O homem que fez JK

Um dos personagens símbolos da época de ouro do Rio de Janeiro foi o empresário Horácio Carvalho Jr.. Elegante, amante da boa mesa e das mulheres bonitas, nos anos 40 dominou a cena do Rio, junto com sua esposa Lilly, com Walther Moreira Salles e Helene, Aloysio Salles e Peggy.

Cedo, se aproximou de José Eduardo Macedo Soares, até o advento de Carlos Lacerda e Samuel Wainer considerado o “príncipe dos jornalistas brasileiros”. Homem de coragem épica, Macedo Soares era homossexual, morava sozinho em um apartamento, e foi pai de Lotta Macedo Soares que, no governo Carlos Lacerda, faria grandes obras na cidade, como o aterro do Flamengo. Bem mais velho que Horácio, Macedo Soares o adotou como o filho que não teve.

Juntos, José Eduardo e Horácio deram início a uma empreitada jornalística que produziu um dos jornais mais influentes da República, o “Diário Carioca”. O jornal era francamente pró-Dutra e anti-Vargas. Quando Vargas foi reeleito em 1951, a dupla se desfez do jornal. Depois, o recomprou de Danton Jobim.

Horácio teve papel decisivo na eleição de Juscelino Kubitscheck. De JK, Délio Mattos (não confundir com o brigadeiro), executivo de empresas de Horácio, ouviu uma frase reveladora: “Eu devo a esse homem o governo de Minas e da República”.

Foram duas as contribuições de Horácio. JK tinha como vice-governador Clóvis Salgado, do PRM (Partido Republicano Mineiro), liderado pelo ex-presidente Arthur Bernardes. Se não houvesse acordo com o PR, JK sairia para a campanha presidencial deixando em seu lugar, no seu próprio estado, um adversário político.

Coube a Horácio costurar a aliança, que consistiu em JK apoiar a candidatura de Arthurzinho Bernardes (o filho do Arthurzão) para o Senado.

O segundo grande movimento de Horácio foi em uma conversa com Jango, que lhe comunicou que estava saindo para convidar Oswaldo Aranha para ser o candidato à presidência pelo PTB. Horácio foi incisivo:

— Então você, como político do Rio Grande do Sul, estará liquidado, porque a liderança será do Aranha. Porque não se liga a JK?.

Jango respondeu não ter a menor intimidade com Juscelino. Horácio resolveu na hora:

— Podemos marcar um encontro de você com ele. Vou ligar para Belo Horizonte e perguntar se Juscelino pode vir para cá imediatamente.

JK atendeu imediatamente ao chamado do amigo e, na seqüência, acertou a dobradinha com Jango, que lhe garantiu a eleição. JK deixou uma carta com Horácio, autorizando-o a compor com Jango o ministério que caberia ao PTB. Depois, ofereceu o Ministério da Agricultura e a embaixada de Paris para Horácio, que recusou ambos, alegando que a embaixada era cargo para gente rica.

Nos anos seguintes, se não era rico, rico Horácio se tornou. Junto com Raimundo Mello Vianna, adquiriu a Mineração Morro Velho, envolta em grandes problemas trabalhistas e, depois a CBMM. Foi um momento histórico, aquele da nacionalização de um símbolo nacional, a mina de ouro mais profunda do mundo.

Passado o governo Vargas, Horácio se voltou novamente para o “Diário Carioca”. Foi para a Europa, comprou uma rotativa alemã e abriu escritório na Avenida Rio Branco 25, Sobre Loja. Fez uma revolução, com uma equipe onde pontificavam Danton Jobim e Pompeu de Souza. Lançou o estilo das notas curtas, próprias para os novos tempos, em que as pessoas liam os jornais enquanto tomavam ônibus e bonde, lançou o Suplemento Literário e o Carioquinha, um suplemento infantil.

Quando veio a Revolução, constatou que o jornal não poderia sobreviver sem um clima de liberdade. Chamou Délio, mandou-o quitar todas as dívidas, pagar as indenizações, dispensar os funcionários e fechar o jornal. O DC tinha 35 mil assinantes espalhados por todo o Brasil.

No dia 31 de dezembro de 1966, data do fechamento do jornal, os jornalistas do Rio acorreram em massa à redação do jornal e choraram, juntos com os que saíam, a morte de parte da história da imprensa.

Horácio morreu em 1983.

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