Vírus & Verme, Parte 1, por Rui Daher

Afinal, no mundo que virá pós-pandemia, tudo será aproveitado, o consumo menos conspícuo, o ambiente da Avenida Doutor Arnaldo, em São Paulo, mais preservado.

Vírus & Verme, Parte 1, por Rui Daher

Escolho a Redação do BRD para a próxima semana de isolamento funeral. Proibi as visitas de Nestor, Pestana, e dispensei a proteção de Everaldo, o segurança. Tô buscando confronto físico com a clã, apesar do combatente Juncal, estar treinando lutas marciais, sem saber que março já passou.

Para as cortinas, ainda não substituídas, coloquei nas janelas lonas plásticas pretas, que poderão, inclusive, embalar um corpo velho e inerme até o túmulo da família Daher, no Araçá.

Afinal, no mundo que virá pós-pandemia, tudo será aproveitado, o consumo menos conspícuo, o ambiente da Avenida Doutor Arnaldo, em São Paulo, mais preservado.

Muitos escrevem que a solidariedade crescerá, a divisão de riquezas será mais equânime, menos cenas de beijos e sexo nas telas mundiais, bikes substituirão SUVs, ricos serão educados com manobristas, e não elegeremos governos autocráticos e acéfalos.

Pensando em tudo isso, som bem baixo, escolho ouvir o álbum “Fatal”, de Gal Costa, para o presente falido e o futuro feliz.

Pouca coisa a beber. Apenas uma cidra que Pestana ganhou no Natal, de sua tia Elvira, moradora de Santa Cruz das Palmeiras (SP), que ele esquecera sob uma antiga vitrola, onde ouve vinis de Carlos Galhardo.

Surrupio-a. Um dia explico e ele entenderá. Plop! O estampido me anima. Poderei, sozinho, recolher-me às reflexões sobre esse idílico futuro pós-pandêmico.

Sabia que do celeste “Dominó de Botequim” ninguém desceria. Alfredinho e os membros estavam em boemia com a chegada de Aldir Blanc. E como demora eles me levarem para lá. Tão amigos, mas parecem querer aqui me deixarem sofrendo de vírus e verme.

Leia também:  O segundo episódio do livro Antifascistas, por Urariano Mota

“Nunca mais seremos os mesmos”. Torço. Já pensaram eu alto, loiro, olhos azuis, ternos bem cortados, abstêmio, escritor de sucesso? O quê? Esqueci o fator riqueza? Não. Preferiria as vicissitudes de lutar por dinheiro, pois sei que meu exterior poderia ser o pós-pandêmico, mas a alma continuaria nobre e o “amor eterno enquanto dure”.

Garrafa de cidra na metade, toca o celular. Não, tudo menos isso. Quem poderia ser? O leitor digital indica Nestor, BRD.

Cacete, terei que atender. Provavelmente, terá desrespeitado o rodízio de automóveis, confuso entre o que são par e ímpar. Ou, novamente, arrombado as portas de um boteco no Bexiga, provocado uma batucada na Vai-Vai, com a Covid-19 roubado um escafandro, pensando aquilo ser um respirador?

– Fala Nestor! Tudo bem? Nenhum perrengue?

– Não, chefe, tudo 12 por 8.

– Então, a ligação por quê? Saudade?

– Também, mas um furo para nosso BRD.

– Coisa boa, ou bobagens como Dr. Ray na Saúde, Mourão namorando Damares, milicianos na Defesa?

– Apesar de factíveis, nada disso. Podemos nos encontrar amanhã na Redação, por volta das onze horas da manhã? Convoque o Pestana e o Everaldo.

– Tudo bem, mas não esqueçam das máscaras.

– Certo, já acertamos alugá-las do Mandrake e do Fantasma. Só não aceitamos a do Batman, por causa dos chifres. Sabe, poderia pegar mal lá na Vai-Vai.

– Combinado.

https://www.youtube.com/watch?v=6Y1k9XwDJyo

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Assine agora