Uma nova Anunciação

Para ouvir enquanto lê

Minha amiga tem mil doçuras. Na voz, que embala cristalina e saudosa as lembranças dos cânticos eternos de Minas. No olhar doce e intenso, de quem consegue transmitir ternura sem nada dizer. Na generosidade com que celebra colegas cantores e músicos. Nas composições, sempre relembrando as águas dos riachos de Minas, com todo seu simbolismo de purificação e limpeza da alma.

Quando cantava “Chuá Chuá”, quando mostrava os riachos da sua terra, me lembrava minha tia-avó Mariana, a voz cristalina de minha mãe.

Minha amiga tem a doçura das que nasceram mãe, mas não tinha filhos. Daí sua vontade, desde que nos tornamos amigos, de cantar “Marianinha”, composição minha do início dos anos 80, na qual celebrava o milagre do nascimento da primeira filha, com vários símbolos, a cegonha, o arcanjo, a anunciação, o farol no mar, a estrela de Belém.

A letra é assim:

“Um dia o doutor Bié / qual um Arcanjo bonachão / surgiu nos sonhos da tia Clélia / anunciando a Anunciação. / Dizendo que a dona Cegonha / por um erro de itinerário / deixou o nosso amorzinho, a Marianinha no endereço errado. / Lá fomos nós a procurar / pelos berçários, pelos hospitais, / por chaminés, por todos os quintais / pelos primeiros choros matinais. / Dr. Bié, vem ajudar, pra que possamos encontrar meu bem / vem iluminando qual farol no mar / vem nos guiando, estrela de Belém / Já procuramos pela Mantiqueira / Já percorremos toda Bragantina / atrás dessa menina”.

Dr. Bié foi tio da minha mãe, um ex-prefeito bonachão de Vargem Grande do Sul que morreu em 1970 e, depois, cismava em mandar recados para toda a família através dos sonhos da tia Clélia.

Muitas vezes minha amiga me pediu a letra, muitas vezes combinamos ensaios. O ritmo louco da metrópole e o trabalho incessante me afastaram um tempo da música e dos amigos. Anos atrás, a seu convite, participei de um show colocando alguns desenhos de bandolim em “Azulão”, da Jayme Ovalle, que ela canta lindamente. Mas fazia mais de anos que não reunia músicos em casa para os saraus que, antes, eram quase semanais.

Há dois meses, o MIS (Museu da Imagem e do Som) me convidou para apresentar minhas composições de adolescência, algumas da maturidade. Imediatamente pensei em meus amigos profissionais para interpretá-las. Pelo menos um lado – o da interpretação – ficaria garantido.

A primeira lembrança que me veio foi a minha amiga. Liguei para sua casa, ela atendeu, e lhe falei de, finalmente, da oportunidade de poder ouvi-la cantando “Marianinha”. Aceitou na hora. Enviei arquivo e letra por e-mail, assim como as outras músicas, que foram disparadas para parceiros e amigos.

Dias depois, minha amiga me telefonou. Ao telefone, a voz já trazia os sinais mágicos, dos que viram anjos e estrelas. Me contou que havia passado dois dias cantarolando a “Marianinha” para baixo e para cima. Depois, foi a um exame médico, onde lhe informaram que, finalmente, estava grávida. Tem mais de quarenta anos e a gravidez veio, também, de forma mágica, através de um ex-namorado de dezoito anos atrás. Esse Dr. Bié…

Como era uma gestação complicada, ela ia se voltar ao útero de Minas, passar o período da gravidez em sua cidade. Alugara uma casinha e ficaria por lá embalando desde sempre o filho que sempre quis ter. Motivo pelo qual, ficaria me devendo a apresentação da “Marianinha” no show do MIS.

Contei para a Maricota que ficou emocionada e tratou de escrever para a minha amiga, para acompanhar todos os passos da nova Anunciação. Há duas semanas, Maricota me telefonou triste. A gravidez fora interrompida. Não falei com minha amiga depois disso.

Hoje à tarde, nossos amigos virão em casa para um sarau-ensaio. O Zé Grandão está vindo de Poços, o negão Almeida e o Lineu virão daqui mesmo; virá Ilana e sua voz límpida, Barreto e seu sotaque baiano; Roberta e seu pandeiro.

E, entre nós, estará a ausência doce e silenciosa da amiga. E a expectativa de todos por uma nova Anunciação.

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