Na Via Sacra dos Invisíveis, Padre Lancelotti pede fim da violência policial

Foto: Daniel Arroyo

Por Thiago Fuschini

No blog Outras Palavras

A Via Sacra dos Invisíveis

O período da Páscoa é um convite aos cristãos a orarem e refletirem sobre a Paixão e a Ressurreição de Jesus, e, ao mesmo tempo, compreenderem o real significado de sua vida e missão. Desde o século XVI, uma das formas mais tradicionais de se refletir sobre estes temas é a participação na Via Sacra, que relembra o caminho de Cristo ao Gólgota, onde ocorreu sua crucifixão, na primeira Sexta-Feira Santa.

Há mais de 30 anos, a Pastoral do Povo de Rua de SP realiza a Via Sacra do Povo de Rua de São Paulo, que ocorre tradicionalmente nas ruas do centro da capital, onde, segundo o Censo de População de Rua, de 2015, vivem 80% das cerca de 16 mil pessoas que perambulam pelas ruas da cidade mais rica do país.

A procissão fez um trajeto pela Rua Líbero Badaró, no centro histórico da cidade, onde parou em frente a cada prédio de órgãos da Prefeitura, como as secretarias de Habitação e de Assistência e Desenvolvimento Social, passando pela Prefeitura e terminando na Catedral da Praça da Sé.

Violência

A Via Sacra do Povo da Rua, ontem (30), exigiu a criação de políticas públicas para esta população, com ênfase em suas principais necessidades, ou seja, moradia e trabalho, e pediu o fim da violência contra quem vive nas e das ruas, que, normalmente, é praticada por agentes de segurança pública (da Polícia Militar e da Guarda Civil Metropolitana – CGM).

Leia também:  Por que o morro não desce?, por Fernando Horta

Com a frase “Recebemos bombas, entregamos flores”, entoada pelos participantes, o padre Julio Lancellotti, coordenador da Pastoral e moradores de rua distribuíam rosas brancas a policiais e guardas municipais, pedindo a paz na cidade.

“Chega de violência contra o povo! Chega de bala de borracha e de gás de pimenta! Chega de maldade e de opressão”, disse Lancellotti, ao entregar flores aos policiais militares que montavam guarda em frente ao prédio da Secretaria Estadual de Segurança Pública (SSP).

Uma das formas de violência mais habituais praticada contra os moradores de rua é o chamado “rapa”, realizado pelas subprefeituras, com a justificativa de tratarem-se de ações de “limpeza” e “zeladoria urbana”. Com o apoio da PM e da GCM, funcionários da Prefeitura expulsam moradores de rua de áreas comuns e confiscam seus pertences, incluindo cobertores, alimentos, medicamentos, documentos e instrumentos de trabalho.

“Eu sofro muito com o ‘rapa’. Eles vêm e roubam minhas coisas, meu colchão, tudo o que recebo das pessoas que me ajudam. Roubam e batem se a gente resiste. Chega de opressão”, contou Marcelo Gomes de Oliveira, que vive em situação de rua na Mooca, na zona leste, há oito anos.

Moradia e Trabalho

De acordo com Sueli Aparecida Correa, os governos estadual e municipal precisam criar programas habitacionais para dar moradia às pessoas que vivem em situação de rua. “Sempre dizem que não tem verba. Só querem saber de nos colocarem nos albergues. Aquilo não é vida. Não temos liberdade, não podemos ter as nossas coisas, não podemos nem escolher e preparar o que queremos comer. Tudo é imposto”, denunciou Sueli.

Leia também:  Fechando olhos para denúncias, Brasil investe milhões em comunidades terapêuticas

“Queremos ter nossa casa e nosso trabalho. Não queremos viver o resto de nossas vidas nos albergues (da Prefeitura). As pessoas precisam entender que estamos lutando para melhorar nossas vidas”, disse Raquel Fernandes Barbora, que viveu em situação de rua por cerca de dois anos, na região da “cracolândia” da Luz, no centro da cidade, e hoje atua como agente de saúde no programa Consultório na Rua, que corre o risco de ser encerrado pelo governo João Doria (PSDB). Presente à Via Sacra, o vereador Eduardo Suplicy (PT) assumiu o compromisso de agendar uma audiência com o prefeito  para tratar o tema e assegurar a continuidade do Consultório na Rua.

Suplicy também anunciou que apresentará um Projeto de Lei à Câmara Municipal com o objetivo de acabar com a violência contra os moradores de rua. “A Prefeitura tem de respeitar estas pessoas. Absurdos como os que ocorrem frequentemente na ‘cracolândia’ são inadmissíveis”, disse.

Catedral da Sé

A procissão terminou na Catedral da Sé, no coração da Cidade, onde os participantes foram recebidos nas escadarias da igreja pelo arcebispo de São Paulo, Dom Odilo Pedro Scherer.

“O Povo da Rua é vítima de várias formas de violência e de injustiça. A cidade precisa superar a discriminação, o preconceito e a injustiça, para que possa ajudar as pessoas a superarem a situação de rua e a terem uma vida digna. Participando da Via Sacra, lembramos da cruz de Jesus e entendemos que a nossa cruz também tem significado. Não precisamos ficar debaixo dela ou sermos massacrados. Jesus ressuscitou. O mal e o pecado não têm e nunca terão a última palavra”, disse o cardeal.

Leia também:  INSS corta benefícios de 22 crianças com microcefalia em Pernambuco

______________________

*Thiago Fuschini é jornalista e voluntário da Pastoral do Povo de Rua de SP

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Assine agora

2 comentários

  1. solução cristã de 30 anos…

    não seria diferente, caso fosse de 3 mil anos

    pois cabe aos fiéis leigos atuarem como artesãos da paz e da justiça, ajuda e caridade,

    muito mais que às autoridades

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome