Alien Covenant, da ficção espacial à realidade brasileira, por Fábio de Oliveira Ribeiro

Alien Covenant, da ficção espacial à realidade brasileira

por Fábio de Oliveira Ribeiro

Na estrutura profunda da primeira quadrilogia Alien vemos quase sempre o mesmo tema: a vontade feminina inata de sobreviver sobrepujando a brutalidade irracional e gratuita de um predador que se pretende domesticar e que não pode ser domesticado. Alien era então uma síntese perfeita do capitalismo predatório que inexoravelmente devora até mesmo seus maiores defensores.

Em Prometheus o tema da franquia se tornou mais sofisticado. Cada personagem procura algo e encontra o oposto o que deseja. A viagem espacial era desnecessária e sua realização temerária só proporciona dor, perda e morte. O que há de especificamente humano no criador (no imenso homem branco que parece um deus) é a sua propensão à violência genocida. O bunker em que ele dorme é um depósito de armas de destruição em massa.

No filme Alien Covenant, após sofrer um acidente que priva-os do comandante os pioneiros chegam à um planeta que parece ser perfeito para o estabelecimento de uma colônia. Mas as aparências enganam. O planeta habitado pelos construtores da nave alienígena encontrada por acaso no primeiro filme da quadrilogia original já foi totalmente devastado por um genocídio.

A sequencia de  Prometheus tematiza o fracasso de toda tentativa de colonização e a punição do criador pela criação de sua criatura. Não por acaso o diálogos mais interessantes deste filme ocorrem entre dois seres sintéticos: o David da nave Prometheus e o David da Covenant.

Prometheus funciona como uma crítica à religião e à ciência. Alien Covenant problematiza um dos mitos fundadores mais caros à civilização norte-americana: a possibilidade da civilização recomeçar de maneira perfeita numa terra virgem, desabitada e livre do mal. Onde quer que for o homem e aquilo que ele cria levará consigo a semente da perversidade. O novo mundo será bom se nós formos gentis, diz ironicamente o protagonista que é incapaz de ser gentil.

O pessimismo de Ridley Scott encontra sua perfeita definição no fragmento de uma obra de Shelley de 1818 que é recitada pelo David da Prometheus como sendo de Biron.

“Meu nome é Ozymandias, rei dos reis:

Olhai as minhas obras, ó poderosos, e desesperai!”

Nada restante permanece: em volta da decadência

Daquele colossal naufrágio, sem limites e nu,

As areias solitárias e niveladas se estendem para longe.

O desespero e a impermanência como fruto da falta de gentileza (do capitalismo, do ser humano, do criador e de todo empreendimento colonial) une profundamente a quadrilogia original Alien aos filmes Alien Covenant e Prometheus. Raramente um filme de ficção foi capaz de falar tanto sobre algo que realmente interessa num momento tão propício.

Como disse, o filme de Ridley Scott tematiza a tragédia colonial. Isto ocorre no exato momento em que o Brasil está sendo recolonizado para que nosso petróleo possa ser explorado com lucro apenas por estrangeiros. Sobre este assunto vide https://jornalggn.com.br/blog/fabio-de-oliveira-ribeiro/a-marcha-da-recolonizacao-do-brasil. Portanto, não posso deixar de recomendar o filme Alien Covenant às vítimas desta recolonização. Mas se os interessados puderes pagar meia ou obter uma cópia pirata tanto melhor. Não precisamos ser gentis com aqueles que nos exploram num momento em que a população brasileira está sendo programaticamente empobrecida para que os estrangeiros possam roubar com lucro o pré-sal.

 

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