O ritual de Finados

Crônica – 04/11/2006

UM CONJUNTO de circunstâncias me traz de volta a Poços de Caldas justo no Finados. Meus mortos queridos estão espalhados. Em Poços estão as tias Rosita, Marta, o tio Léo, meu avô paterno Luiz e tia Tata, que não conheci. Perto daqui, em São Sebastião da Grama, estão minha avó Martha, minha tia- avó Mariana, algumas tias-avós e meu avô Issa, figura referencial em minha vida. Em São Paulo, meus pais.

É estranho esse ritual da morte. Minha mãe tinha hipercolesterol, sua contagem chegava a mais de 800. Em 1977 foi se consultar em um convênio, conheceu o Zé Renato, da equipe do Sérgio Oliveira, que a levou dali para a UTI e para uma operação de safena. Em 1982, outra cirurgia, e as mãos mágicas do Sérgio lhe deram mais sete anos de sobrevida.

Depois disso, praticamente a cada mês dona Tereza tinha uma crise cardíaca. Mudei-me para seu prédio, na Abílio Soares, para poder estar perto dela e de meu pai, derrubado por um derrame.

O telefone tocava, muitas vezes de madrugada, eu me trocava, pegava o carro e a levava ao Incor. Chegávamos, ela ia para a maca, me chamava, me fazia uma declaração de mãe e nos despedíamos sem saber se nos veríamos mais. No dia seguinte, ela se recuperava da crise e voltava para casa. Depois disso, até a crise cardíaca seguinte ficávamos quase sem conversar, embora nos víssemos diariamente.

De um lado, as rotinas me tornaram um obcecado com telefone. Tocasse, a que horas fosse, me levantava correndo para atender. Quando viajava, ligava para saber como estava. Quando chegava de viagem, também. Eram conversas curtas, quase secas, desde um dia qualquer da minha mocidade em que seu excesso de interferências em minha vida me fez construir algumas barreiras defensivas. De outro lado, a rotina das idas ao Incor criava a sensação de que ela sempre voltaria, que a última crise sempre seria adiada.

A última crise aconteceu um ano depois da morte de meu pai, um enfarte com embolia pulmonar. Alguns meses antes, dona Tereza havia procurado médicos para saber da possibilidade de uma terceira cirurgia. Disseram-lhe que não era mais possível, o colesterol já tinha se espalhado por todo o organismo. Subiu até meu apartamento, sentou-se na minha cama e me contou. Ouvi quase com indiferença, como se fosse a repetição do ritual de entrar e sair da crise. Não sei se autodefesa, não sei se o fato de ter me acostumado com a rotina das crises, não sei se a dificuldade extrema de aceitar a morte, não me deixavam assimilar um desfecho mais que previsível.

Na noite em que ela se foi saí da televisão e passei no hospital. Ela estava dormindo. Acariciei seu rosto, ela abriu os olhos e me olhou com um olhar terno e surpreendentemente calmo.

Fui para casa dormir. Pouco depois da meia-noite ela se levantou, passeou pelo corredor do hospital. Era a visita da saúde. Morreu às 3h. Naquela noite o telefone tocou, tocou e, pela primeira vez, não acordei. A empregada precisou bater na porta do quarto. Foi a mais brutal sensação de perda que já tive, como se tivesse amputado um braço e o continuasse sentindo. Nos meses seguintes, voltava das viagens e me via buscando o telefone para ligar para ela. Nos domingos, acordava pensando no almoço de família, e ela não mais estava entre nós.

Agora, em São João, me encontro com o Nelsinho Nicolau e recordamos o bilhete que ele me mandou me confortando, narrando sua experiência com a morte de seu pai.

No início, é aquele vazio dilacerante. Depois, à medida que o tempo vai passando, as dores começam a cicatrizar. Mais à frente, vão se reconstituindo, pedaço por pedaço, sentimentos, lembranças, histórias. E vai emergindo não mais uma lembrança, mas uma presença muito mais intensa e permanente do que as nesgas de convivência que o ritmo frenético das metrópoles nos impõe.

Agora, sob o céu estrelado e o clima ameno de Poços, me recordo dos meus mortos com sensação de calma, de alma pacificada. Aí olho para minhas menininhas e me maravilho com o milagre permanente das gerações.

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