Gestão do (e não da) Caixa, por Fernando Nogueira da Costa

Ainda não apareceu o esperado conflito distributivo, no atual processo inflacionário, porque o lado trabalhista está sem poder de barganha sindical. 

Gestão do (e não da) Caixa

por Fernando Nogueira da Costa

Cartões de crédito dão a seus possuidores o direito de fazer compras em estabelecimentos comerciais, independentemente de pagamento imediato. O possuidor de cartão por aproximação, emitido com a tecnologia NFC (Near Field Communication), faz pagamentos apenas aproximando-o das maquininhas sem digitar a senha. Por segurança, existe um limite máximo permitido para essas transações.

A instituição financeira emissora do cartão se incumbe de pagar ao vendedor e cobrar a dívida do comprador, possuidor do cartão, em parcelas mensais acrescidas ou não de juros. De imediato, ele estimula poderosamente o consumo, por não se sentir “a dor de tirar papel-moeda do bolso” – e ficar mais pobre.

Os cartões de crédito, bastante difundidos no Brasil (mais de 134 milhões ativos), são também uma forma de crédito direto ao consumidor. O comprador passa a usufruir imediatamente de um bem a ser pago com sua futura renda pessoal, seja do trabalho (salário), seja financeira (juros).

Em compras com várias parcelas sem cobrança explícita de juros, por causa da não diferenciação entre preço à vista e preço a prazo, ele deve avaliar o custo de oportunidade em não pagar juros – e ganhar, enquanto isso, juros. Isto se já tiver a quantia para o pagamento.

As próprias lojas vendedoras financiam o cliente. Daí, em escala cada vez maior, a “indústria de crédito rotativo”, isto é, bancos pagam o vendedor e assumem a cobrança da dívida, além do risco de não-pagamento. O lucro é obtido pelos juros extorsivos cobrados do comprador adimplente, pagando pela grande proporção de inadimplentes.

“Dinheiro de plástico” é a denominação popular e equivocada dos cartões de crédito. No caso de cartão de débito, tal como é o cheque, ele é uma ordem de transferência de depósito à vista do comprador para o vendedor.

Em determinadas circunstâncias, substituem com vantagem a moeda legal, seja o papel-moeda, seja essa ordem de transferência entre contas correntes. Além de aumento da segurança, eles evitam problemas de troco, inclusive ao efetuar compras de baixo valor.

Usa-se e abusa-se de cartões de crédito para adquirir bens destinados apenas a destacar a posição social. “Consumidores compram coisas das quais não precisam, a fim de impressionar gente das quais não gostam, com dinheiro o qual não têm”…

Também muitas empresas não-financeiras negociam o tempo – e não com o dinheiro, pois não o têm! Buscam pagar a prazo e receber à vista. Com o dinheiro das vendas pagam os compromissos de compra.

Paradoxalmente, em Terrae Brasilis, o vendedor força o comprador pagar a prazo com cartões de crédito. O comprador pensa: gosto de ele pensar estar me enganando com preço a prazo igual ao preço a vista, mas ao pagar mais adiante vou contar com mais rendimentos de juros, em tese, perdido por ele, vendedor.

O problema é com isso o custo de vida no país ser mais elevado em relação a caso houvesse diferenciação de preços. Ocorre um repasse do custo das vendas a prazo para todos os compradores com o mesmo preço, usando ou não cartões de crédito.

Mas, desde a revolução financeira na Holanda, um século antes da revolução industrial inglesa, ocorrida no século XVIII, não se consagrou essa ideia-chave do capitalismo? Não se passou a usar dinheiro de outras pessoas em benefício de si próprio?

Por essa defasagem no tempo de pagamentos e recebimentos, a gestão dos fluxos de entrada e de saída do caixa, as variáveis como a conta a pagar para fornecedores, a redução ou a recomposição dos estoques e as contas a receber de clientes consumidores devem estar sob controle contínuo dos comerciantes. Em contexto de elevada taxa de juro básica, as opções de acesso ao mercado de capitais pioraram.

Como se diz em “financês”, recorrer a um ‘follow on’ (emissão subsequente de ações) ou ao lançamento de debêntures (títulos de dívida direta das empresas) se tornou uma opção com ‘valuations’ muitos descontados. Recorrer à dívida bancária (capital de giro) está mais caro, mesmo para empresas de primeira linha.

A avaliação dos negócios envolve o tamanho do saldo final do caixa de produtores/fornecedores e das redes comerciais. Essa espécie de “colchão financeiro” reúne as aplicações disponíveis em bancos e os recebíveis possíveis de serem antecipados.

Um iconoclasta, Ignácio Rangel, revelou em seu livro “A Inflação Brasileira”, publicado em 1963, uma relação possível de se estabelecer entre a velocidade da circulação da moeda e a inflação. Ela tende a crescer nos períodos inflacionários, indicando uma rotação mais rápida, o inverso do observado nos períodos de estabilidade de preços, quando tende a diminuir.

Uma hipótese levantada por mim, a partir da releitura de Rangel, é as atuais condições financeiras possibilitarem o índice de preço seguir uma tendência de elevação maior, em comparação à do volume monetário, afetado pela política de juros. Cada meio circulante, inclusive os cartões de crédito, com o transcorrer do tempo, tende então a prestar um serviço maior de pagamentos.

Quando o produto nominal cresce, ele demanda mais dinheiro para a realização das vendas dos produtos. Caso o produto real ainda crescer, apesar da política recessiva implementada pelo Banco Central, em busca de estancar o volume de meio circulante, a velocidade deste crescerá acima do ritmo do crescimento dos preços.

Na Teoria Alternativa da Moeda, organizada na minha Tese de Livre-Docência, suponho uma variação autônoma do nível dos preços. Seria explicada por uma teoria da inflação não monetária, seja por inércia, seja por expectativa de aceleração, devido à indexação ao preço-líder ou à correção cambial.

A elevação da média ponderada dos preços da cesta básica de consumo poderia ser resultante das variações dos preços relativos de alguns bens e serviços (choques) não compensadas pelas variações em sentido inverso dos preços dos demais.

Se for crescente o índice de preços, aumentaria o meio circulante e/ou sua velocidade e/ou uma parte do produto real seria retirada do mercado, temporariamente. Não se refere a todo o produto nacional, mas apenas ao fluxo de bens e serviços no mercado.

A temporalidade da retirada do mercado de parte da produção sob forma de estoque é desconhecida. Pode durar um tempo imprevisível, se a empresas não-financeiras obtiver capital de giro para carregar o estoque sem se incomodar com o custo de oportunidade.

Na economia brasileira, institucionalizou-se também outro encaminhamento: a elevação do nível dos preços induziu a postergação dos pagamentos com cartões de crédito – e crescente endividamento.

Se continuar a resistência em promoção de baixa de preços, pode também resultar no perecimento ou obsoletismo do produto retido. Nem tudo é durável ou não perecível…

A hipótese de Rangel lançou os heterodoxos brasileiros por caminhos inteiramente inexplorados pelos ortodoxos. Ao invés do reajustamento dos preços relativos para o nível anterior sem inflação, postulados pelos monetaristas, haveria um declínio do nível de renda real tal como se observa atualmente na economia brasileira.

O crescimento dos estoques tende, evidentemente, a induzir uma queda no nível de atividade. Em consequência, cai nível de emprego de trabalhadores pelas empresas empenhadas nesse processo de retenção de mercadorias não vendidos àqueles preços fixados. Ao manter-se indefinidamente nesse estado das coisas – estocada e com ociosidade da capacidade produtiva instalada –, e economia se encaminha para uma depressão.

Em diversos pontos (componentes) do complexo sistema econômico-financeiro começarão a aparecer empresas ou atividades setoriais em dificuldades. Ameaçarão a lançar seus trabalhadores ao desemprego, mobilizando-se então novos contingentes para ações políticas coletivas a exercer pressão sobre os líderes governamentais.

O enredo é a sociedade civil, com base em imaginária Teoria Conspirativa, armar uma armadilha para a sociedade política. O Estado será pressionado a exercer seu papel na tragicomédia da inflação. O governo de plantão será punido, eleitoralmente, caso se recuse a fazê-lo.

Ainda não apareceu o esperado conflito distributivo, no atual processo inflacionário, porque o lado trabalhista, apesar da massa salarial real em queda, está sem poder de barganha sindical. Portanto, sofre um fenômeno de estagflação desigualitária ou estagtração = estagnação + concentração de renda e riqueza financeira.


Fernando Nogueira da Costa – Professor Titular do IE-UNICAMP. Autor do livro digital “Liberalismo versus Esquerdismo” (2022). Baixe em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: [email protected].

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