A complexidade, o novo mundo da análise econômica, por Fernando Nogueira da Costa

Por Luis Nassif

Costumo me referir a Fernando Nogueira da Costa como o mais brilhantes dos economistas brasileiros menos conhecidos. Sua visão sistêmica da economia, sua capacidade de trabalhar os grandes bancos de dados, buscando sempre a informação relevante, é juma qualidade imbatível.

Aqui seu livro “Complexidade Brasileira”, um tema dos mais atuais. O tema da complexidade passou a invadir a economia à medida em que eram disponibilizados os grandes bancos de dados. A maioria dos economistas abomina o tema, por tirá-los das conclusões simplificadas, monotemáticas, que caracterizam a análise econômica midiática.

Fernando cai de cabeça e navega por mares nunca dantes tentados por aqui.

Gentilmente ele disponibizou os livros para os leitores do GGN, nos formatos PDF e E-Pub.

 

Complexidade Brasileira: Baixe o Livro

Fernando Nogueira da Costa[1]

Em 2018, tirei Licença-Prêmio e todas as férias vencidas e acumuladas ao longo dos meus 33 anos como professor do IE-UNICAMP. Dediquei-me a participar do debate público-eleitoral em sites como o Jornal GGN, Brasil Debate e Carta Maior, além do meu modesto blog pessoal (Cidadania & Cultura), ao escrever posts analíticos da conjuntura econômica e política. Além dessa atividade, minha prioridade neste ano foi organizar três livros publicados, um impresso pela Editora Contexto (“Métodos de Análise Econômica”) com organização de minhas crônicas econômicas por ordem de abstração, outros dois de modo eletrônico.

Um deles foi o “Ensino de Economia na Escola de Campinas: Memórias”, disponível em: http://www.eco.unicamp.br/index.php/50-anos/473-ensino-de-economia-na-escola-de-campinas-memorias. Outro, “Complexidade Brasileira: Abordagem Multidisciplinar”, foi recém lançado, também para download gratuito, uma nova tendência face à crise das livrarias e editoras brasileiras. Tem a finalidade de ainda participar, no rescaldo da luta político-eleitoral, do debate da resposta à pergunta-chave do Renato Russo (vocalista da Legião Urbana): “que País é este?!”. Você poderá baixá-lo em: https://fernandonogueiracosta.wordpress.com/2018/12/13/livro-para-download-gratuito-complexidade-brasileira-abordagem-multidisciplinar/

Parto da hipótese de a luta de classes binária, ou com uma pequena burguesia ou classe média intrometendo-se entre elas, é muito reducionista para entender a história do Brasil, desde a conquista do território e genocídio dos nativos pré-colombianos pela colonização portuguesa. Nas primeiras colônias agrícolas, o povoado e o grupo de parentesco ampliado — o familismo — eram o mais importante princípio organizador. Desde então, a ação coletiva da política brasileira ainda se vem fazendo pelo clã ou a dinastia de origem paroquial.

Para tornar mais inteligível a história (inclusive do futuro) de nossa sociedade, agreguei à minha pesquisa as categorias de castas de natureza ocupacional. Casta, no sistema de estratificação tradicional da Índia, é um grupo social fechado, de caráter hereditário, cujos membros pertencem à mesma raça, profissão ou religião. Aqui, na mistura brasileira, esses grupos sociais não compõem um sistema tão rígido de estratificação social. Embora mantenha o caráter hereditário, permite mobilidade social entre cada camada social formadora de uma das partes de nossa sociedade organizada de maneira hierárquica.

No teste dessa hipótese, primeiro levantei as instituições e os valores das castas no Brasil. A emergência delas ocorreu via instituições da casta dos guerreiros militares (Forças Armadas), da casta dos sábios, tanto as instituições da casta dos sábios-sacerdotes (Igreja Católica), quanto as instituições da casta dos sabidos-pastores (Igreja Evangélica). É relativamente recente o surgimento das instituições da casta dos sábios-universitários e/ou tecnocratas (modelos de Universidades vigentes no País, ABI, OAB, etc.). Pesquisei igualmente as instituições da casta dos mercadores (Associações Patronais) e as da casta aos trabalhadores: resgatei um resumo da história sindical brasileira.

O Brasil como Sistema Complexo emerge de interações de suas castas. Essa é a hipótese testada na minha breve releitura da nossa historiografia clássica e dos intérpretes do Brasil no Século XXI. Para tanto, revejo com esse foco as interpretações do Brasil colonial (formação das castas), do Brasil imperial (disputa de poder por clãs, dinastias aristocráticas e castas), do Brasil da Primeira República, quando houve a restauração da casta dos oligarcas governantes, e do Brasil urbano-industrial, quando predomina o embate da casta dos guerreiros e  casta dos mercadores contra a casta de oligarcas governantes. Recentemente, houve o surgimento da aliança socialdemocrata (ou social-desenvolvimentista) entre a casta dos trabalhadores organizados e a dos trabalhadores intelectuais, conhecidos como a casta dos sábios-universitários.

Houve uma evolução com base em alianças, golpes e contragolpes entre castas brasileiras. A ideologia evolui seja via coesão seja via coerção dos párias, a imensa maioria de exclusos socialmente, dada a imensa desigualdade em termos de educação, renda e riqueza. Em alguns breves períodos, estabeleceu-se até uma conciliação entre castas e párias. Houve mais a predominância do autoritarismo da casta dos guerreiros-militares e do elitismo das castas dos oligarcas governantes e dos sábios-tecnocratas. Os intervalos com populismo da casta dos trabalhadores são muito breves, devido ao culto à personalidade e o desviacionismo. O “normal” é a corrupção da casta dos governantes pela corruptora casta dos mercadores.   .

Investigo os componentes comportamentais, sociológicos e políticos da complexidade brasileira, usando essa referência de castas, dinastias ou clãs para interpretar o Brasil. Contemplo a análise das bancadas temáticas no Congresso Nacional e da recente onda conservadora.

O olhar da economia como um componente de um sistema complexo contempla sua evolução através de uma abordagem cíclica e de sua regulação. A ênfase excessiva dos economistas midiáticos na análise conjuntural coloca em segundo plano a teoria da evolução em economia, isto é, o ciclo econômico. Busco medir todas as dimensões da economia política da complexidade e até mesmo o recente ciclo de preços de imóveis, porque, ao longo de nossa história, a riqueza pessoal se concentrou em ativos imobiliários. Após a correção monetária adotada em 1964 e a plena implantação do capitalismo financeiro, passa a se distribuir entre riqueza imobiliária e riqueza financeira, de acordo com ciclos de juros e endividamento.

Contemplo também o encadeamento das cadeias produtivas e comércio exterior brasileiro em uma abordagem estruturalista contemporânea. Para isso, dimensiono a cadeia produtiva e rede de relacionamentos do agronegócio brasileiro, a economia do petróleo brasileira, a cadeia produtiva, comercial, e de manutenção, reformas e demolição da construção, a cadeia global de valor da indústria automobilística, os padrões de intensidade tecnológica da indústria brasileira, e distingo os serviços de agregação de valor e diferenciação de produtos e os serviços de custos e demanda final. Debato o índice de complexidade econômica, dado pela pauta de exportação, com um notável representante da nova geração de economistas novo-desenvolvimentistas.

Para articular todos esses componentes interativos da complexidade brasileira, utilizo meu conhecimento de especialista financeiro. Analiso o capitalismo moderno como um sistema financeiro complexo, confrontando a literatura da “financeirização”, defendendo as finanças (pessoais e corporativas) serem intrínsecas ao capitalismo. Trata-se de um sistema com múltiplos componentes em rede para aplicar, emprestar e pagar. Por isso, a “amarração” se dá via uma rede bancária onde se estabelece o circuito monetário-financeiro entre todos os clientes “bancarizados”, seja Pessoa Física, seja Pessoa Jurídica. Destaco os distintos nichos de mercado de bancos públicos e privados, particularidades brasileiras contra as quais neoliberais no governo se insurgem.

A análise da economia como um sistema complexo permite esse entendimento distinto do proposto pela literatura de esquerda com a denúncia da “financeirização”. O sistema financeiro nacional não é uma atividade parasitária, muito antes pelo contrário, favorece a expansão do valor agregado, acrescenta e possibilita a defesa do poder aquisitivo das reservas para a fase inativa dos trabalhadores. Por esse e outros motivos expostos no livro, todos cidadãos desejam, voluntariamente, ser participantes desse sistema bancário. Acesso a bancos e crédito significa uma conquista da cidadania financeira.

Enfim, esse método de análise da complexidade brasileira permite um novo entendimento para responder à citada questão: “que País é este?!”.

Vamos ao debate sem censura! Baixe o livro

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