarnieri, do Trio Virgulino a João Bosco, e a Luiz Tatit.

Triste João, por Rui Daher

Primeiro, João Gilberto, aos 88 anos nos deixou. Cê que sabe, baiano de Juazeiro, como é o gênio do futebol Daniel Alves, geminiano de 10 de junho, e mais não digo.

Não seria eu ir à sua biografia. Todos os farão aos borbotões. Telas e folhas e cotidianas cuidarão disso. Da parte analítica, como a de meu mestre Luís Nassif, escreverei ao final do texto.

De minha parte, pouco mais sei ou procurarei saber. João Gilberto, você foi meu e de tudo o que me fez continuar a amar a música brasileira. De Villa e Guarnieri, do Trio Virgulino a João Bosco, e a Luiz Tatit.

Nada melhor na minha finitude, um dia ou dois a mais, o privilégio de continuar ouvindo sua voz, herança.

Você, de mim, nunca soube, aposto. Sei lá, uma gaivota carioca, um pedacinho de papel, ou aquele raspão 25 anos atrás no Santos Dumont (ambos usávamos terno e gravata). Pequena esperança.

Pode ser que logo eu vá, dias depois de você. Who knows? Mas enquanto aqui durar, estarei a cultuá-lo, em históricos vinis, CDs, aplicativos, o diabo que carreguem aqueles que não conhecem a riqueza das músicas e língua brasileiras, em todas as regiões, mesmo que os cariocas nos dominem, através da Globo.

João, na verdade, fomos apresentados em 1958, agosto, meu aniversário de 13 anos. Fernandinho, dentista, filho de um amigo médico, como meu pai, presenteou-me com um vinil 78 rpm.

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De um lado, “Chega de Saudade”, Tom Jobim, “Bim Bom”, seu próprio João, lançado pela Odeon.

Há pesquisadores e estudiosos da MPB que afirmem a Bossa Nova não ter aí nascido. Foda-se o parto. Luís Nassif, Ricardo Cravo Albin, Sérgio Cabral, outros. José Ramos Tinhorão, remonta ao século XVII. Respeito-o, li vários de seus livros, mas … nega-o.

Enquanto escrevo as “mal traçadas”, João canta “Lígia, de Tom.

Aos 74, haveria um guarda-chuva que eu pudesse chamar de Lígia e me apaixonasse sempre que chovesse?

“Eu nunca sonhei com você
Nunca fui ao cinema
Não gosto de samba
Não vou a Ipanema
Não gosto de chuva
Nem gosto de sol
Eu nunca te telefonei
Para que se eu sabia
Eu jamais tentei
E jamais ousaria
As bobagens de amor
Que aprendi com você
Não, Lígia, Lígia

Sair com você de mãos dadas
Na tarde serena
Um chope gelado
Num bar de Ipanema
Andar pela praia até o Leblon
Eu nunca me apaixonei
Eu jamais poderia
Casar com você
Fatalmente eu iria
Sofrer tanta dor
Pra no fim te perder
Lígia, Lígia.

Você se aproxima de mim
Com esses modos estranhos
E eu digo que sim
Mas seus olhos castanhos
Me metem mais medo
Que um raio de sol
Lígia, Lígia.

Eu nunca sonhei com você
Nunca fui ao cinema
Não gosto de samba
Não vou a Ipanema
Não gosto de chuva
Nem gosto de sol
E quando eu lhe telefonei
Desliguei, foi engano
O seu nome eu não sei
Esqueci no piano
As bobagens de amor
Que eu iria dizer
Não, Ligia, Ligia

Pois bem, vamos a Nassif, em seu excelente texto sobre João Gilberto, em que, ao mesmo tempo, louva e critica Ruy Castro. Muitas razões, ali. Discute os primórdios da bossa-nova de João Gilberto. Muitos já o fizeram, inclusive o mestre Tinhorão. Não sei quem correto. Apenas o excepcional bandolinista, jornalista e escritor ou o meu xará com Y. Sei menos do que eles, mas besta arretado não sou. Só me falta a fama, pois agrário sou.

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Estranho. Ao mesmo tempo em que Luís ataca Ruy Castro e o contradiz forte, louva-o. Em seu texto “João foi a síntese que definiu a linha evolutiva da MPB”. Até aí, impossível discordar, mas …

“João Gilberto não gostava do enquadramento da sua música na bossa-nova. E tinha razão. A ideia de um movimento despregado da música brasileira, que nasceu do nada e tirou a música brasileira do atraso, foi uma jogada de marketing de Ronaldo Bôscoli, o propagandista maior do movimento. E teve como receptador um jornalista, belo repórter, mas com parco conhecimento de música, Ruy Castro”.

Erras, Luís. Não vejo ninguém de bons miolos nesse “despregar”. Pode até me vetar no GGN, lá ninguém o contradiz, unanimidade total, mando em nada, mas assim sempre fui. Conhece as conversas entre Ruy Castro e Ivan Lessa sobre jazz e música brasileira? Serviriam a você músico e jornalista. Lúcio Alves, Dick Farney, Roberto Silva, Mário Reis, Dick Haymes, et alia.

Caro Luís, perfeito: “João foi a síntese que definiu a linha evolutiva da MPB”, mas não creio que “teve como receptador um jornalista, belo repórter, mas com parco conhecimento de música, Rui Castro, em um livro precioso, como pesquisa, mas submetida a uma interpretação rasa e ilusória”.

 

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