O terrorismo dos ricos e o terror dos pobres, por Fábio de Oliveira Ribeiro

O governo Bolsonaro quer destruir nossas universidades federais públicas. São elas que possibilitam o fluxo interno de estudantes e o contato permanente entre os jovens das diversas regiões do país.

O terrorismo dos ricos e o terror dos pobres

por Fábio de Oliveira Ribeiro

As guerras civis são sempre extremamente violentas. Mas segundo David A. Bell, a Guerra da Vendeia tem:

“…uma dimensão de horror diferente. Segundo estimativas mais confiáveis, entre 200 mil e 250 mil homens, mulheres e crianças – mais de um quarto da população da região insurgente – perderam suas vidas por á entre 1793-1794. A principal campanha contra o exército ‘católico e real’ de camponeses da Vendeia,que durou de março a dezembro de 1793, estabeleceu um novo padrão europeu de atrocidades. Depois, no começo de 1794,o general republicano Louis-Marie Turreau enviou doze destacamentos, de 2 ou 3 mil soldados cada, para marchar sobre o território percorrendo setores estratégicos, com ordens para torná-los inabitáveis. Essas ‘colunas infernais’ queimavam casas e florestas, confiscavam e destruíam armazéns de alimentos, matavam criações de animais e se envolviam em estupros, pilhagens e massacres. Em alguns casos, matavam somente os suspeitos de rebeldia. Em outros, como em La Flocelière, liquidavam indiscriminadamente homens, mulheres e crianças, incluindo ‘patriotas’ que haviam permanecido leais à República, com base na ideia de que nenhuma pessoa viva na Vendeia podia ser verdadeiramente leal. Na cidade portuária de Nantes, as autoridades republicanas vislumbraram novos e poderosos métodos de assassinato em massa para eliminar os ‘bandidos’ de modo mais eficiente e para minimizar o esforço dos assassinos. De modo repugnante, amarravam milhares de prisioneiros a barcaças, que eram rebocadas para o estuário do Loire e ali afundadas. A Guerra da Vendeia foi ‘a mais terrível guerra civil que já houve’, observou Turreau – homem que mais do que ninguém contribuiu para que ela assim fosse.” (Primeira Guerra Total, David A. Bell, editora Record, Rio de Janeiro – São Paulo, 2012, p. 208/209)

De certa maneira, a Guerra de Canudos foi uma Guerra da Vendeia em escala diminuta.

No século XVIII, as conexões culturais entre Paris e as áreas rurais francesas eram frágeis. O mesmo pode ser dito do Brasil no século XIX. A imensa distância entre o nordeste e o Rio de Janeiro eram geralmente percorridas por barcos e a esmagadora maioria da população brasileira não tinha recursos para pagar as passagens. Algumas cidades brasileiras no Mato Grosso, Amazonas, Rondônia, Roraima e Acre não eram acessíveis por terra. A imensa fragilidade da integração nacional explica a imensa quantidade de guerras civis, levantes, revoltas e rebeliões que ocorreram no Brasil durante o século XIX https://pt.wikipedia.org/wiki/Lista_de_conflitos_envolvendo_o_Brasil.

A propagação de ideias pré concebidas acerca do inimigo supostamente monarquista ocorreu tanto na Guerra da Vendeia quanto na Guerra de Canudos. A necessidade de arrasar totalmente o território rebelde, eliminando todas ou quase todas as pessoas que nele viviam, foi considerado uma necessidade militar imperiosa na França e no Brasil. Nos dois casos os civis foram massacrados indiscriminadamente para garantir o predomínio do regime republicano.

O Exército francês afogou milhares de supostos inimigos, afundado no estuário do Loire as barcaças em que eles foram amarrados. O Exército brasileiro não descansou enquanto não deixou a região inteira de Canudos embaixo d’água. Mas as tentativas de apagar as feridas causadas pela guerra foram inúteis em ambos os casos. Elas ressurgiram entre os franceses e entre os brasileiros.

Em 11 de setembro de 2001 os EUA foram atacados pela Al-Qaeda. Vinte anos depois, os norte-americanos usam aquele ataque para tentar explicar e minimizar a devastação que a Guerra ao Terror impôs ao Iraque e ao Afeganistão. As causas do atentado ao WTC foram esquecidas. Elas precisam ser esquecidas, caso contrário, não será possível justificar o injustificável.

Invadido e devastado pelos EUA, o Iraque não era um abrigo seguro para Osama Bin Laden. Aquele país não tinha armas de destruição em massa. Ele foi ocupado porque os norte-americanos usaram o ataque ao WTC como um pretexto para invadir aquele país e controlar suas reservas petrolíferas.

O Afeganistão era usado como base pela Al-Qaeda antes de atacar o WTC. Todavia, ninguém deve esquecer que os EUA abandonaram aquele país à própria sorte nas mãos dos fanáticos religiosos após financiarem o terrorismo contra o regime laico apoiado pela URSS. O empresário Bin Laden se tornou agente norte-americano naquele período, transformando-se em líder de um grupo de guerrilheiros endurecidos na guerra contra o Exército Vermelho e dispostos a fazer qualquer coisa em nome de sua religião.

Assim como os franceses criaram seus inimigos na Vendeia e os brasileiros transformaram Canudos num perigoso reduto monarquista, os norte-americanos são responsáveis pela Al-Qaeda. O terrorismo dos ricos cria o terror dos pobres. Mas quando se tornam vítimas de sua criatura, os ricos reagem de maneira violenta. Eles quase sempre não fazem nada para reparar os seus erros e preferem esquecê-los enquanto fomentam novos conflitos.

Nos EUA, a popularidade de Joe Biden caiu em razão dele retirar os soldados norte-americanos do Afeganistão. No Brasil, Bolsonaro quase conseguiu transformar seu ódio aos nordestinos que votaram no PT em pretexto para uma nova guerra civil semelhante àquela que devastou Canudos. Antes disso, Lula foi tratado pelo presidente do TRF-4 como se fosse a reencarnação de Antônio Conselheiro https://www.infomoney.com.br/politica/em-ataque-a-presidente-do-trf-4-lula-resgata-guerra-de-canudos/.

As relações de parentesco perpetuam os conflitos. Só é possível quebrar esse ciclo proporcionando as mesmas oportunidades de educação aos descendentes das vítimas e dos agressores. França e Alemanha, países cujas populações se esforçaram para matar uma a outra em escala industrial durante a primeira metade do século XX, fizeram isso. O sucesso da integração comercial após a criação da Organização Europeia de Cooperação Econômica em 1948 (embrião do Mercado Comum Europeu e da União Europeia) foi amplificado pelas conexões entre os sistemas educacionais dos dois países fomentado durante décadas desde então. O fluxo imenso de estudantes universitários cruzando as fronteiras da França para Alemanha e vice-versa, criou uma população educada que partilha uma visão de mundo pacífica. Isso ajudou a cicatrizar as feridas abertas por duas guerras mundiais.

O governo Bolsonaro quer destruir nossas universidades federais públicas. São elas que possibilitam o fluxo interno de estudantes e o contato permanente entre os jovens das diversas regiões do país. Ao fixar as novas gerações do sul/sudeste e do norte/nordeste em seus próprios territórios, esse governo militarizado flerta com a barbárie. Se for bem-sucedido, Bolsonaro facilitará o renascimento e o fortalecimento do regionalismo e de um sentimento de não pertencimento ao Brasil. Com o tempo, as forças axífugas (econômicas, políticas e culturais) estraçalharão nosso território.

A ganância e a arrogância norte-americana deram origem à Guerra ao Terror. A discórdia e desconfiança provocaram barbáries terríveis durante a Guerra da Vendeia e a Guerra de Canudos. As duas Guerras Mundiais que estraçalharam Alemanha e França foram provocadas por um misto de desconfiança e ganância.

Ao contrário de ficar discutindo o ataque ao WTC e suas consequências nos EUA (ou no Afeganistão), o melhor que podemos fazer nesse momento é refletir sobre o que pode ser feito aqui e agora para impedir Bolsonaro de criar as condições para uma nova guerra civil brasileira. Minha proposta concreta para prevenir essa catástrofe é redobrar os esforços em defesa das universidades federais públicas.

Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.

Este texto não expressa necessariamente a opinião do Jornal GGN

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