Desaceleração chinesa pode ser duradoura

Folha de S.Paulo

Sob freio, China traz risco e chances aos emergentes

Analistas já preveem “década perdida” para a economia do país adiante

Para o Brasil, cenário chinês preocupa os exportadores de commodities, mas pode ser favorável à indústria

MARCELO NINIO – DE PEQUIM

Com a desaceleração chinesa confirmando-se como uma tendência duradoura, analistas e empresários já falam em uma “década perdida” adiante, de ajustes para equilibrar uma economia ineficiente e endividada.

Países exportadores de commodities passarão por um período “doloroso”, diz o economista Michael Pettis, da Universidade de Pequim.

É o caso do Brasil, que se beneficiou do apetite da China por matérias-primas, sobretudo minério de ferro.

Mas Pettis afirma que a nova realidade dá oportunidades à indústria dos países emergentes, até então atropelada pelos chineses.

O aumento da dívida reduz a capacidade de investimento estatal para gerar crescimento, afetando demanda e preços de matérias-primas.

O economista Wang Tao, do banco UBS China, estima que, somados empréstimos e títulos emitidos pelos governos central e locais, o montante chegue a 60% do PIB (Produto Interno Bruto).

A nova liderança do país, que assumiu em novembro, fixou em 7,5% a meta de crescimento para este ano, abaixo dos 7,8% de 2012 e bem menor que a taxa anual de dois dígitos mantida em boa parte dos últimos 30 anos.

A expansão de 7,7% no primeiro trimestre de 2013 decepcionou os mercados, que esperavam uma taxa em torno de 8%. Pior, uma pesquisa do banco HSBC divulgada na quinta-feira indica que a atividade industrial encolheu pela primeira vez em sete meses, criando dúvidas sobre a meta de expansão do PIB.

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PELA QUALIDADE

O governo afirma que o foco passa a ser o crescimento qualitativo, mesmo que num ritmo inferior, de forma a conter os efeitos indesejados da expansão acelerada, como danos ao meio ambiente e desigualdades sociais.

Apesar do impacto na economia mundial, que se acostumou a ter na China seu principal motor de crescimento em tempos de crise, isso pode ter um lado positivo, disse à Folha Joseph Stiglitz, Nobel de Economia em 2001.

“É bom que a China enfatize mais a qualidade que a quantidade do crescimento”, disse Stiglitz durante conferência em Pequim. “Questões como o meio ambiente são globais e é recomendável que outros emergentes tirem uma lição do custo do crescimento acelerado.”

O esfriamento da economia gerou expectativa de que o governo lançasse um pacote de estímulo. Mas, diante do alto endividamento, a possibilidade parece descartada.

“A dependência excessiva de ações do governo para estimular o crescimento não só é insustentável, mas criaria novos problemas e riscos”, afirmou o premiê chinês, Li Keqiang.

A transição para uma economia mais equilibrada, voltada para o consumo, pode já estar em curso. Nos primeiros três meses de 2013, o setor de serviços contribuiu mais para a expansão do PIB que a indústria, pelo terceiro trimestre consecutivo.

Mas a redução do investimento ameaça a meta do governo de aumentar o consumo interno e ser menos dependente de exportações, em queda com a baixa demanda dos EUA e da Europa.

Em estudo recente, o FMI (Fundo Monetário Internacional) mostra o tamanho do dilema: nas áreas mais pobres, onde praticamente a única fonte de renda está em projetos de infraestrutura do governo, o consumo está diretamente associado ao investimento público.

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“Seus leitores mais velhos vão se lembrar de algo parecido no milagre econômico brasileiro dos anos 70”, compara Pettis. “Em seus primeiros estágios, o crescimento econômico na China foi rápido, porque o investimento ia para a expansão da infraestrutura. Mas, como ocorreu no Brasil, num certo momento a dívida fica maior que a capacidade de crescimento.”

PROGNÓSTICOS

Pettis é dos que projetam uma “década perdida”. Ele estima que a taxa média de expansão anual ficará entre 3% e 4%. “A era do crescimento de dois dígitos ficou para trás e não voltará”, diz.

Teng Tai, economista-chefe do banco Minsheng, é menos pessimista. Acredita que haja potencial de crescimento para fazer um pouso suave, com taxas anuais de expansão acima de 7%. Mas alerta: “O governo vai precisar diminuir o tamanho do Estado na economia.”

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