A luta pela sobrevivência, por Jota A. Botelho

A luta pela sobrevivência, por Jota A. Botelho

A luta pela sobrevivência está muito bem representada no filme A Ilha Nua (The Naked Island, 1960), do cineasta japonês Kaneto Shindô, que viveu nada menos que 100 anos. Nascido em 1912, na cidade de Hiroshima, onde conviveu com a tragédia que se abateu sobre a nação, em que ele procurou retratar os estragos da bomba atômica em grande parte de seus filmes, como em Filhos de Hiroshima (1952) e A Mãe (1963), ambos passado na cidade vítima de seu efeito devastador, veio a falecer no mesmo local em 2012. Sobre A Ilha Nua, Shindô se inspirou no trabalho duro de seus pais, onde lembra sobretudo da mãe, que se tornaram de ex-proprietários de terra falidos em agricultores. Sobre o filme, de uma beleza plástica impressionante e completamente sem diálogos, pontuado pela música inebriante de Hikaru Hayashi, ele o descreve como “um poema cinematográfico para tentar capturar a vida de seres humanos lutando como formigas contra as forças da natureza”.  E é nesta poesia visual que vamos ver a vida cotidiana de um casal e seus dois filhos numa luta diária de ‘Sísifo’ de trazer água para ilha desolada onde vivem e ganham o seu sustento e o sustendo dos seus. É de um humanismo arrebatador.

 A ILHA NUA, de Kaneto Shindo, 1960 

Kaneto Shindô fez deliberadamente com que os atores carregassem baldes cheios de água como se parecessem burros, com cargas no lombo em duas dobras, para simbolizar a dureza de suas vidas. A Ilha Nua evoca a rotina de vida e suas necessidades longe da civilização, através do som constante do barulho das águas realçando sua importância na sobrevivência daquela família criando assim uma empatia sobre a dor e o sofrimento em todos nós. Acrescido da melodia que se repete quase à exaustão ao longo do filme para nos revelar o quanto o trabalho duro e quase sem descanso pode nos levar ao esgotamento. Algo que se propõe hoje em dia em nosso país. Sem contar com a fotografia de Kiyoshi Kuroda, que capta cada área da ilha e seu entorno com tanta clareza que a constante luta da família se torna profundamente comovente. Além do cenário, no entanto, A Ilha Nua enfatiza a determinação inabalável em face da adversidade esmagadora: a única recompensa que a família recebe por sofrer às provações da ilha é ser capaz de continuar vivendo até que sua força de vontade compartilhada se esgote. Portanto, a parte importante aqui é o trabalho da família sobre a necessidade básica de sua sobrevivência, sendo desafiada incessantemente pelo trabalho duro já que este se tornou o único processo. Até quanto? Poderíamos perguntar. Finalmente, como em quase toda história humana de vida há sempre uma tragédia. Aqui é quando um dos filhos fica doente e o pai se apressa para buscar um médico no continente, mas a viagem é longa, muito longa. Quando ele retorna o filho já está morto. Após o funeral, vemos o marido e a mulher continuarem suas tarefas ingratas de regar as suas plantações. Mas de repente, a mulher se abaixa e começa a destruir suas preciosas plantas em tumulto. Ela cai e solta um grito agudo e assustador de angústia. O marido lhe dá um olhar desolador, diferente de quando ele a esbofeteou quando ela deixou cair parte da água numa cena nos primeiros 1/3 do filme. Mas esta me parece ser a chave para entender as intenções de Shindô. Viver é um fardo, mas devemos lutar sempre para sobrevivermos, afinal somos filho do trabalho. Kaneto Shindô foi afortunado com este filme ao ganhar o grande Prêmio do Festival Internacional de Cinema de Moscou em 1961, dentre outros. Curta esta pequena obra-prima do cinema japonês e mundial, disponível agora no Youtube.

https://www.youtube.com/watch?v=watGzwZ6S-c align:center
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