Agricultura, cidades e eletricidade, um triângulo nada amoroso, por Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva

A declaração do presidente, de que vai faltar comida no ano que vem, está mais próxima de previsão do que se imagina. Existe uma competição por ela que nem mesmo os maiores interessados percebem.

Agricultura, cidades e eletricidade, um triângulo nada amoroso

por Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva

Vale a máxima de que alguém só se torna economista quando entende o país em que vive como um todo. Se não tiver conhecimentos mínimos de ecologia, energia, logística, agricultura e mineração, além do que aprende na escola, será formado em Economia mas não será um economista. Não cabe dizer “… não é minha praia”. Tudo é praia para o economista. O drama da água é um excelente exemplo disso.

A declaração do presidente, de que vai faltar comida no ano que vem, está mais próxima de previsão do que se imagina. Existe uma competição por ela que nem mesmo os maiores interessados percebem.

Na medida em que a população brasileira urbanizou-se, perdeu totalmente o contato com o campo e até acredita que agro seja pop. Antes de começar a explicar o problema, é preciso entender os sistemas de irrigação, que transformaram regiões semidesérticas em verdadeiros oásis, como Israel. Nossos índios usavam irrigação, enterrando potes de barro ao lado das raízes das plantas e os enchiam d’água. O líquido escoava pela porosidade do barro suprindo as plantas na medida da sua necessidade. Hoje, encontramos três famílias de irrigação, por gotejo, que usa tubos flexíveis e bicos porosos para fazer o mesmo que os tais potes dos índios, porém, de forma contínua. Ele pode ser superficial ou subterrâneo, sempre visando à menor perda por evaporação. A segunda família  é a dos sistemas por aspersão, em que a água é pulverizada sobre a plantação, mantendo a humidade necessária para máxima produção. Ela se divide entre sistemas autopropelidos e de pivôs centrais, que são o método mais comum no Brasil e é sobre ele que falaremos aqui.

Um pivô central é parecido com os sistemas de irrigação de jardim, que ficam girando e espargindo água a derredor. Podem ser gigantescos, atingindo mais de 100 ha[1]. Normalmente, são de 54 ha, com o braço de 500 m de comprimento. A cada espaço, para sustentar o tubo horizontal e seguir o relevo do solo, há uma torre com entre duas e quatro rodas  com pneus de baixa pressão para não compactar o solo. Ainda para seguir o relevo, a haste horizontal é articulada e são os pneus dotados motores elétricos que fazem com que o pivô faça seu movimento circular, aspergindo água como um chuveiro sobre a plantação. O consumo d’água é significativo, por causa disso, a irrigação é feita à noite para evitar evaporação pela incidência solar.

A instalação de um pivô é cara, pois requer bombas de captação, escavação de piscinas-pulmão e muita eletricidade. Um pivô de 54 ha usa bombas de até 300 HP[2], ou 210 kW[3] e cada um de seus vinte e quatro motores consome 10 kW, somando até 490 kW a cada hora. A vazão é de 100 m³/s[4].

Uma implantação dessas custa US$ 5.000,00/ha, enquanto o custo de operação chega a US$ 500,00/ha. Ela só se justifica para produtos de alto valor agregado como frutas e legumes, cujo teor de água chega a 86% do peso, como são os casos das cenouras, alho, cebola, tomates e batatas. Já os grãos, se irrigados, que giram entre 8% e 12% de umidade são bem menos rentáveis, pois o emprego relativo da instalação é tão maior quanto menor for a percentagem de água retida. Por causa disso, as commodities raramente são irrigadas, enquanto os alimentos, que vão para nossa mesa, geralmente o são. Sem irrigar, a produtividade cai até 70%. A cenoura, por exemplo, cai de 44 T/ha para 17,6 T/ha. Há culturas que sequer produzem sem a irrigação artificial, como é o caso do alho.

Para que se tenha uma ideia da relevância do consumo d’água na lavoura industrial de alimentos frescos, entre os rios Paranaíba e Grande, formadores  do Rio Paraná, fica a Serra da Canastra, onde nasce o S. Francisco. Ali, existem mil e quinhentos pivôs que consomem o equivalente à vazão do Rio das Velhas, que abastece a Grande Belo Horizonte. Naturalmente, o Velho Chico se recente disso. Ao longo de sua bacia, os projetos de irrigação multiplicam-se tirando cada vez mais água desse manancial. Não foi à toa que, em 2017, em rio Claro BA, houve sabotagem dos sistemas de irrigação. Afinal, eles provocavam torneiras secas e falta de energia na região urbana.

Se o exemplo acima for espalhado por todo o território nacional, o desvio d’água da Natureza para a irrigação de produção industrializada de alimentos torna-se algo assustador, até desesperador. Em São Paulo, usa-se irrigação desde a nascente do Tietê, especialmente, na região de Mogi das Cruzes e Salesópolis O problema torna-se ainda mais grave depois de considerar que é a mesma água que enche as represas que abastecem as hidrelétricas que, por sua vez, põem os pivôs a funcionar. Resumindo, trata-se de um modelo suicida. Quanto mais se irriga, menos água sobra para produzir energia; quanto mais pivôs, de mais energia se necessita, criando um ciclo mais que vicioso, mortal. Mortal porque as granjas de ovos precisam dela para regular o calor e virar os ovos, além de as galinhas precisarem do mínimo conforto térmico. Sem eletricidade para ventilação, os pintos vão morrer e faltará proteína na mesa do povo. O mesmo se pode dizer das granjas de suínos, das leiterias que não vão poder resfriar o produto na origem, condenando-o a azedar. Até mesmo a indústria do frio se vai ressentir.

Pela primeira vez, o presidente não mentiu, previu, só que não anunciou qualquer medida para mitigar desastre tão iminente.


[1] Hectare, medida equivalente a 10.000 m²

[2] “horse power” potência necessária para elevar 1 kg a 1,75 m em 1 s, aproximadamente.

[3] Quilo Eat, aproximadamente 1,4 HP, unidade de medida muito usada em eletricidade, obtida multiplicando-se a corrente pela tensão.

[4] “Metros cúbicos por segundo”, capaz de encher uma piscina de 10 m x 10 m x 1 m em um segundo.

Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou mestrado na PUC-SP, é pós-graduado em Economia Internacional pela Columbia University (NY) e doutor em História Econômica pela USP. No terceiro setor, sendo o mais antigo usuário vivo de cão-guia, foi o autor da primeira lei de livre acesso do Brasil (lei municipal de São Paulo 12492/1997), tem grande protagonismo na defesa dos direitos da pessoa com deficiência, sendo o presidente do Instituto Meus Olhos Têm Quatro Patas (MO4P). Nos esportes, foi, por mais de 20 anos, o único cavaleiro cego federado no mundo, o que o levou a representar o Brasil nos Emirados Árabes Unidos, a convite de seu presidente Khalifa bin Zayed al Nahyan, por 2 vezes.

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