China e a tecnologia 5G: a nova revolução nas telecomunicações, por Ricardo Kotz

Conectividade 5G promete provocar uma revolução nos modelos de negócios e nas cadeias de valor a nível internacional. A data de lançamento comercial do novo formato está prevista para o início de 2020

Evolução das tecnologias G. Imagem: Reprodução

Por Ricardo Kotz

A China vem promovendo uma série de investimentos em ciência e inovação de modo a alavancar-se como um dos centros de desenvolvimento de tecnologia nas próximas décadas. Dentro deste escopo mais amplo, encontra-se a tecnologia de telecomunicações 5G, aspecto no qual a Ásia está despontando como líder no cenário global. Espera-se que a conectividade 5G provoque uma revolução nos modelos de negócios e nas cadeias de valor a nível internacional, tendo sua data de lançamento comercial prevista para o início de 2020.

Para que possamos dimensionar o potencial aportado pelas novas tecnologias, cabe mencionar as transformações ocorridas nas gerações anteriores da comunicação sem fio. A primeira geração permitiu a realização de ligações telefônicas sem fio. A segunda geração permitia além disto, o envio de mensagens SMS. A terceira geração permitiu o acesso à sites da internet, ainda que com pouca velocidade e dinamismo, se comparada aos padrões atuais. Já a tecnologia 4G permitiu o acesso e a transmissão de vídeos ao vivo, além de ter possibilitado o surgimento de novos modelos de negócios através do Sistema de Posicionamento Global (GPS, na sigla em inglês), tais como o UBER e o Airbnb.

Por sua vez, o 5G não conecta apenas smartphones, mas qualquer objeto que possua um chip. Neste ponto, podemos pensar na internet of things (IOT), ou seja, a aplicação de internet à objetos da vida cotidiana. Podemos igualmente pensar em carros inteligentes e/ou smart cities. Essencialmente, a 5G possibilitará que quase qualquer objeto da vida cotidiana colete e transmita dados, com uma velocidade estimada a ser 100 vezes superior à proporcionada pelo 4G.

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Neste sentido, fazendo uma comparação com a economia tradicional, o veículo de mídia The Economist afirma que o acesso, controle e o uso de dados são comparáveis à detenção de petróleo no que diz respeito ao seu potencial para acumulação de capital na economia digital, setor que se propaga para o futuro: “Data is the new oil” (os dados são o novo petróleo).

Por outro lado, a transmissão dessa enorme massa de dados acaba por levantar suspeitas e preocupações relativas à segurança digital, privacidade e direitos individuais. Questões como estas estão longe de ser resolvidas, e a aplicação da tecnologia 5G deverá levantar importantes debates em relação às leis, regulação do espaço digital e ética nas atividades econômicas.

O estudo prospectivo realizado pela empresa de consultoria Ernst Young estima que a China deverá possuir 576 milhões de usuários conectados ao 5G até 2025, o que constituiria 40% do total global. A atual tensão comercial entre China e Estados Unidos tem como pano de fundo a disputa geopolítica pelo desenvolvimento e controle de tecnologias que vão originar a nova geração de empresas que dominarão os mercados mundiais em diversos segmentos. No cerne deste debate se encontra a capacidade da China no desenvolvimento 5G.

O fomento à campeãs nacionais, empresas líderes que despontam em diferentes segmentos da economia mundial, é uma conhecida estratégia de política industrial. No caso da tecnologia 5G, a Huawei é a empresa que está capitaneando este processo na China. Em dezembro de 2018, os Estados Unidos (EUA) ordenaram a prisão da diretora financeira da companhia, Meng Wanzhou, por supostas violações à propriedade intelectual. Desde então, a Austrália e a Nova Zelândia se uniram aos EUA banindo a Huawei de suas atividades nesses países. Adicionalmente, o Reino Unido, a França, a Alemanha e a República Tcheca demonstraram preocupações em relação à segurança da atuação da Huawei em seus territórios.

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Ainda não existem informações suficientes para que se possa analisar conclusivamente estes casos, dado o período recente de sua ocorrência. No entanto, especialistas afirmam que é necessário levar em consideração a dimensão geopolítica envolvida no controle e produção de novas tecnologias, que está ligada às disputas com a Huawei. A empresa é especialmente qualificada para a produção da infraestrutura necessária para a expansão da nova tecnologia e os Estados Unidos têm receio de ficar dependentes de fornecedores chineses. Além disso, a China está em posicionada para angariar as vantagens inerentes à posição de primeiras empresas ingressantes em um novo mercado.

Se os fatos geopolíticos continuarem ditando as regras no campo do desenvolvimento 5G, existe o risco de que se produzam dois ecossistemas separados: o primeiro deles centrado nos Estados Unidos, se espraiando para os seus principais aliados transatlânticos; e outro centrado na China e se espraiando pelo espaço eurasiático, pela África e, possivelmente, pela América Latina.

Tal hipótese seria politicamente custosa e economicamente ineficiente. Neste cenário existe a maior probabilidade de aproximação dos países em desenvolvimento em relação à China, devido às suas vantagens de custo e à estratégia chinesa de prover financiamento para projetos de infraestrutura ao redor do mundo.

Por fim, outra conjuntura possível reside em uma visão conciliatória, na qual percebe-se que há espaço para ganhos relativos entre todos os agentes econômicos ingressantes em novos setores. Sob esta perspectiva, a eficiência, a inovação, os custos e a capacidade de gestão ditariam o espaço ocupado pelas empresas de determinado país no cenário global da telecomunicação 5G.

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*Esse artigo foi publicado originalmente no portal CEIRI NEWS, onde Ricardo Kotz colabora.

3 comentários

  1. Esta tal internet das coisas, é uma verdadeira máquina de transformar todas as pessoas em verdadeiros alvos para qualquer um que queira invadir a vida de forma REAL da mesma forma que fazem com a vida VIRTUAL.
    Hoje em dia, já há os primeiras tentativas que todos estão começando a se acostumar e será a cunha para a entrada real com o 5G. Vamos a exemplos:
    Várias TVs e outros equipamentos são inteligentes demais e as pessoas não se dão conta da abertura que dão colocando estas “facilidades” nas suas casas TV, refrigeradores e principalmente CÂMERAS DE VIGILÂNCIA ligadas ao celular.
    Ou seja, com o tempo, o seu refrigerador vai estar interligado a rede (o último que troquei pedi o mais burro possível) e ele que talvez encomende para ti o que estará faltando em sua casa. Computadores pessoais, principalmente os Lap-tops de grandes marcas serão uma porta de entrada para tudo, pois interligados a rede telefônica e com protocolos de identificação de tudo que tiver de “inteligente” na sua casa, desde portas de segurança, iluminação, portões de garagens, até aparelhos de ar condicionados, poderão começar a “ganhar vida própria” que na realidade serão protocolos que outras pessoas que manipulam estes sistemas governarão a sua vida.
    Sugestão: Telefone é muito bom, principalmente se ele for utilizado somente para telefonar e não para comandar o que comes, a luzes que acendem e as portas que abrem…..

  2. Acordem amigos! Ninguém segura a China, nem os avanços da tecnologia. Junte os avanços da inteligência artificial (IA) à grande capacidade de transmissão de dados sem fio do 5G. Uma máquina fantástica, no mínimo. Imaginem a capacidade bélica de um drone com esses recursos?

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