Até quando morderemos a isca?, por Thiago Antônio de Oliveira Sá

Vale tudo: negacionismos, teorias da conspiração, gafes públicas, aparições performáticas, gracinhas para a claque, piadas racistas, escândalos e disparates.

Até quando morderemos a isca?

por Thiago Antônio de Oliveira Sá

Bolsonaro é previsível: quando sua reprovação aumenta, ele recorre à produção de factóides. Quanto mais críticas por sua condução do governo, mais polêmicas diárias ele cria. Quanto mais acusado de omissão criminosa no enfrentamento da Covid, mais crimes de responsabilidade comete. Quanto mais acuado, mais ameaças golpistas faz.

Nada disso é espontâneo ou idéia sua. É técnica básica dos tecnopopulistas de direita, desenvolvida pelo strategista-chefe da Casa Branca no governo de Donald Trump, Steve Bannon. Consiste basicamente em dar declarações diárias, polêmicas, repentinas, aleatórias e chocantes. Trump, Boris Johnson, Victor Orbán, Santiago Abascal, Matteo Salvini e Bolsonaro não teriam a visibilidade que têm e nem chegariam ao poder a não ser espalhando discursos que instigam emoções extremas.

Conforme a necessidade do populista em chefe da vez, tais declarações precisam, eventualmente, ser absurdas, implausíveis e contraditórias. Vale tudo: negacionismos, teorias da conspiração, gafes públicas, aparições performáticas, gracinhas para a claque, piadas racistas, escândalos e disparates. O importante é seu caráter inesperado, pitoresco e, por vezes, revoltante. Os ex-ministros Weintraub e Ernesto, por exemplo, eram mestres na geração deste tipo de conteúdo.    

O objetivo é um só: disputar espaço no noticiário. Deste modo, acaba-se monopolizando a imprensa. Não sobra espaço para outras vozes e temas. Assim, evitam-se críticas, questionamentos e assuntos incômodos ao governo. Instrumentaliza-se os meios de comunicação, assim transformados em autofalantes gratuitos.

Para ter esse efeito, a polêmica como política precisa ser em massa. Cada factóide é sucedido por outro, que o ofusca. Deste modo, pauta-se a mídia, catalisa-se a atenção e captura-se a audiência, em torno de banalidades cujo objetivo não era outro. Na prática, é só um bombardeio de absurdos que, de certa forma, acaba contando com a conivência dos meios de comunicação, que os converte em manchetes, cliques e pauta.

Além da quantidade, pesa também a qualidade (ou a total falta dela). Quanto mais absurda a declaração presidencial, melhor. Para que as pessoas se escandalizem, para que os colunistas escrevam páginas sobre ela, para que as redes sociais transbordem indignação e para que especialistas sejam convocados pelos telejornais para explicar o óbvio. Enfim, um disparate bem colocado mobiliza muita gente para debatê-lo, enquanto mantém a audiência ocupada, tentando recuperar-se do choque da vez.

Há ideólogos e especialistas em big data envolvidos tanto na elaboração do conteúdo quanto na sua circulação. Eles os fazem chegar às pessoas certas, mais suscetíveis à mensagem, por meio de mecanismos complexos de rastreamento de perfis individuais. O cientista político Giuliano Da Empoli denomina-os os “engenheiros do caos”.

Nós mesmos somos envolvidos neste jogo quando, pasmos, chocados ou indignados, compartilhamos por meios de redes sociais e aplicativos de mensagens matérias do tipo “Bolsonaro fez isso”, “Bolsonaro afirmou aquilo”, “Bolsonaro negou que tenha atacado a China”, “a deputada aliada fez dancinha de Tik Tok”. Somos cooptados e fazemos justamente o que esperam que façamos: contribuímos para dispersar o foco de questões importantes e colaboramos para o aumento da cortina de fumaça. Ou seja, servimos-lhes de porta-vozes espontâneos. Como opositores, somos bem prestativos.

O pior de tudo? Isso funciona. A cobertura que essas bobagens ganham. O destaque que isso tem na mídia. O espaço que ocupam no debate público, obstruindo informes e questões relevantes. Enquanto isso, todos nós, produtores e consumidores de informação, procuramos nos inteirar de todas as besteiras ditas, feitas ou ameaçadas. E gastamos horas horrorizados com elas, debatendo-as, como se fossem necessárias e não fossem plantadas para isso. Até quando morderemos a isca?

Thiago Antônio de Oliveira Sá é sociólogo, professor e doutor em Sociologia.

Este artigo não expressa necessariamente a opinião do Jornal GGN

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