Entrevistas selecionadas Clube dos Garotos – 1, por Rui Daher

(patrocínio Estampas Eucalol)

por Rui Daher

Desde meados de maio, após publicar matéria exclusiva relatando que a NASA preparava nave que levaria ao inferno para treinamento um ministro do STF e um juiz de 1ª instância paranaense, a redação do Blog do Rui Daher, hospedada na edícula deste GGN, permaneceu lacrada, permitida somente a temas interinos. Nem mesmo divulgamos que a agência norte-americana abortou o projeto. O Cão se recusou a receber nossos representantes, disposto a aliviar a barra da humanidade, ruim até para suas intenções.

Na época, Pestana, que junto a Nestor forma a minha equipe de repórteres, alertou de que eu poderia ser preso na etapa 108’npg da Lava Jato. Assim mesmo publiquei a matéria.

A primeira ligação veio de uma voz grave. Parecia emitida por lábios grossos: “Intimação enviada. Se não parar, segue calibre 38”. A segunda revelava voz e lábios finos de bons comerciantes: “Virás coercitivamente”.

Claro que não pensei em Angelina Jolie e Gwyneth Paltrow convidando-me a entrevistá-las no Oak Bar, do Plaza Nova York. Dei férias não remuneradas aos Nestor e Pestana, com direito a dois almoços (bebidas alcoólicas não incluídas) num restaurante a quilo perto da Redação. Mencionaram algo como Justiça do Trabalho. Não dei bola. Defensor do ócio, não vejo justiça em tabalhar.

Golpe dado, mil teorias sobre causas e efeitos nas folhas, telas e redes sociais cotidianas, reabri a Redação. Como quem tem a nádega esquerda mais saliente tem medo, decidi pegar mais leve. A partir desta semana, o blog se dedicará a publicar possíveis entrevistas com os prováveis candidatos à incerta prefeitura de São Paulo.

Para iniciar a série convidamos João Doria Júnior, pré-candidato pelo PSDB. Depois de 40 dias, nos chegou missiva em papel gramatura 300 e lacre personalizado, com a resposta.

A entrevista foi realizada ontem, às 17 horas, em luxuoso clube de golfe da cidade, com serviço de chá completo. No convite fôramos alertados para comparecer em traje passeio completo ou característico do esporte. Após pesquisar fotos de Armínio “Liberal Boy” Fraga jogando golfe, decidi ir à caráter. Convenci Nestor e Pestana a usarem uniformes de caddies. Só não aceitaram carregar os tacos, depois saberem não se tratar de comida mexicana.

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Quando chegamos o Dr. João já nos esperava na biblioteca do clube, cadeira de espaldar alto, almofada de veludo grená, a mão apoiada num taco de golfe com grip dourado (seria ouro?).

– Dr. João, pela minha idade, permite-me tratá-lo menos formalmente.

– Claro, Comandatuba.

Não entendi bem a mudança de meu nome, mas continuei:

– Obrigado, João. Como empresário de sucesso, escritor, jornalista, professor universitário, político filiado ao PSDB, o que o fez desejar administrar a cidade de São Paulo?

– Comandatuba.

Dei um tempo até que ele continuasse a frase. Nada.

– Rui, você não vai fazer a pergunta?

Meu nome ele sabia, por que então Comandatuba?

– João, a pergunta fiz, talvez não tenha entendido a sua resposta.

– Você não prestou atenção. Pensei-o mais esperto. Comandatuba é uma ilha na Bahia, um resort paradisíaco, onde promovo eventos que reúnem o Brasil inteiro.

Pensei descontrair o ambiente:

Ha, ha, ha, João, o Brasil inteiro é um pouco de exagero, não?

O não veio de forma quase ríspida:

– E quem mais? Conhece o LIDE, grupo com os mais importantes empresários do país? Quase duas mil companhias nacionais e estrangeiras associadas, 60% do PIB brasileiro. Somente não ponho lá o PIB total porque o local não comporta e evito as estatais. Prefeitos, governadores, ministros, juízes, até presidentes da República lá estiveram. Que outro Brasil você conhece?

– Voltemos aos motivos da sua candidatura.

– São Paulo precisa de um homem que faça voltarem requintes de luxo, bom gosto, tradição. Que recupere o progresso. Veja hoje. Uma cidade que não podia parar e agora vive travada por faixas exclusivas de ônibus, ciclovias, tendas armadas para mendigos, avenidas, ruas e viadutos tradicionais entregues a farofeiros dominicais. Quem compra uma Ferrari para andar a 50 km/h? Regredimos, chegaremos a um pobre Piauí.

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Alfinetei:

– João, cuidado, alguém já fez comparação assim e não se deu bem.

– Está vendo como são vocês da imprensa. Falei no sentido figurado, se bem que algumas figuras que nascem lá … Ha, ha, ha. Você sabe.

– O senhor já formulou um plano gestor para a cidade?

– Claro. Temos discutido muito isso dentro do partido. Novas opções, vários horizontes. Somos um partido de intelectuais, perfil liberal, contatos com os principais think tanks dos EUA.

– Poderia citar algumas medidas de curto prazo?

– Tudo se dará em três abordagens, cada uma com três etapas sequenciais, grupos de pensamento e ação definidos entre os quadros do partido e os demais que a nós vierem se unir. Sempre os melhores!

– Quais as três abordagens?

– Infelizmente, não posso dizer. Estaria antecipando o meu programa. Dou-lhes uma pista. A mais importante será conduzida pelo presidente Fernando Henrique Cardoso.

– Imaginei. Ex-presidente, se meteu Nestor.

– Não, eterno presidente. Doria continuou:

– Tudo passa por entronizar o sucesso na cabeça da população. Como fizemos eu e Roberto Justus, talvez, futuro secretário da Cultura, com aprendizes que viraram grandes empresários e profissionais. Tenho um arcabouço de leitura para ser distribuído nos bairros mais pobres da cidade, nas periferias.

– Pode nos citar algumas dessas publicações?

– Sim. Muito adequada a sua pergunta. Todas são editadas por mim: ArenaCaviarFórum &NegóciosMeeting & Negócios, Mulheres LíderesLíderes do BrasilMarketing EmpresarialSaúde e Bem-EstarTrancoso, tantas outras.

– Ótimo.

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– Quer mais uma dica? Anualmente, no inverno, promovo eventos em Campos do Jordão. Farei o mesmo no Pico do Jaraguá. Um festival com temática monárquica. Bailes de máscaras, carruagens, minuetos. Não foi à toa que a excelente revista Isto É me elegeu quatro vezes consecutivas uma das 100 pessoas mais influentes do Brasil e do mundo.

Pestana e Nestor me olharam de forma estranha. O chá foi servido num pequeno salão ao lado da biblioteca. Bate-papo bem descontraído, sempre perigoso quando presente a dupla de repórteres do blog.

Nestor, que sempre dorme quando peço se debruçar sobre algum assunto, passara dormindo em boa parte da entrevista:

– Senhor candidato Chiquinho …

– Como Chiquinho?

– Ué, Chiquinho Scarpa. O senhor não é aquele ricaço que iria enterrar um Bentley Continental de um milhão e meio de reais no jardim de sua mansão?

– Como você, imbecil, pode me confundir com aquele playboy, falso conde, velho plastificado?

– Não me tome a mal. Achei até legal. Era uma campanha para doação de órgãos.

– Mentira! Coisa nenhuma! Queria publicidade. Um quebrado. E você, seu reporterzinho de quinta categoria, deve ser um pobretão que mora numa quitinete da rua Paim, é incapaz de distinguir um empresário famoso de um janota babaca.  

– Ah, é assim? Quer saber, seu engomadinho? Bentley não tenho, mas tenho aqui um belo órgão para doar ao seu traseiro.

Uma bola de golfe voaria 10 quilômetros tal a força que o taco acertou a testa do Nestor.

Não o demitirei. O arruaceiro poderá me acionar por acidente de trabalho.  

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6 comentários

  1. É ventos

    “Anualmente, no inverno, promovo eventos em Campos do Jordão”. O mais hilário do João Lide é o desfile anual de cachorros de madame em Campos do Jordão. Imprescindível. Nem sei o que seria de nossa pátria amada salve salve sem este impoluto acontecimento.

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