O avanço das apostas esportivas e dos jogos online tem levado moradores de regiões periféricas a procurar atendimento no Sistema Único de Saúde (SUS) depois que as apostas passaram a comprometer suas finanças, relações familiares e saúde mental.
Um dos casos é o de Kaio*, de 42 anos. Motorista, ele conheceu as bets durante momentos de descanso no trabalho e passou a apostar com mais frequência após enfrentar a morte do pai e sintomas de depressão.
Em uma madrugada, perdeu milhares de reais em poucos minutos. O dinheiro havia sido emprestado por um amigo para pagar dívidas contraídas justamente por causa de outras apostas.
O problema provocou um efeito dominó. Kaio vendeu o carro, móveis e posteriormente a própria casa para tentar quitar as dívidas, que ultrapassaram R$ 200 mil. O casamento terminou e ele precisou deixar o emprego.
Hoje, trabalha no interior de Goiás e faz tratamento em um Centro de Atenção Psicossocial (Caps) no Distrito Federal. Segundo ele, a terapia em grupo e o acompanhamento profissional foram fundamentais para iniciar uma nova etapa da vida.
Falsa promessa de renda
Especialistas afirmam que pessoas em situação de vulnerabilidade econômica podem ser especialmente expostas às bets. A publicidade frequentemente associa as apostas à possibilidade de obter dinheiro rápido ou complementar a renda.
Para a psiquiatra Kátia Branco, do Hospital das Clínicas de São Paulo, moradores de comunidades e pessoas com renda próxima ao salário mínimo podem sofrer impactos maiores porque o dinheiro perdido nas apostas compromete diretamente o orçamento familiar.
O endividamento pode desencadear ou agravar problemas como ansiedade, depressão e pensamentos suicidas. A especialista também chama atenção para a exposição constante às apostas durante transmissões esportivas e nas redes sociais.
“Cassino na palma da mão”
A psicóloga Claudia Feres, da Secretaria de Saúde do Distrito Federal, explica que a tecnologia ampliou o acesso aos jogos. Com um celular, o usuário pode apostar a qualquer hora, sem precisar sair de casa.
O tratamento busca reduzir os danos causados pelo comportamento compulsivo e estimular o afastamento dos dispositivos que facilitam as apostas.
Entre os sinais de alerta estão isolamento social, alteração do sono, irritabilidade e dificuldade de controlar o tempo e o dinheiro gastos com jogos.
Nos Caps, equipes multidisciplinares fazem o acolhimento dos pacientes e procuram envolver familiares no tratamento. A recomendação dos profissionais é buscar ajuda o mais cedo possível.
Famílias também sofrem
Outro paciente, identificado como João*, de 32 anos, faz tratamento semanal em um Caps. Segundo sua mãe, os poucos recursos da família passaram a ser usados em jogos online.
O acompanhamento inclui participação em grupos terapêuticos e apoio familiar. Para especialistas, a presença de parentes é importante para ajudar o paciente a manter o tratamento e controlar o acesso ao dinheiro e às plataformas de apostas.
Os efeitos também aparecem nas relações pessoais. Ricardo*, de 26 anos, afirma ter perdido mais de R$ 100 mil desde que começou a apostar, em 2018. Pai de uma criança, ele atribui o fim do relacionamento às dívidas acumuladas.
O rapaz relata ainda dificuldades para dormir quando tenta ficar longe das apostas. Para evitar recaídas durante a madrugada, passou a desligar o celular e mantê-lo distante.
Apostas não devem ser vistas como fonte de renda
O Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR), que afirma representar 75% do mercado brasileiro, reconheceu a importância da prevenção ao jogo problemático e da proteção de pessoas vulneráveis.
A entidade defende que apostas sejam tratadas como entretenimento, e não como fonte de renda ou alternativa para garantir a subsistência.
Segundo o instituto, o mercado regulado passou a seguir regras específicas, incluindo restrições à publicidade e medidas de proteção para crianças e adolescentes. A entidade também defende o combate às plataformas ilegais.
Especialistas, porém, destacam que o problema não deve ser tratado apenas como uma questão individual. A combinação entre vulnerabilidade econômica, publicidade, facilidade de acesso e problemas de saúde mental pode aumentar o risco de dependência.
Por isso, o SUS oferece atendimento para pessoas que enfrentam dificuldades relacionadas ao jogo, especialmente por meio dos Caps. A orientação é procurar ajuda diante de sinais como perda de controle, endividamento, isolamento e prejuízos à vida familiar e profissional.
*Com informações da Agência Brasil.
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