O arquiteto da Biblioteca Mindlin

Um dos aspectos mais bonitos da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin é seu projeto arquitetônico. Um de seus autores, Eduardo de Almeida, é uma dos mais importantes arquitetos brasileiros, embora pouquíssimo conhecido fora do ambiente universitário.

Segue entrevista contando um pouco de sua impressionante história de vida.

 

http://www.arcoweb.com.br/entrevista/eduardo-almeida-29-07-2011.html

Eduardo de Almeida

Indiferente aos dogmas do modernismo e da escola paulista, o arquiteto fala sobre seus quase 50 anos de atividade profissional

Indiferente aos dogmas do modernismo e da influente escola paulista, Eduardo de Almeida seguiu caminho próprio. Formado em 1960 pela FAU/ USP, em quase 50 anos de atividades projetou escolas públicas, indústrias, hospitais e edifícios. A maioria de sua obra, no entanto, concentra-se nas residências – algumas delas antológicas -, não por opção, mas “por ter sido escolhido”.

 

O senhor foi um dos poucos arquitetos de sua geração que não se sensibilizou pelo dogmatismo do movimento moderno e da escola paulista, que predominava em São Paulo nos anos 1970. Como explica essa postura?

A FAU funcionava no magnífico palacete art nouveau da rua Maranhão; existia um convívio muito rico com os colegas, a escola Mackenzie também estava ao lado, e havia muita polêmica entre os wrightianos e os corbusianos. Fiquei estigmatizado como seguidor de Wright até hoje.

Conheci ainda muito jovem a história da arquitetura brasileira: fui levado a Ouro Preto por um tio e ficamos na casa de Rodrigo Melo Franco, aprendi muito sobre mobiliário etc. Meu pai, Tácito de Almeida [irmão do poeta Guilherme de Almeida], foi um dos organizadores da Semana Moderna de 1922 e da revista Klaxon; minha mãe era pianista. A referência da família na minha formação foi mais forte do que qualquer outra coisa.

Então o caminho para a arquitetura veio da convivência familiar?

Fui depositário daquilo que meu pai representou, da sua convivência com Oswald de Andrade, Mário de Andrade e todo aquele grupo, e isso acabou até se tornando um fardo para mim. Meu pai morreu muito cedo. Depois, me tornei amigo de Júlio Katinsky e Abrahão Sanovicz, apesar de algumas brigas saudáveis; éramos muito atentos a tudo que estava acontecendo na arquitetura.

Embora wrightiano, também estava ligado afetivamente à escola paulista. Admirava Vilanova Artigas, tinha muito medo dele… No início dos anos 1980, quando ele voltou à FAU [Artigas foi afastado em 1969 pela ditadura militar e retornou à universidade somente em 1979], mantivemos um convívio maravilhoso, ele era brilhante. Mas eu sempre me questionava em relação à arquitetura paulista. Havia uma ideologia atrás disso, e eu fui meio de esquerda, mas era mais moderado.

Na FAU, a convivência entre colegas era rica e com eles sempre aprendi muito, particularmente com Ludovico Martino, que já nessa época demonstrava sua sensibilidade e competência. Abrimos juntos em 1958 um escritório, o Horizonte Arquitetura, também com Arthur Fajardo Netto, Dácio Ottoni e Henrique Pait. Admirávamos o grupo da loja Branco & Preto, com Miguel Forte, Jacob Ruchti e Carlos Millan. Cheguei a trabalhar um pouco com Ruchti. Millan mais tarde abriu outros caminhos com uma visão mais completa do projeto e da sua relação com a clareza construtiva.

Por que o senhor não se interessou em trabalhar com a Branco & Preto, pioneira em móveis modernos de qualidade, já que havia estudado design em Florença?

A Branco & Preto existia desde os anos 1950 e era muito sofisticada, havia pouco mobiliário moderno brasileiro, apenas aqueles do tipo perna palito. Quando obtive bolsa de estudo para cursar design e história da arte em Florença, logo depois de me graduar, em 1962, o desenho industrial era uma disciplina optativa do curso de arquitetura. A escola era junto à Academia de Belas-Artes, onde estão as obras originais de Michelangelo, e os professores eram notáveis.

[Leonardo] Benevolo dava aula de história da arquitetura pelas ruas de Florença. Discutia-se urbanismo como nunca se fez no Brasil, e a visão da cidade era muito rica. Brasília havia sido inaugurada e, junto com o projeto de Kenzo Tange para a baía de Tóquio, era tema dos trabalhos. O curso me deu uma visão de como entender o projeto urbanisticamente. Voltei com novas informações e, chegando aqui, fui convidado para dar aulas na FAU.

Também se associou a Arnaldo Martino?

Sim, tivemos escritório juntos de 1977 a 1986. Arnaldo era mais ousado: graças a ele, empregamos estruturas metálicas nos projetos. Após o fim da sociedade – mas não da amizade -, me instalei no escritório que construí na Vila Olímpia.

Em que ano o senhor começou a lecionar na FAU?

Em 1967, ainda na rua Maranhão, na disciplina desenho industrial. Em 1972, eu me transferi para as disciplinas de projeto de edificações. Mais tarde, durante cerca de 25 anos dei aulas na pós-graduação, fui orientador de mais de 20 trabalhos de mestrado e doutorado. Foi uma experiência muito importante, pela troca de informações e porque eu era bastante dispersivo e comecei a sistematizar o conhecimento. Quando fiz o meu doutorado, tive que organizá-lo ainda mais. Recomendo aos jovens arquitetos que dediquem um pouco de seu tempo ao ensino, para uma maior consistência na formação. Estou aposentado desde 2000; atualmente só tenho dado palestras, em São Carlos, na Escola da Cidade e na própria FAU.

Ao contrário de Artigas, o senhor procura projetar uma arquitetura mais cordial, embora empregue os mesmos elementos, como brises, rampas, meios níveis, passeios contínuos. Elabora as plantas e a partir de então vai criando os eixos, as setorizações dos ambientes, a integração deles; também emprega vidros sem molduras, fixados em discretos perfis, detalhes imperceptíveis. Em linhas gerais, como é o seu projetar?

Sempre fiz a arquitetura que me parece mais razoável, e aquela que consigo às vezes nem é a que eu quero. Procuro ir o mais longe possível. Arquitetura é, fundamentalmente, organização do espaço, que tem tudo a ver com a questão programática. Mas não deixei de sentir os toques da convivência com Artigas e também utilizei concreto. Carlos Millan até hoje é uma referência muito forte para mim; visitei todas as casas que ele projetou e considero sua obra exemplar. Sempre dizia aos meus alunos que estudassem os projetos dele para saber como se faz arquitetura.

Sempre fiz a arquitetura que me parece mais razoável, e aquela que consigo às vezes nem é a que eu quero. Procuro ir o mais longe possível. Arquitetura é organização do espaço, que tem tudo a ver com a questão programática.

Mies van der Rohe foi seu inspirador? O conceito Baunkunst [arte de construir], perseguido por ele, permanece? “Deus está nos detalhes”, segundo Mies; para o senhor, o melhor detalhe é aquele que não se vê.

Mies sempre foi referência, estudo os detalhes dele com paixão. O detalhe é a arquitetura. Tenho uma identificação proposital com o trabalho dele, mas não sou um seguidor. Existe uma proximidade com determinados temas, como a relação da arquitetura com a construção – a construção é arquitetura ou a arquitetura é construção? Até a referência a Niemeyer é indiscutível.

Como foi sua convivência com Sérgio Bernardes, com quem trabalhou por dois anos em São Paulo?

Fui chamado por Ennes Silveira Netto, que trabalhava com Sérgio Bernardes no Rio de Janeiro, para organizar e acompanhar os projetos dele no escritório aqui em São Paulo, o Horizonte Arquitetura, já que ele estava muito ocupado. Sob certos aspectos, foi interessante esse convívio. Sérgio me ensinou a questão da construção, do uso de materiais que não se empregavam tanto – como a madeira e o metal – e os detalhes. Ele era brilhante, provocador, uma pessoa não tão fácil de se conviver – era meio confuso -, mas aprendi muito com ele. Eu tinha acabado de voltar da Itália e esse período foi rico para mim. A gente sofre influências todos os dias, como a forma de projetar, por exemplo, os sistemas construtivos… até uma certa racionalidade na organização dos espaços.

Arquitetura no Brasil não é assunto para a mídia, não acham importante. A cidade de São Paulo é projetada pelo mercado imobiliário e a obra arquitetônica de qualidade acabou sendo uma exceção. A crítica, aqui, não faz parte do contexto.

O senhor foi um dos primeiros arquitetos brasileiros a empregar estrutura metálica em residências, uma ousadia na época. Por que o aço, quando o concreto predominava?

Utilizei estrutura de aço pela primeira vez por volta de 1963, na casa que projetei para meu irmão. Na realidade era uma estrutura híbrida de aço nos pilares, concreto nas lajes e mista nas vigas. Em 1980 projetei, juntamente com Arnaldo Martino, meu sócio na época, a primeira casa com estrutura totalmente em aço, com pisos de madeira, alvenaria aparente. Acreditávamos ser a solução mais lógica para o terreno de forte declive, no bairro do Pacaembu, porque não precisávamos utilizar escoramentos e processos mais complicados.

A estrutura metálica era de uso mais rápido e mais fácil, embora o concreto fosse mais maleável.Projetei inúmeras casas com ela, embora a racionalização dos meios de produção seja um processo lento e difícil. Projetei também as residências de meus filhos: Maria Isabela, também arquiteta; Tácito, engenheiro eletrônico e empresário; Fernando, engenheiro mecânico e arquiteto naval; Nina, que é estilista e mora em Oslo; e Lalo, fotógrafo.

Muitas de suas casas são premiadas, como a residência na Cidade Jardim, de 1976. Em outras, também exemplares, o senhor projetou desde alvenaria estrutural de blocos de concreto até pilotis também de concreto, mas predominando sempre estruturas moduladas em aço. Quais são as obras mais recentes?

Projetei muitas residências porque me escolheram. Também fiz um pavilhão anexo a uma casa no Alto de Pinheiros, em 2003, com vigas em arco que se ligam aos apoios por meio de barras rígidas; um ano depois, a de meu filho Lalo, no Butantã, também em estrutura modulada em aço. Mais recentemente, fiz a sede da multinacional SAP Labs Brazil, com o arquiteto César Shundi Iwamizu, no Rio Grande do Sul, no campus da Unisinos, para maior aproximação da empresa com o ensino. A primeira parte já obra já está pronta. Inicialmente estava previsto o uso de estrutura metálica; posteriormente foi solicitado o emprego do concreto armado, mais convencional. Estão em construção no campus da Universidade de São Paulo as bibliotecas que constituirão a Brasiliana USP, projetadas em coautoria com o arquiteto Rodrigo Mindlin Loeb.

A sede da SAP Labs Brazil é muito bonita. O excesso de luz solar foi controlado com brises de que material?

Os brises das fachadas orientadas para o norte e para o sul são em tela de aço de malha expandida. Sobre a laje de cobertura projetamos um brise‑soleil horizontal em lâminas de alumínio.

O que diria sobre a crítica brasileira de arquitetura?

Arquitetura no Brasil não é assunto para a mídia, não acham importante, é excluída. O que a mídia faz é seguir a moda. Nos outros países se discute mais. A cidade de São Paulo é projetada pelo mercado imobiliário e a obra arquitetônica de qualidade acabou sendo uma exceção. A crítica, aqui, não faz parte do contexto, como no Chile ou na Argentina, onde ela é levada a sério – isso para citar apenas a América Latina. O que se constrói hoje na Itália, França, Espanha, Portugal é de uma riqueza enorme, tem muito significado para a cultura do país. No Brasil, a arquitetura é feita a duras penas e a crítica é consequência disso. Tivemos aqui um crítico excelente, Luiz Carlos Daher, que morreu muito cedo. Atualmente, temos um jovem, Guilherme Wisnik, extraordinário, culto e de uma agudez muito grande.

Que arquitetos mereceriam uma citação?

Renzo Piano. E Paulo Mendes da Rocha. Paulo é um sábio, uma referência. Tem escritório na Vila Buarque, no edifício do IAB, onde se reúnem os arquitetos, e há uma escola de arquitetura ao lado. Entre os jovens há excelentes arquitetos, como os dos escritórios Una [Cristiane Muniz, Fábio Valentim, Fernanda Barbara e Fernando Viégas) e MMBB [Fernando de Mello Franco, Marta Moreira e Milton Braga], e Angelo Bucci, que adoro.

Filhote de Paulo Mendes…

E meu também. Tivemos um contato maior, gosto muito dele. Não sei como esses jovens conseguem, hoje, fazer uma arquitetura de tanta qualidade; em qualquer país do mundo teriam grande sucesso.

Por Haifa Yazigi Sabbag

Publicada originalmente em PROJETODESIGN

Edição 376 Junho de 2011

 
 

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