Cultura, prostituição e barbárie no filme “Bibliothèque Pascal”, por Wilson Ferreira

Uma mulher desesperada em recuperar a guarda da sua filha. Uma mãe que foi vítima de uma rede europeia de prostituição de mulheres e crianças que realiza sequestros no Leste Europeu para o mercado sexual da elite intelectual e corporativa inglesa. Para ter sua filha de volta, deve relatar onde esteve nos últimos dois anos. Ela descreve o cabaré-bordel chamado “Bibliotheque Pascal”, em Liverpool, repleto de estantes com livros e quartos que recriam em tons futuristas e sadomasoquistas cenas literárias das obras de Shakespeare, Nabokov, Wilde, Shaw entre outros. O filme húngaro “Bibliothèque Pascal” (2010) dança nas bordas entre fantasia e realidade, civilização e barbárie. É impossível não lembrar do pensador alemão Walter Benjamin, principalmente nas sequências do cabaré-prostíbulo. Lá a barbárie não parece ser o avesso da civilização, mas um pressuposto dela. O impulso bárbaro parece não estar fora, mas no interior do movimento de criação e transmissão cultural.


 

“Nunca houve um monumento da cultura que também não fosse um monumento da barbárie”, escreveu Walter Benjamin em sua Tese 7 de “Sobre o Conceito de História”. Essa frase está numa passagem rica de sentidos e interpretações, mas basicamente Benjamin fazia uma reflexão sobre como a barbárie está situada no interior da própria cultura e civilização. Para além da dicotomia tradicional que coloca uma como oposta a outra.

 Se pensarmos que a Grécia Antiga, berço da civilização Ocidental (Democracia, Filosofia, Olimpíadas, Ética, cidadania etc.), foi também uma sociedade assentada na escravidão e que toda a sabedoria da filosofia Oriental surgiu de sociedades estruturadas na violência, segregação e dominação, então temos que concordar com esse tese de Benjamin – por toda a História, civilização e barbárie sempre foram os dois lados de uma mesma moeda.

Parece que a premissa do filme Bibliothèque Pascaldo diretor húngaro Szabolcs Hadju está muito próxima desse insightdo pensador alemão. “Onde há fumaça há fogo. Todas as histórias ficcionais, apesar de fantásticas, têm uma base na realidade”, afirma o diretor para justificar a narrativa sobre uma mãe capturada por uma rede de prostituição como fosse um sombrio conto de fadas.

Bibliothèque Pascaltransita sempre entre os limites entre realidade e fantasia, entre o intelectual e a ignorância, entre a cultura e o instintivo. Mas também vai mais além: como uma coisa se transfigura rapidamente na outra, fazendo o tempo inteiro o espectador recordar que o que assiste não meramente um conto de fadas – por trás da teatralização há uma realidade crua, como se a civilização somente pudesse produzir os produtos mais brilhantes da cultura assentada na violência e barbárie.

Como se a realidade fosse tão demasiado horrível que fosse necessário torna-la teatral, literária para dar um toque de respeitabilidade à perversão sexual e violência. 

Como no bordel exclusivo que dá nome ao filme, misturando literatura, prostituição e perversão.

Por isso, em muitos aspectos, o filme lembrará ao leitor As Aventuras do Barão Munchausen, de Terry Gilliam – as mentiras poéticas do Barão como forma de tornar mais suportável a violência da guerra de uma cidade contra os turcos.

 

 

O Filme

Acompanhamos nas primeiras cenas a húngara-romena Mona (Orsolya Török-Illyés, esposa do diretor) em uma entrevista ao Conselho Titular, uma mãe desesperada tentando recuperar a custódia de sua pequena filha Viorica (Lujza Haidu), atualmente sob os cuidados do Estado depois que foi descoberto os maus tratos da sua protetora, a Tia Nena (Oana Pellea).

Mona irá relatar ao oficial do Conselho o porquê ter deixado a filha sob os cuidados da tia nos últimos dois anos que esteve fora do país. Mas a história que ela contará será fantástica, muito próxima a um conto de fadas sombrio ou as velhas aventuras do Barão de Munchausen.

Porém, onde há fumaça há fogo: o núcleo real da história é cruel e doloroso. Mona era uma produtora de shows de artistas de rua, às voltas com prefeitos mafiosos do Leste Europeu. Abandona um show malsucedido para fugir em direção ao litoral, onde conhecerá o pai da sua futura filha: um fugitivo da polícia homofóbico acusado de assassinar um homossexual, porém sedutor e poético, sempre acreditando em algum destino divino manifesto na sua vida.

Vivendo com sua filha, as oportunidades de sobrevivência não estão nada boas, acabando por cair nas garras do seu pai (Rzvan Hadju), um desonesto cafetão: sob promessas de ter boas oportunidades na Alemanha, acaba caindo numa rede de tráfico de mulheres. Sendo despachada, junto com outras mulheres e também crianças, para o mercado de prostituição da Inglaterra.

 

 

Até aqui a narrativa é em tom felliniano e burlesco – a Tina Nena, por exemplo, uma taróloga, vidente e cartomante charlatã, é um personagem simultaneamente engraçado e amargo.

As coisas tendem para o sombrio com tons futuristas quando conhecemos a “Bibliotheca Pascal” – um bordel exclusivo de Liverpool de propriedade de um dândi chamado Pascal (Shamgar Amram) e frequentado pela elite intelectual, empresarial e política da Inglaterra. Mona é forçada a trabalhar lá, um complexo secreto formado por uma grande biblioteca central no qual ocorrem shows com artistas circenses, decorado com grandes estantes com livros e mesas sobre as quais vemos casais em atos sexuais.

Em torno, diversos quartos temáticos: cada um foi projetado para recriar obras clássicas da literatura, enquanto as prostitutas se entregam aos fetiches dos clientes em meios às linhas de diálogo literárias: Shakespeare, Nabokov, Oscar Wilde, Bernard Shaw. Obras como Lolita, Desdêmona, Joana D’Arc, Pinóquio etc. são pretextos ou temas para realizar fantasias sadomasoquistas que podem chegar a ser fatais.

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1 comentário

  1. Fabula

    Ja faz certo tempo que acho que a civilização ou como diria ilustre ministro do STF “avanço civilizacional” seria apenas uma face de nossa barbarie ou um verniz para nossa barbarie. E hoje nos temos no governo uma barbarie sem verniz, sem mascara. Esta a vista de todos. Quem não enxerga? 

    O filme parece ser muito bom e agradeço por trazê-lo aqui. Nos pensamos que essas fabulas não existem, mas a Europa, Africa e Asia, principalmente, são um carrefour de vidas que atravessam existências ainda que de forma invisiveis. 

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