Por que cidadãos de bem apoiam um governo que ataca seus próprios direitos?, por Michel Aires de Souza Dias

Apesar das acusações de corrupção, de ligação com o crime organizado e da destruição das políticas sociais, Bolsonaro mantém sua base de apoio. Ele ainda mantém fiel 30% do eleitorado.

Por que  cidadãos de bem apoiam um governo que ataca seus próprios direitos?

Por Michel Aires de Souza Dias[1]

Bolsonaro apareceu nas eleições de 2018 como o salvador da pátria. Em nome de Deus, da família e do cidadão de bem, ele se elegeu como aquele que salvaria o Brasil da corrupção e do comunismo. Contudo, surgiram provas contundentes de corrupção contra ele e sua família. Os desvios de recursos por meio das rachadinhas, a contratação de funcionários fantasmas, o enriquecimento ilícito, o peculato, a lavagem de dinheiro, as irregularidades na compra de imóveis, a ligação com os milicianos e com o crime organizado foram algumas das principais acusações. O governo Bolsonaro também se tornou catastrófico na política ao seguir a cartilha neoliberal. Ao satisfazer as demandas do grande empresariado, do capital financeiro e do agronegócio, ele agravou a crise financeira e prejudicou milhares de famílias e trabalhadores. O Estado de bem-estar social estabelecido no governo PT começou  a ser desconstruído. Com isso, a fome, a miséria, o desemprego voltaram com força total ao cenário nacional O sucateamento das políticas voltadas à agricultura familiar,  o fim do Programa Mais-Médicos, a flexibilização das leis trabalhistas, o fim do Ministério do Trabalho,  a redução do BPC (Benefício de Prestação Continuada), o desmonte do Programa de Farmácia Popular, o abandono do Programa de Cisternas e a redução dos serviços de assistência social foram as principais causas do aumento dramático do desemprego, da miséria e da fome. As políticas de segurança alimentar criadas nos governos Lula e Dilma foram desmontadas. O foco passou a ser fortalecer a perspectiva do agronegócio e da indústria de alimentos. O resultado disso foi que a fome e a insegurança alimentar atingiram mais de 43 milhões de pessoas. O Brasil voltou a fazer parte do mapa da fome da Organização das Nações Unidas (ONU).  

Segundo a Fundação Perseu Abramo (2021), a Política Nacional de Assistência Social foi sucateada. Os repasses do governo federal aos municípios caíram de pouco mais de três bilhões de reais no final do governo Dilma para 1,3 bi de reais em 2020 e, ao que tudo indica, deve diminuir no decorrer de 2021. Com isso, as bases do Sistema Único da Assistência Social (SUAS), como parte estratégica da seguridade social, foram comprometidas. O SUAS é a porta de entrada da população mais pobre ao sistema de proteção, para acesso a direitos e ao Estado. Ela organiza a rede de proteção de renda e de acesso a serviços socioassistenciais, garantindo ainda a inclusão em um conjunto mais amplo de proteções e de referenciamento em serviços como saúde e educação.

Apesar das acusações de corrupção, de ligação com o crime organizado e da destruição das políticas sociais, Bolsonaro mantém sua base de apoio. Ele ainda mantém fiel 30% do eleitorado. A pergunta que somos levados a refletir é: por que cidadãos de bem apoiam um governo que ataca seus próprios direitos? A resposta para este fenômeno está ligada à estrutura da personalidade dos indivíduos que possuem tendências conservadoras e autoritárias, pois eles são facilmente cooptados pela propaganda fascista, que manipulam seus processos inconscientes.

A família de Bolsonaro por meio das redes sociais, de grupos de WhatsApp, do Youtube e por milhares de canais de jornalismo fake, mantém uma rede de propaganda ideológica, que propagam teorias da conspiração, fake news, messianismo, terraplanismo, subversão da ordem democrática, personalização do líder,  negação da ciência e dos fatos. São por meios dos algoritmos que esses canais de propaganda antidemocrática se disseminam atraindo indivíduos com uma personalidade conservadora e autoritária.

O filósofo Theodor Adorno (2019) já havia estudado, na década de 40, a partir de pesquisas empíricas, nos EUA, os traços de personalidade autoritário em uma parcela da população daquele país. O conservadorismo, a adaptação,  o conformismo, o preconceito, a ausência de autorreflexão, o comportamento convencional são características dessa forma de personalidade. Desse modo, ele procurou demonstrar que o fascismo não é um episódio histórico e isolado, mas que estava presente de forma latente em amostras da população norte-americana. Em suas pesquisas, ele conclui que  são as condições sociais e culturais objetivas, no modo como o capitalismo é organizado, que produz  indivíduos propensos à personalidade autoritária.  

 Em dois artigos,  “Antissemitismo e a propaganda fascista” (1946) e “Teoria Freudiana e o padrão da propaganda fascista” (1951), Adorno analisou uma extensa amostra de propagandas antidemocráticas e antissemitas, mostrando como elas manipulam os mecanismos inconsciente dos indivíduos para  fins políticos. Ele descobriu que  a oratória dos demagogos fascistas procurava convencer os indivíduos não por meio de argumentos racionais e com ideias políticas concretas, mas manipulando processos inconsciente, por meio de discursos astuciosamente ilógicos e pseudoemocionais.

A grande parte da propaganda ideológica bolsonarista apelam às emoções, aos afetos e aos desejos e não se atentam para a realidade objetiva. Uma das características da propaganda fascista  é que “ela ataca  fantasmas, e não oponentes reais” (Adorno 2015a, p. 143), ou seja, ela gera o preconceito construindo o imaginário  do negro, do comunista, do pobre, do homossexual, fragmento-os em partes sem se dar conta de como esse imaginário se relaciona com a realidade: “A relação entre premissas e inferências é substituída por vínculo de ideias” (2015a, p. 143).  O indivíduo não precisa fazer o exame racional, ele apenas se abandona a uma corrente de palavras e frases por similaridade ao qual mergulha.

Outra característica importante da propaganda fascista, que Adorno já havia observado, é que ela propaga notícias falsas (fake news), procurando “contar histórias escandalosas, a maioria fictícias” (2015a, p. 140) sobre seus oponentes.  Ele chegou a contar um caso de uma rádio da Costa-Oeste dos EUA, onde um demagogo prometeu fornecer provas com todos os detalhes de um decreto falso do governo soviético organizando a prostituição de mulheres russas.  

No Brasil, as fake news e as teorias conspiratórias foram usadas massivamente na pandemia. Elas foram disseminadas pelos próprios órgãos oficiais do governo e pelo próprio presidente da república. A principal delas afirmava que o vírus foi criado em laboratório pelos chineses, com objetivos de dominação mundial. Houve também a teoria conspiratória de que  a vacina altera o DNA humano; outra de que a vacina possui um microchip capaz de rastrear as pessoas. Mas, a fake news mais disseminada foi a de que a cloroquina e um vermífugo seriam capazes de curar a Covid. O resultado disso, nós já sabemos, foi a morte milhares de pessoas nos hospitais por Covid.

O sucesso de Bolsonaro para manter uma base de apoio se deve à sua rede de propaganda ideológica, mas também porque ele foi capaz de manter um vínculo afetivo de identificação com seus seguidores. Como afirma Adorno: “O mecanismo que transforma a libido no vínculo entre líder e seguidores, e entre os próprios seguidores, é o da identificação” (ADORNO, 2015b, p. 166). O líder une a todos pela identificação uns com os outros e pela mesma percepção da realidade. Ele realiza o “ideal do Eu” de seus seguidores de autoconservação, consciência moral e repressão.

Referências

ADORNO, Theodor W. Estudos sobre a personalidade autoritária. São Paulo: Editora UNESP, 2019. 

ADORNO, Theodor W. Antissemitismo e propaganda fascista. In: ADORNO, Theodor Wiesengrund. Ensaios sobre psicologia social e psicanálise. São Paulo: Unesp, 2015a. p.137-152.

ADORNO, Theodor W. Teoria Freudiana e o padrão da propaganda fascista. In: ADORNO, Theodor. Ensaios sobre psicologia social e psicanálise. São Paulo: Unesp, 2015b. p. 153-189.


[1] Doutorando em educação pela Universidade de São Paulo. E-mail: [email protected]

Este artigo não expressa necessariamente a opinião do Jornal GGN

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1 comentário

  1. Nassif: artigo maneiro. Me fez lembrar do nosso Filósofo do Caos, Tim Maia, que dizia em seus gingados, por que estávamos fadados a ser Terra do Nunca —

    “Um Pais onde puta se apaixona, cafetão tem ciúmes, traficante se vicia e pobre vota na direita nunca vai dar certo”.

    Só errou no “Pais”, que não somos. Nem “Nação”. Hoje, por conta desses que governam, não passamos de uma possessão, um quintal sujeito a interferências do donatário. Um Estado sem soberania. Um povo apático, “deitado eternamente em berço esplêndido”.

    Será que somos uma Fake News geográfica? Porque social, política e econômica, disso não há dúvida.

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