A gentileza de seu Oscar

Recebo e-mail de Marcos Ritel Franco.

“Caro Luís Nassif,

Comecei a ler “Gustavino e o Culto da Gentileza” (clique aqui) e fiz uma viagem pelo tempo, por volta dos anos 70. Lembrei-me que, um dia, um menino de 13 anos entrou em uma farmácia, na rua Assis Figueiredo,deparou-se com um senhor e lhe pediu trabalho. Talvez o senhor nem estivesse precisando, viu no menino, entretanto, uma necessidade tamanha que não conseguiu dizer-lhe não. Após contrata-lo, percebeu logo que este não realizava suas refeições no horário de almoço. A partir daquele momento até a venda da farmácia, na hora do almoço, dirigiam-se os dois para sua casa, ele, com o jornal embaixo do braço, e o menino, com as baguetes na mão. O menino passou a partilhar a mesa com a sua família, sem que houvesse, contudo, diferença alguma.

Não sei o porquê, mas ele sabia que, com o seu gesto, ele estava tirando um menino das ruas e dando a ele o sentido de família. O menino cresceu, virou industrial, fazendeiro e construtor, mas permaneceu, sempre em sua memória, o gesto de bondade daquele homem. Fica uma grande vontade de dar-lhe um forte abraço e dizer-lhe obrigado, meu grande amigo, Oscar Nassif”.

O e-mail me pegou meio de guarda baixa. Há tempos não me debruçava sobre as lembranças antigas, andava meio afastado do seu Oscar, que se foi em 1988.

Não cheguei a conhecer o Marcos. Em 1966 saí de casa para estudar em São João da Boa Vista, dali em 1970 para São Paulo. A farmácia foi vendida apenas em 1974.

O distanciamento de meu pai, forjado na minha adolescência, persistiu pelo resto da vida. Quando chegou em São Paulo, depois de ter perdido tudo em Poços, fiquei ao seu lado, antes e depois do derrame que o vitimou. Mas nunca houve a derradeira conversa, nunca soube muito mais do que minhas tias, suas irmãs me contavam, ou minha mãe deixava escapar.

Sabia que era generoso. Soube mais depois, quando me contaram que na esquina da Rua Rio de Janeiro com a Assis Figueiredo havia uma disputa para saber, entre ele e o velho Zé Prézia, quem era o mais generoso. Ninguém saía sem remédio da farmácia, mesmo não tendo dinheiro.

Minha mãe comentava às vezes sobre sua generosidade, mas com uma admiração contida, fruto de uma mal-disfarçada disputa que acomete casais nos quais as duas partes têm temperamento forte.

Comecei a recuperar a memória do seu Oscar depois da sua morte. Foi o Ari Bolão, amigo de infância do Mauro Ramos de Oliveira – o grande capitão da Copa de 62, também amigo do velho – quem me contou que meu pai o viu jogando bola menino ainda, pés descalços, trouxe-o para a farmácia como ajudante. Depois financiou todos seus estudos até a Universidade.

Anos depois, no Pálace Hotel o porteiro do balneário me contou que certa vez parou na frente da farmácia, e ficou vendo os brinquedos expostos na vitrine. Meu pai o chamou, perguntou se queria algum. Era véspera de Natal. Ele respondeu que queria dar de presente aos filhos, mas estava sem dinheiro. Seu Oscar respondeu que presente de Natal era mais importante que remédio. Mandou-o escolher os presentes e que pagasse quando pudesse.

Há uns dez anos, recebi um telefonema de um pipoqueiro que tinha ponto em frente o cine Gazeta. Me contou que mudou-se menino para Poços. Tinha um problema motor que o impedia de falar. Era início dos anos 70, meu pai já envolvido pela crise financeira que o vitimaria. Pois pegou o menino com seu carro, trouxe até a Beneficência, em São Paulo, pagou o tratamento e, depois que o menino melhorou, comprou para ele um carrinho de pipoca.

São incontáveis as histórias. E ele não contava para ninguém, sequer para os filhos. Ao mesmo tempo, tinha total incapacidade de lutar por seus direitos. Ficava esperando gratidão, reconhecimento das pessoas.

Hoje fico pensando em quantas pessoas, a exemplo do Marcos, ele conseguiu encaminhar apenas à custa de uma gentileza, de uma atenção ou, como no caso do Ari Bolão, de ajuda sistemática até a Universidade. E fico mais convencido que nunca da força irresistível da gentileza como agente transformador de pessoas.

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