Nova Economia: Fluxos e Estoques, Feedback de Retorno e Atrasos, por Fernando Nogueira da Costa

Vivemos uma estagdesigualdade: estagnação econômica com elevada concentração de riqueza.

Tiago Hoisel

Nova Economia: Fluxos e Estoques, Feedback de Retorno e Atrasos

por Fernando Nogueira da Costa

Para uma visão holística da Nova Economia como um dos componentes de um sistema complexo, emergente das interações entre todos eles, busca-se um novo conhecimento transdisciplinar, onde insights de distintas metodologias científicas são integrados. O objetivo é superar a compartimentalização da antiga divisão de trabalho científico.

Os economistas sofrem de complexo de inferioridade científica. Apelam então ao argumento de autoridade. É uma falácia lógica, onde se usa a reputação de algum cientista a fim de validar o argumento. A conclusão se baseia exclusivamente na credibilidade do autor da proposição e não nas razões apresentadas para sustentá-la. 

É o caso quando eles se inspiram nas Leis do Movimento de Newton para teorizar, tratando O Mercado – um ser sobrenatural por conta de ser onipresente, onisciente e, contraditoriamente, onipotente – como um mecanismo pendular. Via alterações de preços relativos seria convergente, de maneira inexorável, para um equilíbrio geral.

Economistas constroem narrativas metafóricas para designação de uma qualidade mediante uma palavra capaz de designar outra qualidade com a qual guarda uma relação de semelhança. No caso da Lei da Gravidade, a atração gravitacional de renda atrai trabalhadores despossuídos para empregos oferecidos por empreendedores. 

O problema é essa demanda e oferta de empregos serem independentes. Em depressão, mesmo aceitando rebaixamento de seus preços relativos (salários reais), novas gerações de trabalhadores não encontram ocupações quando os empregadores não tomam decisões de gastos em investimentos, isto é, de ampliação da capacidade produtiva. 

“Equilíbrio com desemprego”, rigorosamente, não existe. Existe sim, no mundo real, uma economia de desequilíbrios. 

Há dois grandes temas a serem tratados na Ciência do Século XXI. O primeiro se refere aos modos relacionais de pensar sobre o mundo:  não existe nada fixo, nem espaço, nem tempo absoluto, tudo está em relação a outras coisas. O segundo trata da auto-organização da seleção natural via regras de originação-adoção-retenção e/ou reprodução com adequação. A evolução do pensamento sobre a sociedade caminha em direção da união dessas duas grandes ideias advindas, respectivamente, do relativismo einsteiniano e do darwinismo evolucionário.

Sob inspiração de Charles Darwin, compreendemos melhor a Nova Economia como um complexo sistema adaptativo, composto de seres humanos e instituições interdependentes em um mundo dinâmico e vivo. O organismo de mercado supera o mecanismo de mercado. Isto já está nas mentes de economistas atualizados. Resta conquistar os corações dos demais. Ops, mentes… porque parece não terem corações.

Sistema complexo é um conjunto de componentes, entre os quais a atividade econômica. Suas interações propiciam a emergência de padrões distintos de comportamento ao longo do tempo. Há auto-organização sem autoridade ou planejamento central. A conjuntura ou configuração atual é composta de fatos transcorridos em um processo socioeconômico e político ainda em andamento.

As condições iniciais são desconhecidas porque decisões ex-ante são vistas por resultados ex-post, isto é, a partir da provisória “linha de chegada” atual. Os analistas observam as regras de interações, mas não têm a possibilidade de dedução precisa da dependência de trajetória caótica. A história importa, mas o futuro é desconhecido.

Daí vem a piada corporativa: Cristóvão Colombo foi um economista, porque quando partiu não sabia onde ia, quando chegou não sabia onde estava… e tudo isso por conta de dinheiro público. Nós, economistas, não sabemos de onde viemos nem para onde vamos! Resta-nos fazer modelagens em escalas menores da realidade configurada.

O pensamento sistêmico se utiliza pelo menos de três outras metáforas para esboçar sua visão holística. Os níveis de um estoque mudam com o tempo devido ao saldo entre suas entradas e saídas, ou seja, devido aos fluxos. Estoque é a quantidade de qualquer ativo (forma de manutenção de riqueza mercantil, financeira, imobiliária, etc.), acumulado seja para venda com preço superior ao da compra (“regra de ouro” do comércio), seja para geração de fluxos de rendimentos (juros, alugueis, dividendos, etc.).

Ciclos de feedback, por sua vez, são interconexões de reforço (“positivo”), como juros compostos, ou de balanceamento a ser equilibrado (“negativo”), como a confiança na moeda nacional. Com reforços de feedback, quanto mais se tem, mais se ganha. Sem controle ou regulação, amplificam o movimento em círculos virtuosos ou viciosos

A terceira figura concebida para acompanhar o dinamismo econômico, isto é, variações ao longo do tempo, diz respeito aos atrasos nos fluxos para acumulação de estoque. Podem gerar obstinação no sistema: um tempo demasiado para regeneração, por exemplo, da confiança no sistema financeiro depois de uma corrida bancária.

Fluxo é o ato ou efeito de fluir, de se movimentar de modo contínuo, se refere à circulação. No sentido figurado, fluxo é a sucessão de acontecimentos, é uma grande quantidade de fatos, de ideias ou de ações.

Fluxo de caixa é um instrumento usado pelo empresário para acompanhar a situação financeira de seu negócio. Registra todos os recebimentos e pagamentos realizados pela empresa. O fluxo logístico integra os diversos fluxos: de transporte de produtos, de materiais, de informações e até o fluxo financeiro. Compõem o todo organizacional.

No processo produtivo, são gerados um fluxo (real) de produtos e um fluxo (nominal) de renda. Este último pode ser destinado ou aos gastos ou às aplicações em saldos e estoques. Aquele primeiro dirige-se para atender à demanda no mercado. O circuito dos dois fluxos pode não se encontrar na mesma proporção, gerando estoques. O fluxo financeiro é cada parcela de capital-dinheiro capaz de fluir dos consumidores em direção aos fabricantes, dos depositantes para os bancos, destes para empréstimos, etc. 

Se feedbacks reforçadores fazem um sistema se mover, então os feedbacks de equilíbrio balanceado o impedem ele explodir ou implodir. O Estado busca os utilizar para compensarem os acontecimentos negativos como os atrasos entre os fluxos. Em lugar do “mecanismo de mercado”, tentam regular o sistema complexo em âmbito nacional. 

Problema surge quando os esforços discricionários estabilizadores se transformam em desestabilizantes por causa das “falsas partidas-e-paradas”. A economia já teria se alterado quando começariam a surtir os efeitos da política econômica discricionária. Por isso, economistas neoliberais optam por “regras”, ou seja, uma programação apriorística para não perturbar o livre funcionamento das forças de mercado. Os keynesianos optam por “arbítrio” com rígida fiscalização administrativa sobre a atuação dos bancos na alavancagem financeira de inflação de ativos e/ou controles seletivos.

Há cinco estágios de um ciclo arquetípico de endividamento em longo prazo. Em cada qual, pode ser conceber uma boa e uma má política econômica. Para enfrentar uma bolha (inflação em ativos como ações ou imóveis), a boa política econômica previne o crescimento excessivo de dívida e a inflação em ativos com políticas macroprudenciais e política fiscal rígida. A má é permissiva com novos investimentos financiados por dívida de especuladores, apostando na tendência de alta dos preços com juros baixos demais.

No topo ou auge do ciclo, depois do controle, deve-sefacilitar a retomada do crescimento, via políticas setoriais seletivas, mas estimulantes, e não continuar o aperto da política monetária, mesmo depois de estourar a bolha. Durante a depressão, cabe fornecer ampla liquidez, reduzir rapidamente as taxas curtas de juros, buscar monetizações agressivas, adotar estímulos fiscais e proteção para os bancos “too big to fail”. Os maus operadores são lentos em cortar a taxa de juro, fornecem liquidez limitada, adotam austeridade fiscal e abandonam bancos sistemicamente importantes.

Na desalavancagem financeira, as retomadas começam com monetizações agressivas por meio de compras de ativos ou grandes depreciações da moeda, o suficiente para levar o crescimento nominal do PIB acima das taxas de juros nominais. No entanto, os despreparados vacilam nas monetizações iniciais, são discretos nas compras de ativos de risco, justificando-se em evitar o “efeito-riqueza”, além de prejudicarem o estímulo da política monetária, dada a obsessão por austeridade e/ou ajuste fiscal.

A normalização ocorre quando as forças depressivas de inadimplência e austeridade se equilibram com as forças reflacionárias de monetização da dívida, depreciações cambiais e estímulo fiscal. As “depressões inflacionárias feias” surgem nos casos onde os formuladores de políticas permitem a confiança na moeda nacional entrar em colapso ao imprimir excesso de dinheiro ou baixar excessivamente a taxa de juro. Quando a economia é dependente de capital estrangeiro, para o equilíbrio do balanço de pagamentos, a queda do cupom cambial leva ao repatriamento desse capital-motel. Tal como estamos observando aqui-e-agora na atual cena brasileira.

Vivemos uma estagdesigualdade: estagnação econômica com elevada concentração de riqueza. Nessa situação, há uma desilusão monetária: em renda fixa, juros nominais elevados importam para grande volume de negócios. Senão, ao se priorizar acumulação de reservas financeiras para aposentadoria, há menor propensão a consumir.

Fernando Nogueira da Costa – Professor Titular do IE-UNICAMP. Autor de “Métodos de Análise Econômica” (Editora Contexto; 2018). http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: [email protected].  

Fernando Nogueira da Costa

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